
Resenha do cordel Julia Lopes de Almeida – um (com) pássaro adiante, de Edmilson Santini. Rio de Janeiro: Vermelho Marinho, 2022.
Entre os séculos XVI e XVII, na Espanha, surgiu uma nova forma narrativa que passou a trazer relatos de protagonistas marginalizados na luta pela sobrevivência e, posteriormente, foi denominada como romance picaresco. Um dos livros considerados o gérmen da literatura picaresca é Lazarillo de Tormes, de autoria desconhecida, lançado provavelmente entre 1552 e 1553. A partir do século XVII, vários livros surgiram em diversos países ao redor do mundo influenciados por essa nova forma narrativa. Neste artigo, vamos analisar os cordéis brasileiros Presepadas de Pedro Malazarte e Proezas de João Grilo, lançados no século XX, sob a perspectiva da literatura picaresca. Para isso, iremos relacionar teóricos que refletiram sobre o assunto, como Mario González, Francisco Topa e Antonio Candido, além de destacar a influência da literatura picaresca em alguns romances brasileiros e examinar detalhadamente os cordéis citados.
Este artigo reconstitui a trajetória irmãos Edmond (1822-1896) e Jules (1830-1870) de Goncourt, compreendendo os anos de preparação de suas primeiras obras, sua efetiva entrada campo literário francês e a produção de Edmond sem a colaboração de seu irmão, morto em 1870. Tomando como base a Sociologia da literatura e a História do livro e da edição, observam-se, em um primeiro momento, as inclinações artísticas e, em seguida, as sucessivas apostas dos irmãos Goncourt em diferentes temas e gêneros literários. Isso permite, posteriormente, descrever e analisar a escolha de seus editores para a publicação de suas obras. A partir da apresentação das condições de produção da obra dos irmãos Goncourt no campo literário francês, discute-se o estabelecimento de seus nomes em uma posição de relativo reconhecimento e prestígio.
Este artigo versa sobre a importância da luta das cordelistas pelo fim dos discursos e posturas machistas no cenário da literatura de cordel brasileira. Pretende-se situar sexo e gênero de forma a entender como todo corpo feminino é atravessado por essa construção social que define o que é ser e o que pode ou não uma mulher. Norteiam esta abordagem as propostas de outras práticas metodológicas para o estudo das poéticas orais/da voz (MATOS, 2018) e as reflexões que problematizam as relações de gênero, reformulando as concepções do feminismo ocidental branco (OYEWÙMÍ, 2021). Forjada pela tradição oral, feita para ser cantada nas praças, nas feiras, a literatura de cordel brasileira era um campo majoritariamente masculino, fruto de um tempo em que a mulher não tinha direitos básicos como estudar e votar. Um corpo feminino produzindo e erguendo a voz pelas praças e feiras do país era algo inconcebível, talvez esse seja um dos motivos para o distanciamento das mulheres do cenário da literatura de cordel por muitos anos. Contudo, essa realidade vem mudando e muitas vozes femininas têm se erguido para dominar esse campo da literatura e gritar pelo fim do machismo nos versos e no cenário do cordel brasileiro.
Resenha do livro Sertão das Arábias, escrito e ilustrado por Fábio Sombra. São Paulo: Escarlate, 2016.
Este artigo apresenta uma discussão acerca da (in)formação da cidadania, dando destaque ao uso da Literatura de Cordel, considerando ser esta uma fonte de leitura e interação. O estudo tem como objetivo identificar a Literatura de Cordel como uma linguagem que possibilita a (in)formação cidadã das pessoas, sejam elas alfabetizadas ou não, uma vez que por meio desta prática e aliada a multidisciplinaridade, pode-se viajar entre as diferentes linguagens e tradições, exercitando e desenvolvendo capacidade de cognição, leitura e crítica. Mais do que observar o registro da experiência histórica, esta pesquisa aborda o diálogo entre os folhetos de versos e as atividades cartoriais, identificando a voz informativa e formativa desses para ações de cidadania às diferentes comunidades do Brasil.
Resenha do cordel A carta de Satanás a Bolsonaro de autoria de Zé de Quinô. Arapiraca: Adições Agrestina, 2022.
Busca-se, neste artigo, apresentar a literatura de cordel que vem sendo produzida no Estado do Espírito Santo. É exposto o cordel a partir de sua chegada em nosso país através das averiguações de Abreu (1999). Mapeia-se cordelistas/ produtores de cordel capixabas e analisa-se, através de um movimento dialógico, algumas dessas produções capixabas a fim de se estabelecer a arquitetônica de folhetos ou poemas de poetas, os quais, debruçaram-se nesse estilo a priori nordestino. Observa-se que a literatura de cordel do Espírito Santo é pouco evidenciada nesse Estado e almeja-se fazer ecoar as vozes desses autores através desta pesquisa, assim como expor a potência do cordel capixaba.
Neste artigo, discute-se a virtualização dos textos populares à luz da teoria de mídias e da história da leitura, evidenciando os recursos e espaços que os poetas populares dispõem para produzir e dar circularidade aos seus textos nas redes sociais, bem como dialogar sobre a recepção por parte do público leitor. Para a construção do estudo, recorremos a métodos mistos, oriundos da pesquisa bibliográfica, do estudo de caso e da recente netnografia. O trabalho é composto de uma revisão de literatura, construída a partir dos pressupostos inerentes ao campo das teorias supramencionadas e das questões de cultura, estabelecendo por corpus cordéis e seus respectivos comentários extraídos de perfis de cordelistas notabilizados na rede, e adotando por critério de seleção os textos com maior número de participação dos internautas, curtidas, compartilhamentos e comentários (entre os encontrados nas redes dos cordelistas alcançados no estudo).
Cordel SANTINI, Edmilson. Julia Lopes de Almeida – um (com) pássaro adiante. Rio de Janeiro: Vermelho Marinho, 2022.
Resenha do livro Brasil Tumbeiro, de Mário Aranha, com ilustrações de Eduardo Vetillo. 1ed. Campinas/SP: Editora Mostarda, 2021.
Os cordéis da coleção Heroínas Negras Brasileiras, de Jarid Arraes, são posicionados neste artigo enquanto produções literárias decoloniais ao apresentarem as histórias das amefricanas, mulheres negras cujas trajetórias foram significativas para a história do Brasil. Os folhetos são acionados pela escritora enquanto ferramentas políticas, com abordagens relevantes aos feminismos negro e decolonial, bem como a manutenção de elementos importantes para a literatura de cordel, a “estética da tradição” (ARRAES, 2019). Os cordéis da coleção são analisados a partir de repertórios não hegemônicos propostos por intelectuais relacionadas ao feminismo decolonial, como a categoria metodológica da Amefricanidade, de Lélia Gonzalez (1988), o conceito de locus fraturado de María Lugones (2014), assim como as movimentações dialéticas entre opressão e ativismo, de Patricia Hill Collins (2019). A localização das amefricanas em suas potencialidades, enquanto heroínas produtoras de saberes de resistência, nos permite versar também sobre as posições de heróis e anti-heróis no campo da literatura de cordel, compreendendo a reorganização operada pela cordelista.
Neste artigo trataremos de dois poetas negros cujas composições nos chegaram por meio da poesia, mas por diferentes suportes: Inácio da Catingueira, poeta e cantador escravo do final do século XIX, teve suas pelejas reproduzidas pelos poetas de cordel; Luiz Gama, poeta abolicionista, através de suas Trovas Burlescas. Ambos se manifestaram, em primeira pessoa, pela liberdade e pelo direito à voz: Inácio, nos terreiros e alpendres da casa grande; Gama, nos jornais, militando pela Abolição e por sentenças mais justas para os cativos levados ao tribunal.
Cordel: ZÉ DE QUINÔ. A carta de Satanás a Bolsonaro. Arapiraca/AL: Adições Agrestina, 2022.
O texto apresenta uma reflexão sobre os efeitos de um padrão teórico-crítico dicotômico a atuar nos estudos do cordel no Brasil. De acordo com esse modelo, a originalidade e autenticidade dessa poética devem-se ao seu pertencimento unilateral à tradição oral ou à cultura escrita e suas tecnologias de impressão, sem tensionar as linhas de força que atravessam a coexistência oral/escrito, com suas complexas temporalidades. A pesquisa de abordagem qualitativa, delineada como estudo bibliográfico, orienta-se por uma perspectiva teórico-metodológica de inspiração decolonial, aproximando-se de autores, como Santos (2007), Quijano (2005) e Mignolo (2003, 2008). Visualiza-se, portanto, abordagens que problematizam um padrão interpretativo excludente e constroem significações mais holísticas ao considerarem o cordel em suas teias culturais. Destaco essa dimensão nos trabalhos de Francisca Pereira dos Santos, pesquisadora que apresenta uma compreensão das dinâmicas organizacionais e dos elementos constitutivos do cordel, acionando reflexões teóricas produzidas por mulheres cordelistas. Pretendo com essa escrita conectar-me ao esforço de pesquisadores que assumem uma postura dialógica com os/as poetas e o risco de produzirem uma escrita com esses textos e não apenas sobre eles.
Durante muito tempo, a literatura foi um universo hegemonicamente masculino, seja do ponto de vista da produção, seja da crítica literária. No cordel, mulheres também não apareceram na vitrine da produção de folhetos, como se esta fosse uma poética de homens. Recentemente, contudo, mulheres aparecem produzindo folhetos e ganhando repercussão nacional. Este artigo pretende discutir o fenômeno do apagamento feminino na produção de folhetos nordestinos, ao tempo em que aborda cinco cordéis da cordelista piauiense Maria Ilza Bezerra, que tem se destacado pela escrita de folhetos na contemporaneidade, tematizando a história de personagens femininas protagonistas. Contaremos com as seguintes contribuições teóricas: Zolin (2009), Lajolo e Zilberman (2011), Del Priore (2004), Perrot (2007) e Branco (1991) para discutir a participação das mulheres na produção e recepção do texto literário; Marinho e Pinheiro (2012), e Abreu (1999), para compreender o gênero cordel; acerca da literatura de cordel feminina, recorreremos a Luyten (2003), Souza (2006), e Melo (2016), entre outros estudiosos.
L’œuvre de Patrick Chamoiseau, souvent classée dans la « littérature francophone », s’écrit à la croisée des langues créole et française. Initialement conflictuelle, la relation entre ces langues a évolué dans l’écriture de l’auteur martiniquais contemporain pour donner naissance à une éthique et une esthétique capables de renouveler les modalités de la fiction littéraire. L’article se concentre sur son œuvre romanesque et sur deux de ses essais. Ces textes me permettront de montrer en quoi l’écriture de Patrick Chamoiseau, née d’une relation complexe entre langue française et langue créole, parvient à dépasser les conflits linguistiques et à proposer un imaginaire mixte et singulier, répondant aux soupçons portés sur le récit littéraire dans le contexte postmoderne.
Este artigo analisa, sob uma perspectiva analítica, os aspectos literários, fantasiosos e mágicos dos gêneros Literatura de Cordel e Conto de Fadas partindo da leitura de dois romances de cordel: A princesa do Reino da Pedra Fina e O Príncipe e a Fada, ambos de Manoel Pereira Sobrinho. Para tanto, é preciso que se discuta a saga do Conto popular, no que tange tanto à Literatura de Cordel como aos Contos de Fadas. Assim, a análise comparativa entre as obras de cordel e os gêneros é traçada, verificando as semelhanças desses gêneros de caráter normalmente oral, perpassados de geração em geração, em que o fito se desenvolve graças à fonte inesgotável do imaginário popular, como postula Paul Zumthor (1997, p. 247). Percebe-se, portanto, o recorrer do homem a alguma narrativa que, de maneira simbólica ou realista, lhe fala da vida a ser vivida e dos fatos desconhecidos, exteriores a ele, que lhe causam ânsia. Essa procura se encontra na leitura de contos que tenham o maravilhoso, o imaginário e o fantástico retratados.
Este artigo objetiva compreender de que forma as experiências de leitura de cordel em um clube on-line contribuíram para a formação leitora de estudantes de uma escola municipal, localizada na zona rural de Monteiro, Paraíba, no período em que atuamos como bolsistas do Programa de Residência Pedagógica. Para tanto, além de notas de diário de campo, valemo-nos de um questionário aplicado aos alunos que participaram do clube de leitura e à professora de Língua Portuguesa da turma e supervisora da intervenção. Metodologicamente, esta pesquisa consiste em um estudo de caso, de cunho qualitativo e ancora-se, teoricamente, nas discussões de Candido (2004), Marinho e Pinheiro (2012) e Medeiros e Pinheiro (2014), que nos serviram de suporte para pensarmos o lugar da Literatura e do cordel na formação de leitores; bem como nos pressupostos de Cosson (2014), Luzia de Maria (2016) e Souza (2018) que, por sua vez, nos foram imprescindíveis na reflexão sobre os clubes de leitura. A análise e os resultados obtidos nos permitiram identificar que o clube de leitura, a seleção dos cordéis, a linguagem deles e as temáticas trabalhadas contribuíram para que os discentes envolvidos vivenciassem a experiência do clube de forma ativa; isto é, lendo, comentando, compartilhando opiniões e se posicionando de forma crítica frente aos textos e, com isso, desejassem continuar presentes a cada encontro do clube.