
Este artigo analisa criticamente os desafios da governança policêntrica do clima a partir das Conferências entre as Partes (COPs), abordando suas potencialidades e limitações como arenas de negociação política e produção de consensos multilaterais. O objetivo principal é compreender como a abordagem policêntrica tem moldado a governança climática global e em que medida essa perspectiva tem sido eficaz diante da complexidade e das desigualdades estruturais envolvidas nas mudanças climáticas. A justificativa reside na necessidade de investigar os processos discursivos, institucionais e políticos que organizam a resposta global à crise climática, especialmente diante da crescente assimetria entre os atores envolvidos e da crise de legitimidade das instituições multilaterais. A metodologia adotada é qualitativa, com base em revisão bibliográfica, articulando diferentes autores que discutem o assunto, apontando a interdisciplinaridade deste tema. O texto analisa o papel das COPs como espaços performativos de disputa entre Estados, empresas, movimentos sociais e organizações civis, destacando tanto seus avanços quanto os entraves enfrentados, como a fragmentação institucional, o colonialismo climático e a financeirização das soluções. A principal conclusão é que, embora o policentrismo represente uma alternativa relevante ao modelo estatocêntrico, ele não elimina as desigualdades estruturais nem garante eficácia e justiça na ação climática global. Ao contrário, sua instrumentalização pode legitimar formas tecnocráticas e mercantis de governança que perpetuam a lógica neoliberal e normalizam o colapso climático.
A partir do conceito de máquinas de guerra, que dá a ver os emaranhamentos entre subjetividades, semióticas e materialidades em devires de transgressão e produção de linhas de fuga; da compreensão do campo de forças nomeado com “arte ocidental” como da ordem de um poder disciplinar que anormaliza e invisibiliza determinadas estéticas – comunitárias, gênero dissidentes, racializadas –; e, finalmente, das viradas ontológicas colocados pelos feminismos neomaterialistas, o artigo, inscrito no vértice dos estudos do campo discursivo e dos estudos de gênero e sexualidade, cartografa as subjetivações, condutas e modos de fazer do que denomina artisticidades gênero-dissidentes, dando a ver, nessas estéticas das coisas e de si, um rizoma que inventa modos de ficar com o problema do humano, proposições éticas para as precariedades enfrentadas pelas dissidências de gênero e estratégias de resistência em prol de um bem viver.
O artigo analisa as relações socioecológicas entre o rio Doce e as comunidades ribeirinhas urbanas de Governador Valadares. Destaca-se as perspectivas histórica, econômica, cultural e política do rio na constituição do território e das identidades locais. A investigação se apoia em três perspectivas interligadas: o rio como recurso, como sagrado e como risco. Além de ser essencial para a subsistência e a memória cultural dessas comunidades, o rio também evoca vulnerabilidades, especialmente frente às enchentes sazonais e ao desastre da barragem de rejeitos de mineração da Samarco em 2015, que impôs profundos impactos socioambientais. Discute-se ainda os desafios relacionados à urbanização e à mineração, e como esses processos afetam a qualidade de vida e a permanência territorial dos ribeirinhos. Em suma, a realidade dos ribeirinhos de Governador Valadares reflete um território vivido, onde a perspectiva econômica, que vê o rio como recurso, convive e tenciona com a dimensão cultural, que o concebe como sagrado, e são atravessadas pela dimensão política do risco, que estrutura vulnerabilidades. Palavras-chave rio Doce; ribeirinhos urbanos; relações socioecológicas; memória; riscos
Este artigo busca analisar a hesitação e a recusa vacinal como trama discursiva que reordena critérios de verdade no Brasil durante a covid-19, em chave de biopolítica foucaultiana, por meio de um estudo qualitativo de inspiração arqueogenealógica. O corpus é composto de postagens de dois grupos do Facebook contrários à vacinação, localizadas pela busca do termo “covid” e selecionadas pelo maior número de interações, a fim de mitigar viés curatorial; as interações foram tomadas como indício de validação tecnodiscursiva. Foram identificadas quatro estratégias discursivas recorrentes e frequentemente sobrepostas: (i) moralidade cristã que sacraliza o corpo e desloca a proteção para a fé; (ii) discursos de saúde natural, que reconfiguram prevenção e imunidade como autocuidado fora da mediação biomédico-estatal; (iii) deslegitimação de instituições (Estado, órgãos sanitários, mídia, Judiciário); e (iv) crítica à ciência e à indústria químico-farmacêutica, que reinterpreta a vacinação como experimento e como risco ampliado. Tais estratégias compõem uma economia de suspeição que desloca a vacina do eixo cuidado/solidariedade para risco/sujeição. Considera-se que reduzir o discurso antivacina à desinformação obscurece sua complexidade e pode reforçar resistências; ampliar coberturas requer comunicação dialógica e transparente e a publicização de rotinas de farmacovigilância, recompondo circuitos de confiança.
O objeto da reflexão é o desastre da Vale/BHP/Samarco. A proposta é verificar se o conceito de Envirotechnical Regime é uma ferramenta analítica útil à formulação de políticas públicas abrangentes e capazes de enfrentar e mitigar as várias dimensões fenomênicas dos desastres e reduzir riscos e incertezas. Os pontos de vista diferentes, as tensões e os conflitos envolvendo os múltiplos atores são manifestações do que se pode definir como contrariis legibus, ou seja, diferentes regimes em disputa, tais como regime jurídico estatal, regime de preços, regime tributário e direitos locais das comunidades. Daí as políticas públicas precisarem considerar que as relações são todas marcadas pelo poder.