
RESUMO Muitas respostas ao Teste das Vinte Sentenças (TST, Kuhn & McPartland, 1954), uma aplicação que reflete a descrição espontânea que os indivíduos fazem de si mesmos em resposta à pergunta Quem sou eu, são aparentemente semelhantes a traços de personalidade. Essas respostas foram classificadas livremente em respostas subconsensuais, idiocêntricas ou alocêntricas. Neste trabalho, as respostas de autoavaliação são categorizadas em termos de características ou demandas da interação, em contraste com os fatores do modelo de cinco fatores (McCrae & Costa, 1990). Os resultados mostram o ajuste das dimensões das respostas em aspectos de interação social. Da mesma forma, as respostas indicam estratégias de apresentação, o que resulta no uso majoritário de termos positivos. Assim, as respostas ao instrumento podem ser entendidas como uma espécie de tipificação pessoal da forma como nos relacionamos com as outras pessoas e com o mundo sócio-material. Por fim, os resultados são analisados por meio de variáveis sociodemográficas, apresentando nítidas diferenças por sexo, idade e escolaridade.
Resumo Esta pesquisa objetivou compreender os itinerários terapêuticos de mulheres em situação de rua em “XX” e trazer à tona suas narrativas, outrora silenciadas. Entrevistaram-se oito mulheres em situação de rua por meio da investigação-ação participativa, apoiada na escuta territorial, roteiro semiestruturado e registros em diário de campo. Os resultados apontaram a presença de redes formais e informais para o enfrentamento das adversidades, bem como experiências relacionadas às violências de gênero e do Estado. Nesse sentido, a violência intrafamiliar apareceu como fator precipitador para habitar a rua, ao passo que, do mesmo modo, a violência se mostrou a tônica de suas vivências. As narrativas revelam a urgência de políticas públicas direcionadas para as mulheres em Situação de Rua (SR), o que pode ser alcançado por meio de uma aproximação com seus itinerários por meio da escuta territorial, pois esta permite uma compreensão verdadeira de suas demandas.
Resumo O presente artigo é parte dos resultados de uma pesquisa de dissertação de mestrado, que teve como objetivo compreender a experiência da homoparentalidade feminina em um bairro de periferia de uma cidade da região metropolitana de Porto Alegre/RS, a partir da perspectiva de uma família. Neste artigo, discutiremos aspectos relacionados a gênero, classe social e sexualidade, iluminando os muros que separam diferentes realidades sociais. Os participantes da pesquisa são uma família homoparental, composta por um casal de duas mulheres e seu filho. O método, de caráter qualitativo, foi conduzido por meio de escutas ativas, tendo como inspiração a etnografia e a psicanálise. Os resultados destacam as relações entre classe social, a homossexualidade feminina e o lugar social ocupado pelas mulheres. Podemos concluir que a família enfrenta amarras sutis no seu contexto de vida, cercado por altos muros simbólicos, apesar da frágil fronteira entre as casas na periferia.
Resumo O presente ensaio debate o mal-estar no laço social especificamente capitalista e o controle da subjetividade, relacionando a psicologia social freudiana e a economia política crítica. Considera (a) o trabalho como elemento central das relações sociais no sistema de capital, e (b) a necessidade psíquica dos(as) trabalhadores(as) em estabelecer com o trabalho relação de afeto, pertença e identificação. O argumento é que a destruição do processo civilizador, sob o patrocínio do sistema de capital e de sua negação aos laços sociais emancipadores, não se dá sem resistência, exigindo do Capital e do Estado Capitalista investimentos no controle e sequestro da subjetividade. O sequestro da subjetividade manifesta-se como a forma mais sofisticada de controle social, que decorre do investimento planejado do capital para assumir o comando sobre a dimensão da subjetividade que importa ao seu processo de produção e reprodução, em sua lógica de acumulação, invadindo a vida plena do(a) trabalhador(a).
Resumo Convocadas pela pergunta de Sukhbinder Hamilton, Berenice Golding e Jane McCarthy sobre a necessidade de descolonizar estudos sobre luto, no presente ensaio propomos um giro decolonial em tal pergunta, marcada pelo Norte Global, tematizando o imbricamento da colonialidade no trabalho daquelas(es) que pesquisam sobre o luto e propondo a questão sobre quais possibilidades se abrem para as perspectivas acadêmicas e para as pessoas enlutadas ao descolonizarmos nossas pesquisas. Em diálogo com a literatura nacional e internacional, argumentamos que o uso de modelos teóricos hegemônicos, subjetivistas, generalizadores e universalizantes encobre violências coloniais sofridas por populações enlutadas por mortes vividas no interior da colonialidade. Concluímos que tais lutos e mortes exigem que a academia abra mão de paradigmas hegemônicos e repense suas heranças coloniais para visibilização do luto como experiência concreta, dada segundo a situação vivida da(o) enlutada(o), e não como mero objeto.
Resumo Na musicoterapia social e comunitária, vem ocorrendo, por uma parcela dos(as) profissionais, um afastamento do lugar convencional de prática. Isso leva esses(as) profissionais a atuarem com distintas parcelas da população, criando diferentes caminhos teóricos e práticos. Este artigo, de abordagem qualitativa e caráter exploratório, propõe identificar as possibilidades de coletivos de musicoterapeutas que atuam na perspectiva social e comunitária no Brasil, apresentando-os com suas atuações e contribuições na construção da profissão ao levar a Musicoterapia a outros espaços. As informações analisadas derivaram de entrevistas semiestruturadas com musicoterapeutas que atuaram em coletivos de musicoterapeutas no país. Neste artigo exploramos as experiências dentro dos coletivos, bem como os efeitos e desdobramentos vivenciados. Constatamos que os coletivos de musicoterapeutas, a partir do dissenso e das relações horizontalizadas, representam uma configuração de prática potente que pode contribuir no alargamento das formas de se pensar e fazer Musicoterapia no Brasil.
Resumo Este artigo aborda os temas Trabalho, Assistência Social e Violência de Estado a partir de tese que se propõe a pensar a dimensão clínica e ética do ofício, quando suas trabalhadoras se vêem convocadas a servir como operadoras de um Estado de extermínio. Trata-se de uma pesquisa-intervenção que, através de rodas de conversa e diários de campo, se constrói a partir das experiências de trabalho na Política de Assistência Social. O testemunho é apresentado como criação de meio para a ação pelas trabalhadoras, visto que as violências de Estado buscam romper o coletivo de trabalho, esse último condição para fazer viver o ofício e para a saúde das trabalhadoras. Ao considerarmos que o trauma está na própria história do ofício, propomos a reparação como emergente do meio, como ato contínuo, através do qual o traumático possa se tornar criação de novos possíveis para a existência.
Resumo Este artigo é derivado de uma dissertação de mestrado sobre a Gestão Autônoma da Medicação (GAM) e dedicou-se ao que comumente se denomina como metodologia. A GAM é uma estratégia em saúde mental disseminada no Rio Grande do Sul (RS) através de diferentes pesquisas, tendo como objetivo criar espaços de fala para aumentar o poder de negociação dos usuários em relação a seus tratamentos. Mobilizado por princípios de cogestão e autonomia que fundamentam a GAM, este escrito explora questões metodológicas visibilizadas por dispositivos de pesquisa experimentados entre 2014 e 2023, os quais almejaram desestabilizar o lugar do pesquisador e do profissional como produtores de conhecimento, sobretudo no reconhecimento do usuário como sujeito de pesquisa. Esperamos, com isso, contribuir com a divulgação dos dispositivos da GAM-RS, fomentando a discussão sobre modos de pesquisar que compreendam a experiência dos sujeitos não como objetos, mas de relevância equiparável aos saberes dos especialistas.
Resumo Este estudo, fruto de uma dissertação de mestrado em Psicologia, investigou as condições de produção de saúde mental de mulheres quilombolas da comunidade do Grilo, Paraíba, considerando a interseccionalidade e a determinação social da saúde mental. A pesquisa qualitativa, baseada na Educação Popular e na problematização crítica da realidade, utilizou a interseccionalidade como eixo transversal e adotou a pesquisa participante como metodologia. As estratégias incluíram participação observante, atividades grupais, entrevistas e registros em diário de campo. O Círculo de Cultura foi uma ferramenta central, permitindo a articulação entre experiências singulares e os sistemas de opressão que interpelam seus corpos-territórios. A dialogicidade viabilizou reflexões coletivas, fortalecendo práticas de cuidado e resistência. O estudo evidenciou como a vivência de novas experiências, mediadas pela ação-reflexão-ação, pode transformar consciências e relações, valorizando os saberes locais, o território e as redes de apoio entre as mulheres participantes.
Resumo Este trabalho analisa a categoria emancipação em publicações da revista Psicologia & Sociedade (P&S), editada pela Associação Brasileira de Psicologia Social. Da “crise da psicologia social” nos anos 1970 emergiram perspectivas críticas empenhadas com a transformação social, condição para a emancipação humana. O objetivo geral consiste em investigar os modos como a categoria emancipação humana foi elaborada em publicações da P&S entre 1986 e 2016. Os objetivos específicos foram: analisar as concepções de emancipação nos textos; identificar as concepções de psicologia social; e apresentar as correntes teóricas. Foi uma pesquisa bibliográfica, com fundamentação teórica no marxismo. Há contribuições importantes para o debate sobre emancipação no corpus bibliográfico, como a compreensão dialética da relação entre indivíduo e sociedade e críticas à sociedade capitalista, assim como estão ausentes discussões sobre outras mediações fundamentais, como a superação radical da sociedade e do Estado burgueses.
Resumo Este artigo analisa, sob uma perspectiva psicossocial crítica, a atuação de brigadistas florestais voluntários(as) na prevenção e combate a incêndios florestais em contextos de emergência climática e conflitos territoriais no Brasil. A partir de uma imersão no “mundo dos(as) brigadistas” (2022-2025), a autora-pesquisadora, atuando como acadêmicabrigadista, identifica elementos de resistência contracolonial presentes nas ações de brigadistas. Suas práticas rompem com a dicotomia moderno-ocidental entre “natureza” e “sociedade”, articulando saberes técnicos, científicos e comunitários em defesa dos territórios e bem comum. Destaca-se a dimensão política da atuação de brigadistas, sua inserção em redes socioambientais e sua presença crescente em espaços participativos, como conselhos e conferências de meio ambiente. Ao valorizar os conhecimentos e a organização de brigadistas, esta pesquisa-participante contribui para o reconhecimento de novas formas de ação coletiva e de justiça climática, enfrentando as lógicas extrativistas, capitalistas e coloniais que seguem ameaçando povos, ecossistemas e modos de vida.
Resumo A crise climática se coloca como um dos principais desafios da humanidade no século XXI. As possiblidades de lidar com tal crise requerem mudanças estruturais na forma de organização socioeconômica mundial. O artigo objetiva propor uma categoria de análise que contribua para a elaboração de uma psicologia política da crise climática de tradição marxista e inspirada nas lutas de povos da floresta amazônica. O corpus empírico foi composto por 27 entrevistas, observações participantes e pesquisa documental abordando organizações com pautas socioambientais da região do Vale do Rio Acre. A partir da análise do corpus e de estudos bibliográficos, propõe-se a categoria práxis socioambiental. Evidencia-se a multiplicidade de atores/atrizes e repertórios envoltos na luta socioambiental. O estudo busca contribuir para a articulação de tal diversidade em prol do fortalecimento de ações que visem a promoção do Bem-Viver e a proteção da habitabilidade do planeta.
Resumo Este artigo parte da controvérsia em torno da classificação do Guaíba - se é um rio, um lago ou nenhum - para discutir como a construção de “verdades” científicas está imbricada em contextos sociais, políticos e culturais. Com base em uma cartografia das controvérsias, a partir de contribuições dos Estudos de Ciência e Tecnologia e da Psicologia Social, este artigo mapeia discursos midiáticos, populares, científicos e indígenas que deflagram disputas de tipificações do corpo hídrico. Situado no contexto das enchentes de maio de 2024 no Rio Grande do Sul, o texto provoca um olhar conectado à crise climática e ao Antropoceno, compreendido não apenas como uma era geológica, mas como uma virada epistemológica que tensiona a centralidade da análise para além do humano. Defende-se que a Psicologia Social deve estar atenta às controvérsias como formas de disputa por mundos possíveis, valorizando epistemologias plurais e práticas de cuidado.
RESUMO Este trabalho é derivado de uma dissertação que explorou estratégias de enfrentamento utilizadas por mulheres brasileiras desenvolvedoras de jogos para lidar com a violência de gênero nesse meio. A metodologia baseouse em uma abordagem qualitativa e exploratória, com coleta de dados realizada por meio de entrevistas individuais com 10 mulheres desenvolvedoras. A análise foi conduzida a partir das práticas discursivas e produção de sentidos propostas por Spink (2010). Os resultados indicaram que todas experienciaram algum tipo de violência de gênero ao longo de suas carreiras, geralmente advinda de chefes ou colegas de trabalho. Elas adotam estratégias de sobrevivência, como a normalização das violências ou a autoproteção, bem como estratégias de resistência e mudança. Além disso, foi enfatizada a necessidade de ações transformadoras que devem ser implementadas pela indústria. Por fim, espera-se que este estudo contribua para futuras pesquisas que busquem soluções para tornar esse cenário adverso mais inclusivo para minorias.
Resumo A esquizofrenia é um dos transtornos mais comuns em pacientes de instituições de custódia e frequentemente associada a maior risco de violência. O objetivo deste estudo foi realizar uma revisão da literatura integrativa e da legislação brasileira sobre a atuação do psicólogo jurídico na ressocialização de pessoas com esquizofrenia internadas em instituições públicas de tratamento. Foram consultadas as bases Google Acadêmico e SciELO (2014-2023), e após os critérios de inclusão e exclusão, 13 estudos foram analisados qualitativamente. Identificaram-se duas categorias principais: a ineficácia das medidas de segurança e as estratégias de intervenção psicológica. Os resultados apontam a importância de tratamentos integrados que envolvam psicoterapia, medicamentos, arteterapia, psicoeducação e avaliação de periculosidade, associados ao suporte jurídico e psicossocial. Conclui-se que é urgente reformar os hospitais de custódia, integrando-os às políticas de saúde mental, e ampliar pesquisas empíricas que avaliem a efetividade das estratégias psicológicas na reintegração social de indivíduos com esquizofrenia.
RESUMO O presente artigo discute as estratégias de produção dos múltiplos estímulos e sensações nomeados como “dor” nas práticas sexuais BDSM. Trata-se do registro de um percurso investigativo em perspectiva praxiográfica, ou seja, um tipo de etnografia focada nas práticas, que considera a agência e os engajamentos entre humanos e não humanos na produção das realidades, em comunidades de praticantes situadas em Porto Alegre e São Paulo. A partir de dois relatos de pesquisa, aponta-se para questões transversais ao campo desenvolvido: a consensualidade e a negociação do risco nas práticas BDSM; a responsabilidade ética entre participantes; e as técnicas e materialidades relacionadas à produção da dor. O artigo oferece elementos para compor a discussão sobre consensualidade no BDSM, levantando contrapontos com racionalidades biomédicas e moralizantes, e destacando a multiplicidade de agenciamentos e singularidades das experiências de dor.
Resumo O presente artigo versa sobre relações estabelecidas entre a elite branca de duas cidades interioranas do nordeste brasileiro com estudantes universitários negros e africanos. Nesse sentido, objetivamos analisar os discursos da elite branca de Redenção e Acarape sobre universitários negros e africanos da UNILAB. Com delineamento qualitativo, realizamos entrevistas semiestruturadas, que passaram por recursos de análise do software Iramuteq. Nossas análises foram empreendidas em diálogo com um quadro referencial psicossocial que contempla o mito da democracia racial e o pactos da branquitude. Observamos a existência de relatos com foco na manutenção dos privilégios da elite branca, de defesa do mito da democracia racial e de manifestação de racismo estrutural da sociedade brasileira. Consideramos a necessidade de problematização dessas construções ideológicas pelas elites como estratégia de desmantelamento dos focos de preconceito na sociedade.
RESUMO Este artigo explora as conexões entre a psicanálise e o pensamento ecológico para investigar como as catástrofes ambientais não se articulam apenas com os campos da política e da ciência, mas também com o do psíquico. Para tanto, relaciona conceitos psicanalíticos fundamentais à virada ontológica e a cosmogonias e perspectivas não coloniais que interrogam a separação entre as noções de humano e de natureza. Esse percurso se dá de maneira atenta aos problemas do Antropoceno: termo usado para designar a época geológica marcada pela profunda interferência humana no nosso sistema planetário.
Resumo As mudanças climáticas, mais do que fenômenos naturais, evidenciam o colapso de um modelo civilizatório sustentado pela colonialidade. Este artigo, fruto de pesquisa pós-doutoral, analisa a construção de estratégias de Atenção Psicossocial voltadas a populações indígenas em contextos de desastres e emergências, com foco na participação efetiva desses povos e na valorização de seus saberes tradicionais; examinando de forma especial o Plano Nacional sobre Mudança do Clima e o Plano Nacional de Defesa Civil. A partir de entrevistas em profundidade, propõe o deslocamento da lógica vitimizadora para o reconhecimento dos saberes originários como formas de resistência, cuidado e criação de futuros. Ao escutar territórios e vozes historicamente silenciadas, busca compreender como a perspectiva do BemViver pode ser integrada às políticas climáticas de modo ético e transformador. Assim, tensiona os campos das políticas públicas, dos estudos climáticos, da gestão de desastres e da psicologia, com base no Bem-Viver indígena.