
O artigo reflete sobre o cuidado de si e do outro na maternagem, tomando como referência a roda de gestantes. Ancora-se nos pressupostos bakhtinianos, articulados aos estudos feministas e à sociologia da infância. Discute as novas configurações da responsabilização materna, indissociáveis das relações de poder instituídas pelo patriarcado, racismo e capitalismo. Destaca o modelo patriarcal de maternagem, atravessado por histórias de precariedade, ausência de recursos e outras vulnerabilidades. No âmbito da luta pela dignidade da primeira infância e pela justiça social, aventa a necessidade de fortalecer espaços coletivos com gestantes e com a rede parental, voltados à valorização e à democratização das relações – tanto pela redistribuição de poder quanto pelo reconhecimento da humanidade plena de mulheres e crianças, especialmente daquelas historicamente silenciadas e colocadas à margem dos processos decisórios.
Situado no quadro teórico-metodológico das abordagens (auto)biográficas, o presente artigo tematiza maternidade(s) e infância(s), partindo das narrativas de uma professora-pesquisadora que durante seu percurso acadêmico torna-se mãe. No processo do doutoramento, escrevendo seu memorial, a mãe-pesquisadora escava reminiscências de sua formação estética e, ao falar de si, de maneira incontornável reflete sobre a condição materna e o encontro (trans)formador com a força da infância, compreendida filosófica e arquetipicamente como novidade, experiência e potência. A escrita memorialística, produzida como uma parte da tese, é a base de dados para este artigo, que articula reflexivamente a singularidade da vida da doutoranda-mãe, à trama sócio-cultural: a maternidade, vivida desde o lugar social ocupado pela mãe, interroga o direito de acesso ao patrimônio cultural e artístico pelas crianças-filhas e a contribuição da Educação Infantil.
Este trabalho analisa os desafios acadêmicos de mulheres mães universitárias e a sobrecarga física e mental, que afeta a sua saúde e bem-estar ao ter que lutar pela permanência nas universidades. Investiga as políticas públicas vigentes para a permanência materna e questiona quais ações de promoção ao bem-estar o Estado brasileiro garante a esse público, se são eficazes e como os múltiplos papéis sociais dessas mulheres impactam o contexto universitário e sua saúde. A pesquisa busca dados que problematizam esses questionamentos, a partir de fontes como o IBGE-Estatísticas de gênero, PNAD-Contínua, IPEA, dentre outras que revelam uma realidade estatística desfavorável para a permanência materno-estudantil. Espera-se que este trabalho forneça subsídios para pensar a equidade de gênero no ensino superior, ampliando um campo ainda pouco explorado, bem como promover a sensibilização acadêmica e institucional sobre a temática.
Este artigo analisa a produção social da sobrecarga materna a partir da articulação entre a sociologia da infância, a teoria do apego e a economia política do cuidado. Sustenta-se que a centralidade contemporânea do vínculo no desenvolvimento infantil, amplamente respaldada por evidências da psicologia e da neurobiologia relacional, não foi acompanhada por uma reorganização estrutural das condições materiais do cuidado. Argumenta-se que a maternidade intensiva não emerge apenas como ideal cultural, mas como efeito de uma contradição estrutural: a infância é afirmada como prioridade absoluta enquanto o trabalho reprodutivo permanece privado, feminizado e racialmente hierarquizado, tensionando discurso e prática. O artigo discute, ainda, que a sobrecarga materna é construída desde a infância, por meio de processos de socialização diferenciados entre meninas e meninos, que produzem disposições desiguais para o cuidado. Sustenta-se que a proteção efetiva da infância exige a democratização estrutural do cuidado, articulando redistribuição material e justiça social de gênero, raça e geração.
Este estudo buscou refletir sobre como o conceito de “maternagem coletiva” de Collins (2019) e os sentidos de “parentescos cotidianos” de Fonseca (2004) contribuem para entender os efeitos do encarceramento de mulheres mães no cuidado de crianças na primeira infância. Na primeira seção, reflete-se sobre famílias, dinâmicas familiares e parentescos cotidianos, aliado a estudos que trazem os relatos infantis. Além disso, apresenta-se a ideia de maternagem coletiva para entender a maternidade de mulheres negras e o papel das mães de criação. Na segunda seção, busca-se mobilizar os conceitos apresentados, analisando estudos que tragam as narrativas de mulheres mães presas sobre as redes mútuas de cuidado na proteção de seus filhos. A pesquisa expande o conceito de maternagem coletiva para a realidade das mulheres encarceradas, evidenciando a formação de redes de apoio que englobam parentes "de criação" e "emprestados". Essa configuração familiar é sustentada por uma via de mão dupla: as estratégias de sobrevivência dos adultos e a percepção das crianças sobre o cuidado compartilhado e a afinidade. A interdisciplinaridade da pesquisa é necessária para a compreensão do fenômeno social das maternidades encarceradas, bem como para a proteção da infância, contribuindo na construção do conhecimento de áreas como direito, ciências sociais, antropologia e educação.