
RESUMO Introdução: O Brasil combina elevada desigualdade econômica, alíquotas nominais progressivas e alíquotas efetivas regressivas no topo da distribuição de renda. O artigo examina a estrutura de preferências do eleitorado brasileiro por tributação progressiva do imposto de renda e testa os determinantes dessas preferências. Materiais e métodos: O estudo utilizou survey com amostra representativa da população brasileira (n = 2.542), coletado em abril de 2024 por meio de entrevistas presenciais estratificadas por macrorregião, sexo, idade, escolaridade e renda. Além de perguntas diretas sobre alíquotas ideais para seis faixas de renda, foi aplicado um experimento conjoint no qual os respondentes escolheram entre planos tributários gerados aleatoriamente, permitindo inferências causais sobre preferências por progressividade independentes do destino dos recursos arrecadados. Resultados: Há amplo consenso em favor da isenção tributária para rendas baixas e da aplicação de alíquotas crescentes ao longo da distribuição. As alíquotas ideais para os estratos superiores estabilizam-se em torno de 15%, aquém da alíquota marginal legal vigente de 27,5%. Nenhum dos determinantes testados, renda individual, conhecimento tributário, identificação partidária e aversão à desigualdade, produziu perfis significativamente distintos de preferência por progressividade. Discussão: O consenso em torno da progressividade moderada sugere que a ausência de polarização nas preferências tributárias pode refletir tanto a extensão do acordo no eleitorado quanto limitações na operacionalização dos determinantes testados. Os resultados informam o debate sobre viabilidade política de reformas do IRPF, indicando que propostas com alíquotas superiores a 15% para o topo da distribuição tendem a enfrentar resistência eleitoral mesmo em um eleitorado formalmente favorável à progressividade.
RESUMO Introdução: O debate sobre financiamento eleitoral concentra-se predominantemente no lado da demanda (candidaturas e partidos), deixando subexplorada a perspectiva dos doadores. O artigo mapeia a produção empírica sobre padrões de financiamento eleitoral privado no Brasil, com foco nas estratégias dos financiadores. Materiais e métodos: Revisão de escopo conduzida com protocolo estruturado de sete etapas. O levantamento abrangeu o Catálogo de Teses e Dissertações e o Portal de Periódicos da CAPES, a plataforma Scielo e o Google Scholar, com operadores booleanos padronizados. Após triagem e análise de elegibilidade, a base final compreendeu 41 estudos empíricos, analisados nas dimensões formal, metodológica e substantiva. Resultados: A literatura revela coexistência de recortes analíticos distintos (oferta e demanda), mas convergência em padrões substantivos: a) grandes doadores, especialmente empresas no período anterior à proibição das doações corporativas, adotaram estratégias pragmáticas, caracterizadas pela diversificação de contribuições entre múltiplas candidaturas e partidos; b) doadores menores tenderam a comportamentos mais concentrados, potencialmente alinhados a preferências ideológicas; e c) o financiamento privilegiou candidaturas competitivas, reforçando desigualdades políticas preexistentes. Estudos com análise de redes identificaram estruturas altamente concentradas, com atores centrais interconectados formando uma elite político-econômica. Discussão: A literatura enfrenta dificuldade em delimitar analiticamente o comportamento dos doadores. Os padrões de financiamento fornecem indícios sobre estratégias, mas não permitem inferir motivações subjacentes. Avanços nesta agenda de pesquisa requerem combinação de métodos quantitativos e qualitativos, ampliação dos recortes temporais e atenção às sucessivas mudanças nas regras eleitorais.
RESUMO Introdução: Criadas para incluir a sociedade civil nas deliberações legislativas, as audiências públicas tornaram-se, na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), parte de um amplo processo de inovação institucional iniciado nos anos 1990. O artigo investiga quais são os conectores centrais dessas arenas deliberativas: o desenho institucional, os atores ou os temas. Materiais e métodos: Análise de Redes Sociais com técnica de redes de dois modos, que permite identificar conectores deliberativos pela coparticipação dos mesmos atores em múltiplas audiências públicas de diferentes comissões. A centralidade de grau e a análise de ilhas foram as métricas utilizadas para mensurar a integração do subsistema e identificar subgrupos temáticos. Os dados abrangem 1.344 audiências públicas realizadas entre 1999 e 2018, com 7.180 participantes únicos. Resultados: A hipótese de que organizações da sociedade civil seriam os conectores centrais foi refutada. Atores estatais dominam a rede: as secretarias estaduais de Saúde, Educação e Meio Ambiente estiveram presentes em 31 comissões distintas cada uma, e a Polícia Militar emerge como conector central da maior ilha temática, organizada em torno da segurança pública. Entre as 25 organizações mais ativas, apenas a federação das indústrias estaduais é não estatal; as demais organizações da sociedade civil são federações de trabalhadores rurais e urbanos e federações patronais da indústria e da agropecuária, evidenciando o conflito entre capital e trabalho como eixo estruturante das audiências. Discussão: As audiências públicas funcionam menos como espaço de empoderamento da sociedade civil e mais como arena de acomodação de interesses entre atores governamentais e corporativos. O achado questiona a capacidade inclusiva dessas audiências como instrumentos de legitimidade democrática e conecta duas literaturas ainda pouco integradas: a de instituições participativas e a de legislativos subnacionais.
RESUMO Introdução: A literatura sobre o Senado brasileiro privilegia seu comportamento legislativo ordinário e suas relações com a Câmara dos Deputados, deixando em segundo plano seu papel na mudança constitucional via Propostas de Emenda à Constituição (PECs). Embora emendas constitucionais no Brasil tendam a seguir padrão incremental voltado a políticas públicas (policy), permanece lacuna sobre como senadores utilizam PECs para alterar regras do jogo político (polity) em contextos de renovação parlamentar, polarização e conflito interinstitucional. Este artigo examina PECs iniciadas por senadores entre 1989 e 2022, com foco na 56ª Legislatura (2019-2022), indagando se mudanças no contexto político se refletem no conteúdo dessas propostas. Materiais e métodos: Construiu-se um banco de dados com 1.800 PECs do Senado (1989-2022), classificadas pela Metodologia de Análise Constitucional (MAC) entre policy e polity. Análise descritiva e exploratória agregou propostas por ano, governo, resultado e partido. A codificação seguiu protocolo com rodadas sucessivas de revisão para estabilidade das categorias, recorrendo a ementas, dispositivos constitucionais e justificativas. Resultados: Embora a taxa de arquivamento permaneça elevada (90%), identifica-se inflexão qualitativa na 56ª Legislatura: as PECs sobre o Supremo Tribunal Federal deixam de concentrar-se em procedimentos de nomeação e passam a propor limites a mandatos, restrições à conduta política de ministros e redefinição de competências. Paralelamente, surgem iniciativas para condicionar regras eleitorais e reintroduzir o debate sobre parlamentarismo. Discussão: Três fatores contextuais associam-se aos padrões observados: conflito entre poderes, renovação parlamentar (46 de 54 senadores estreantes em 2018) e intensificação da polarização. As PECs, mesmo arquivadas, funcionam como sinalizações políticas e tentativas de redefinição das regras. O estudo evidencia o Senado como arena de disputa constitucional contemporânea, embora não estabeleça relações causais entre contexto político e conteúdo das PECs.
RESUMO Introdução: A relação de orientação é condição estruturante da formação acadêmica e da produção científica, mas permanece pouco teorizada como objeto de investigação científica. O artigo examina os elementos intersubjetivos, institucionais e técnicos que atravessam a relação de orientação e sua incidência sobre a construção da expertise em escrita científica na pós-graduação stricto sensu brasileira. Materiais e métodos: O estudo adota uma abordagem qualitativa de tipo reflexivo-interpretativo, baseada em relato analítico das práticas docentes das autoras, complementado por observação das dinâmicas de outras comunidades acadêmicas e pela revisão de literatura sobre orientação, escrita científica e avaliação institucional. Resultados: Há dois tipos de orientação, cada qual com dinâmicas próprias de poder e interação: a) coletiva (laboratórios e grupos) e b) individualizada (TCC, dissertações, teses). O sistema de avaliação da CAPES opera como vetor de compressão dos tempos de pesquisa, subordinando a relação pedagógica à produção intensiva e ampliando riscos de adoecimento e conflito. A ausência de formação sistematizada para orientadores aprofunda a dependência de estilos idiossincráticos e a reprodução acrítica de modelos hierárquicos herdados da própria trajetória de formação. Discussão: O artigo evidencia que as exigências institucionais de produtividade prejudicam o processo de formação dos orientandos. As autoras problematizam questões éticas ligadas à coautoria, autonomia e desigualdades de gênero, raça e origem socioeconômica na relação de orientação. O texto reivindica a orientação como objeto de investigação sistemática, ainda subexplorado na literatura sobre pós-graduação e produção científica.
RESUMO Introdução: O artigo reavalia a tese de que a política econômica seria pouco permeável à intervenção do Congresso no Brasil. Examina como a Câmara dos Deputados monitora e modifica proposições do Executivo e busca explicar por que políticas de orientação desenvolvimentista enfrentam maiores dificuldades de aprovação, enfatizando o papel das comissões econômicas. Materiais e métodos: O estudo analisa a tramitação de proposições econômicas do Executivo na Comissão de Finanças e Tributação (CFT) e na Comissão de Desenvolvimento Econômico, Indústria, Comércio e Serviços (CDeics), entre 1995 e 2018. Combina estatística descritiva com modelos de regressão para estimar (i) a associação entre governo do PT e a presença de proposições desenvolvimentistas e (ii) a variação no emendamento por partidos da base entre governos petistas e não petistas. Resultados: Em governos do PT, aumenta a presença de proposições desenvolvimentistas e se intensifica a contestação intracoalizão, medida por emendas apresentadas por partidos governistas: a probabilidade estimada de tentativa de emendamento pela base é de aproximadamente 43% em gestões petistas e 15% em outros governos. Observa-se também queda no desempenho do Executivo na conversão de propostas em lei a partir de Lula II, sobretudo na Comissão de Desenvolvimento Econômico. Discussão: Os resultados indicam que a política econômica é objeto de controle legislativo mesmo por coalizões governistas, com as comissões atuando como arenas de ajuste das iniciativas do Executivo. Quando a agenda desenvolvimentista se afasta das preferências predominantes na coalizão, cresce a contestação intracoalizão; o aumento de emendas da própria base vem acompanhado de queda no desempenho do Executivo na conversão de proposições em lei. O estudo contribui para qualificar interpretações do presidencialismo de coalizão ao evidenciar mecanismos internos de contenção do Executivo, relevantes para explicar a menor probabilidade de sucesso de agendas econômicas mais ambiciosas.
RESUMO Introdução: A correspondência entre discurso e ação governamental constitui um elemento central da responsividade democrática. No campo dos estudos de agenda, a análise das prioridades temáticas do Executivo permite avaliar em que medida compromissos publicamente enunciados se traduzem em decisões governamentais. Este artigo examina o grau de congruência temática, mensurado por correlação estatística, entre a agenda retórica e a agenda decisória dos presidentes da República nos governos de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010) e Dilma Rousseff (2011-2016), contribuindo para o debate sobre agenda presidencial e responsividade no presidencialismo brasileiro. Materiais e métodos: O estudo aplica a metodologia do Comparative Agendas Project (CAP), baseada em codificação temática padronizada e mensuração da distribuição de atenção governamental. A agenda retórica foi operacionalizada a partir de programas de governo, discursos de posse e Mensagens ao Congresso Nacional, totalizando 8.664 quasi-sentences codificadas. A agenda decisória compreendeu 8.691 atos normativos de iniciativa do Executivo, incluindo decretos, medidas provisórias, projetos de lei e propostas de emenda constitucional. A associação entre as agendas foi mensurada por meio do coeficiente de correlação de Pearson. Resultados: Os resultados indicam variação substantiva na congruência entre as agendas ao longo dos mandatos presidenciais. O primeiro governo Lula apresentou correlação forte entre agenda retórica e agenda decisória; o segundo, correlação fraca. Nos governos Dilma, observou-se correlação moderada. A congruência foi mais elevada em áreas como políticas sociais, trabalho, educação e administração pública, enquanto temas como direitos civis, relações internacionais e meio ambiente exibiram maior descompasso entre discurso e ação. Discussão: Os achados evidenciam que a responsividade presidencial é fortemente condicionada pelo contexto político-institucional, pelas dinâmicas de governabilidade e pelas competências normativas do Executivo. A análise confirma que a agenda retórica tende a ser mais flexível e responsiva, ao passo que a agenda decisória é mais constrangida por fatores institucionais e conjunturais.
RESUMEN Introducción: Colombia suele considerarse una de las democracias más estables de América Latina, a pesar de su prolongado conflicto armado. Sin embargo, los ciclos de protesta iniciados en 2019 y reactivados en 2021, marcados por una fuerte represión estatal, pusieron en entredicho esta percepción. Este artículo analiza los factores que explican la participación en estas movilizaciones recientes, con el objetivo de comprender las motivaciones de la acción colectiva en el contexto colombiano. Materiales y métodos: Se adopta un enfoque cuantitativo, basado en los datos del Barómetro de las Américas para los años 2018, 2020 y 2021, complementado con análisis contextual. El modelo considera variables individuales, sociales y políticas, con especial atención al impacto de la pandemia de COVID-19 y al desgaste del gobierno de Iván Duque. Resultados: El análisis revela que la participación en protestas está fuertemente asociada con la evaluación negativa del gobierno, la participación en reuniones políticas y la identificación ideológica con el partido Colombia Humana. No se observaron asociaciones significativas con desapego democrático, confianza interpersonal o religiosidad. El perfil predominante de los manifestantes incluye jóvenes, hombres, con educación superior, alineados con la izquierda y políticamente activos. Discusión: Las protestas de 2019 y 2021 no constituyen un rechazo al régimen democrático, sino una impugnación dirigida al gobierno de turno. La investigación señala la necesidad de explicaciones multicausales de la acción colectiva, articulando teorías de redes sociales, elección racional y estructuras de oportunidad política. Se propone, así, un enfoque de nivel meso, centrado en el papel del capital social organizado, en contraste con interpretaciones puramente individuales o estructurales.
RESUMO Introdução: Políticas de bens duráveis, como habitação e saneamento, são relevantes para milhões de pessoas, mas seus efeitos eleitorais ainda são pouco conhecidos. Este artigo investiga: i) quem recebe bens duráveis; ii) como o favoritismo político influencia a distribuição desses bens; iii) quais são seus efeitos eleitorais; e iv) quais fatores explicam as variações nesses efeitos. Materiais e métodos: Foi realizada uma revisão de escopo da literatura acadêmica internacional publicada nos últimos 20 anos. A busca foi conduzida de forma estruturada no Google Scholar, utilizando a ferramenta Publish or Perish para coleta dos estudos. Após aplicação de critérios de seleção, foram analisados 19 artigos. Os trabalhos selecionados foram categorizados em quatro grupos principais, com base no tipo de bem analisado (público ou privado) e em subtemas recorrentes, como a disputa entre eleitores indecisos (swing voters) e eleitores leais (core voters), os mecanismos de captura política por elites locais e os efeitos eleitorais associados à distribuição de bens duráveis. Resultados: A distribuição de bens duráveis varia segundo o contexto político. Em geral, swing voters tendem a ser mais beneficiados, sobretudo quando os bens são de maior valor. Já os core voters costumam ser priorizados quando o bem tem menor valor ou em períodos próximos às eleições. O favoritismo político e a captura por elites locais também influenciam a alocação de recursos, embora disputas territoriais possam limitar esses efeitos. Os impactos eleitorais das políticas de bens duráveis dependem do tipo de bem, do momento político e da percepção dos eleitores sobre os benefícios recebidos. A variação nos retornos eleitorais é explicada por fatores como o valor percebido do benefício, o calendário eleitoral, a distribuição territorial e a capacidade do governo de responder a demandas em situações críticas. Discussão: Os estudos analisados mostram que não existe uma lógica única para a distribuição de benefícios materiais nem para seus efeitos eleitorais. Esses efeitos variam de acordo com o contexto político, o tipo de bem concedido e a percepção dos eleitores. A distinção entre bens públicos, como saneamento e eletricidade, e bens privados, como habitação, é fundamental para compreender essas variações. A literatura indica que diferentes tipos de políticas produzem padrões distintos de alocação de recursos e retornos eleitorais. Explorar essas diferenças contribui para identificar mecanismos causais e avançar na formulação de modelos explicativos sobre o impacto político da distribuição de bens materiais.
ABSTRACT Introduction: Between 2012 and 2025, Brazilian democracy faced a series of crises that tested the foundations of presidentialism, the judicial system, and federalism. This article examines how these tensions produced institutional change and revealed the regime's resilience. The central argument is that understanding democracy under stress requires integrating three dimensions: polity (the rules and institutions that structure the regime), politics (political competition and conflict among actors), and policy (public policy decisions and outcomes). Materials and methods: The study adopts a historical institutionalist approach, employing process tracing to identify causal mechanisms that link critical events, institutional choices, and changes in actors' behavior. The 2012-2025 period is analyzed across three arenas: the system of government, the judiciary, and intergovernmental relations. Results: Three major transformations were identified. In the system of government, the National Congress expanded its veto and policymaking powers - particularly through budgetary control - consolidating a form of “congressional government.” In the judiciary, the Supreme Federal Court (STF) broadened its protagonism: it redesigned political and electoral rules, ruled on the Mensalão scandal, and curtailed authoritarian initiatives under Bolsonarism, protecting state and municipal powers in the process. Within the federalist system, and despite the absence of formal reforms, subnational governments assumed a more prominent role - especially during the pandemic - enhancing their autonomous capacities and intergovernmental cooperation, albeit at the cost of exacerbating territorial inequalities. Discussion: The political crises between 2012 and 2025 not only tested but ultimately strengthened Brazil's institutions, prompting lasting adaptations and institutional learning. The interaction among polity, politics, and policy reshaped the political system - both formally and informally - revealing democratic resilience even under the risk of authoritarian rupture and threats of a coup. This interpretive framework contributes to comparative studies of how democracies under stress can adapt, endure, and transform.
Introdução: Programas profissionais em Ciência Política e Políticas Públicas passaram a incorporar debates sobre o caráter aplicado da pesquisa e sobre o papel dos Produtos Técnico-Tecnológicos (PTTs) como resposta a problemas públicos complexos. A emergência da Design Science Research (DSR) reforça a necessidade de aproximar teoria, prática e inovação, em consonância com diretrizes recentes da Capes e do PNPG 2025–2029. Este artigo examina o papel dos PTTs na pós-graduação profissional, destacando seu potencial de impacto social e sua contribuição para a solução de problemas reais. Materiais e métodos: O estudo adota uma abordagem metarreflexiva, baseada em revisão conceitual, normativa e metodológica sobre PTTs e DSR. Integra literatura nacional e internacional, documentos regulatórios da Capes e exemplos concretos de produtos desenvolvidos em programas profissionais. O objetivo é analisar fundamentos, critérios de avaliação, desafios recorrentes e potencialidades da produção técnico-tecnológica. Resultados: A análise evidencia que os PTTs são mais efetivos quando orientados por ciclos de relevância, rigor e design. Os quatro exemplos apresentados (Observatório de Gastos Públicos, Caixa de Ferramentas para políticas culturais, Relatório Técnico sobre dados culturais e framework para sandboxes regulatórios) demonstram diferentes níveis de complexidade, inovação e impacto, ilustrando como artefatos aplicados podem responder a demandas públicas específicas. Discussão:Argumentamos que os PTTs ampliam o potencial transformador da pós-graduação ao produzir artefatos úteis, replicáveis e socialmente relevantes. Concluímos que a DSR fornece arcabouço metodológico robusto para concepção, execução e avaliação de produtos orientados à solução de problemas públicos, fortalecendo a interface entre pesquisa e prática.
RESUMO Introdução: A possibilidade de reeleição é frequentemente associada ao aumento da accountability e à continuidade administrativa, mas também pode estimular incentivos de curto prazo e o uso estratégico de recursos públicos. Este artigo investiga os efeitos causais da reeleição de prefeitos sobre a alocação e a qualidade das políticas públicas municipais no Brasil, contribuindo para o debate sobre os impactos institucionais da competição eleitoral no nível local. Materiais e métodos: A pesquisa adota um desenho de regressão descontínua (RDD) aplicado a eleições municipais acirradas realizadas entre 2000 e 2020. O desenho quasi-experimental compara municípios em que o incumbente venceu ou perdeu por margens estreitas, de até 2 pontos percentuais, permitindo estimar o efeito médio local da reeleição. Foram utilizados dados orçamentários, educacionais e de saúde provenientes do SIOPS, SIOPE e Finanças do Brasil (FINBRA), combinados a informações eleitorais do TSE. As estimativas foram obtidas por regressão local polinomial ponderada, com testes de robustez baseados em diferentes bandwidths, controles de continuidade das covariáveis e placebo tests.Resultados: Os resultados indicam que prefeitos reeleitos mantêm padrões de gasto semelhantes aos do primeiro mandato, com ênfase em áreas de alta visibilidade, como obras e assistência social, mas sem ganhos significativos de desempenho em educação ou saúde. A reeleição, portanto, reforça práticas orçamentárias conservadoras e reduz a inovação administrativa. Discussão: Os resultados indicam que a reeleição produz continuidade política, mas não necessariamente governança mais eficiente. Ao privilegiar gastos eleitoralmente rentáveis e evitar mudanças estruturais, prefeitos reeleitos tendem a restringir a capacidade de planejamento e coordenação de longo prazo. Assim, a reeleição atua como um mecanismo ambíguo: promove estabilidade, mas também perpetua padrões de gestão voltados à manutenção do poder, em detrimento de resultados públicos sustentáveis.
Introdução: A desigualdade econômica e a polarização política emergiram como fenômenos centrais nas democracias contemporâneas. Este artigo revisa a literatura que investiga uma teoria influente sobre essa relação: a de que o aumento da desigualdade econômica impulsiona a polarização política. Busca-se avaliar a robustez e as limitações desse postulado teórico a partir da análise de estudos publicados entre 2006 e 2023. Materiais e métodos: Realizou-se uma revisão de escopo de artigos empíricos publicados em periódicos indexados, excluindo working papers e ensaios teóricos. As buscas foram conduzidas em Google Acadêmico e Crossref, via Publish or Perish, utilizando os termos "inequality", "polarization", "political polarization" e "affective polarization", em inglês, português e espanhol. Foram selecionados 28 estudos que investigam empiricamente a relação entre desigualdade e polarização. Todos adotam métodos quantitativos, predominantemente time-series cross-sectional (TSCS). Resultados: A literatura se organiza em três linhas explicativas principais. A teoria do eleitor mediano partidária (MRP) postula que desigualdade aumenta demanda por redistribuição, radicalizando partidos de esquerda e provocando reação da direita. A teoria da privação econômica (TPE) argumenta que setores marginalizados, ressentidos pela perda relativa de renda, voltam-se à partidos radicais de direita. Uma terceira linha sugere uma relação negativa: desigualdade reduziria polarização ao inibir participação política ou fragmentar coalizões. Os achados favoráveis à associação positiva predominam (cerca de 60%), embora resultados inconclusivos ou negativos não sejam desconsideráveis. Independentemente da direção teórica, os estudos convergem ao identificar eleitores de baixa renda, marginalizados ou com menor qualificação como protagonistas da polarização. A divergência central reside em como esses grupos reagem: mobilizando-se para a esquerda (MRP) ou direita radical (TPE). Os estudos concentram-se fortemente nos Estados Unidos e em democracias afluentes (79%), com ausência quase total de pesquisas sobre democracias mais recentes ou países da América Latina. Discussão: A heterogeneidade na operacionalização de polarização e desigualdade dificulta conclusões mais robustas. Indicadores desagregados são mais precisos, porém apenas cinco estudos realizam testes de robustez. Indicadores agregados, como o Gini, limitam testes de teorias sobre grupos específicos. Teoricamente, há consenso sobre a centralidade dos grupos marginalizados na polarização. A teoria da privação econômica oferece explicação mais convincente para o avanço contemporâneo da direita radical. No entanto, persistem algumas lacunas críticas: (i) mecanismos que orientam marginalizados para diferentes polos permanecem inconclusivos; (ii) ausência de métodos qualitativos; e (iii) escassez de pesquisas sobre democracias latino-americanas, onde a relação entre essas variáveis pode operar de forma distinta, e de estudos sobre polarização afetiva.
Introdução : O artigo discute como categorização, estereótipos e estigmas podem ser mobilizados para analisar a implementação de políticas públicas no Brasil, um país marcado por altas desigualdades sociais. Embora a literatura internacional e nacional sobre burocracia de nível de rua reconheça o papel da discricionariedade dos agentes, esses conceitos ainda são pouco utilizados de forma sistemática. O objetivo é definir os conceitos, mostrar como foram aplicados na literatura e propor uma agenda de pesquisa ajustada ao contexto brasileiro. Materiais e métodos: Trata-se de uma revisão narrativa de literatura, que reúne referências clássicas (Durkheim, Goffman, Yanow, Lamont, Dovidio, entre outros), estudos sobre burocracia de nível de rua (Lipsky, Maynard-Moody & Musheno, Tummers, Brodkin) e trabalhos recentes no Brasil (Lotta, Pires, Cordeiro, Thomazinho, Marins, Costa). O artigo sistematiza definições, aplicações empíricas e lacunas, apresentando sínteses conceituais e de perguntas de pesquisa. Resultados: A revisão indica que: (i) categorização organiza cognitivamente a realidade, distinguindo cidadãos em categorias oficiais (administrativas) e sociais (morais e culturais), influenciando acesso a direitos; (ii) estereótipos funcionam como atalhos cognitivos ou lentes interpretativas, orientando julgamentos sobre usuários e podendo reforçar desigualdades; e (iii) estigmas desvalorizam grupos ao contrapor identidades reais e idealizadas, com efeitos simbólicos e materiais. A agenda de pesquisa propõe investigar a relação entre categorias sociais e oficiais, os mecanismos de construção e bloqueio de estereótipos e o impacto dos estigmas sobre trajetórias de usuários de serviços públicos. Discussão: O estudo mostra que esses conceitos ajudam a compreender tanto efeitos materiais (acesso desigual a bens e serviços) quanto simbólicos (identidade, status e reconhecimento). Defende-se a adoção de uma abordagem interseccional, integrando raça, gênero, classe e outros marcadores, para captar como múltiplas opressões atravessam a implementação de políticas públicas. A combinação de desigualdade profunda e políticas universais no Brasil torna o país um caso privilegiado para o debate internacional.
Introdução: A formação em Ciências Humanas e Sociais enfatiza o caráter coletivo da produção científica, mas oferece menos orientação sobre como pesquisadores(as) desenvolvem autoria e identidade intelectual. Questões como protagonismo na pesquisa, relação com tradições disciplinares, desigualdades sociais e pressões por produtividade influenciam a inserção acadêmica e a capacidade de formular contribuições próprias. Este artigo examina os elementos que estruturam a construção da autoria científica ao longo da trajetória formativa. Materiais e métodos: O estudo baseia-se em revisão narrativa e em reflexão analítica fundamentada na experiência da autora em pesquisa, ensino e orientação. Mobiliza literatura sobre escrita científica, reflexividade, hierarquias acadêmicas, interdisciplinaridade e práticas de coautoria, articulando evidências empíricas e exemplos provenientes de diferentes campos das Ciências Humanas. Resultados: A análise identifica quatro dimensões centrais para o desenvolvimento da autoria: i) protagonismo na definição do problema de pesquisa; ii) escrita como prática de produção de conhecimento, e não apenas comunicação; iii) negociação ética e transparente das contribuições em trabalhos coletivos, considerando hierarquias, gênero, raça e classe; e iv) ampliação do repertório intelectual por meio de interdisciplinaridade, leitura crítica e participação em redes acadêmicas. Aponta ainda como desigualdades de origem social moldam percepções de pertencimento e condições objetivas de inserção no campo. Discussão: Sustenta-se que autoria é uma prática situada e reflexiva, resultante da articulação entre escolhas individuais e estruturas acadêmicas. Conclui-se que compreender esse processo fortalece a autonomia intelectual, amplia a capacidade analítica e contribui para trajetórias acadêmicas mais conscientes, críticas e autorais.
Introduction: Hybrid threats, including disinformation, propaganda, and cyberattacks, pose significant challenges to democratic processes. This study examines how information policies can help safeguard democracy, focusing on the Ukrainian case after 2014, when such threats intensified as tools for institutional destabilization and erosion of public trust. Materials and methods: The study takes a multidisciplinary approach, integrating document analysis, literature review, public policy evaluation, and case studies, drawing on sources such as international reports, national legislation, fact-checking platforms, and records of informational attacks. Empirical examples include the spread of false information during Brexit, fabricated narratives about the conflict in eastern Ukraine, and global cybersecurity incidents such as WannaCry and NotPetya. Results: Our findings show that hybrid threats erode political participation, deepen polarization, and weaken democratic institutions. The study identifies three main axes of response: strengthening Ukraine’s legal framework on media and communication, promoting interinstitutional coordination for monitoring and rapid response, and leveraging both state and independent platforms to identify and counter manipulative content. The research also demonstrates that media literacy and government transparency play a critical role in building societal resilience against disinformation campaigns. Discussion: The analysis indicates that balanced information policies are vital for mitigating external interference while preventing excessive state measures that could threaten civil liberties. The Ukrainian case underscores the importance of adaptive strategies, international cooperation, and the integration of advanced technologies to safeguard the democratic public sphere under conditions of instability. Information policy therefore emerges as a strategic instrument for safeguarding democratic stability, with its effectiveness resting on robust institutions, continuous monitoring, and rapid responsiveness in the contemporary information environment. Keywords: digital governance; public sphere; civic engagement; cybersecurity; information platforms.
Introdução: Escolher a revista científica adequada é uma etapa decisiva do processo de publicação, influenciando a visibilidade do artigo, a circulação da pesquisa e a trajetória acadêmica do(a) autor(a). Mudanças recentes na avaliação dos Programas de Pós-Graduação, especialmente a adoção de novos critérios pela CAPES, tornaram essa decisão ainda mais estratégica. Este guia discute como jovens pesquisadores(as) podem realizar escolhas editoriais mais seguras e eficazes. Materiais e métodos: O estudo se caracteriza como um ensaio analítico fundamentado em literatura especializada sobre práticas editoriais, documentos normativos da CAPES, pesquisas sobre indexação e métricas, além da experiência profissional do autor como parecerista e editor. A análise aborda cinco dimensões centrais: preparação técnica do manuscrito, alinhamento ao escopo, celeridade e regularidade editorial, indexação e métricas bibliométricas, e riscos associados a revistas predatórias. Resultados: A análise revela que muitos problemas de publicação decorrem de inadequações formais, falta de revisão técnica e desconhecimento sobre escopo institucional dos periódicos. Mostra que revistas predatórias oferecem riscos significativos à credibilidade acadêmica e que a escolha de um bom periódico exige equilibrar visibilidade, prestígio, qualidade editorial e rapidez do processo. Evidencia ainda que métricas como h5 e mediana h5 podem auxiliar, mas não devem orientar a decisão de forma isolada. Discussão: Argumenta-se que a escolha da revista deve ser compreendida como decisão estratégica e formativa, não meramente instrumental. Defende-se que recusas editoriais fazem parte do processo científico e devem ser encaradas como oportunidades de aprimoramento. Conclui-se que escolhas informadas, baseadas em critérios técnicos e institucionais, fortalecem a circulação da pesquisa e contribuem para trajetórias acadêmicas mais consistentes.