
Este artigo apresenta um protocolo de análise paleográfica computacional aplicado ao Códice 69, manuscrito setecentista que reúne uma gramática e um dicionário da Língua Geral Amazônica. A proposta parte de uma premissa simples, mas decisiva: antes de descrever a língua, é preciso compreender o gesto que a fixa no papel. Combinando observação paleográfica tradicional e procedimentos de visão computacional em Python, mensuramos traços como inclinação, módulo, espessura, espaçamento e ligaduras. O tratamento quantitativo desses dados — sempre acompanhado de validação filológica — permitiu distinguir dois scriptores e associar seus padrões gráficos a formações caligráficas distintas. Ao demonstrar que características tradicionalmente atribuídas à “sensibilidade do olhar” podem ser formalizadas sem reduzir a complexidade do manuscrito, argumentamos que a Paleografia Digital não automatiza a leitura: ela a torna demonstrável. O método reforça a necessidade de controlar variáveis materiais na constituição de corpora históricos, especialmente no contexto missionário amazônico, em que a escrita é também um espaço de contato cultural.
Este artigo tem como objeto um processo criminal do século XIX, da Comarca de Vassouras, contra escravizados. Os processos judiciais são uma importante fonte de dados primários para estudos jurídicos, socioeconômicos, linguísticos, históricos, dentre outros. Para análise do conteúdo desses documentos, é necessário um estudo aprofundado da materialidade e do contexto de produção desses documentos. Nesse sentido, buscamos analisar os aspectos filológicos e paleográficos de um processo lavrado em 1840, cujo réu foi José Muange. Além das características filológicas, foi feito um estudo paleográfico dos punhos de dois escrivães desse processo. Este estudo foi norteado pelos procedimentos teórico-metodológicos da Filologia e da Paleografia. Após análise dos aspectos morfológicos da escrita desses dois escrivães, assim como da pontuação e dos diacríticos usados por eles, observaram-se semelhanças, mas também diferenças, que caracterizam cada uma. Além disso, percebeu-se a importância de se considerar a intervenção de quem escreve, pois atua como mediador das vozes dos outros atores do processo. Daí a necessidade de se identificar e de se caracterizar esses escrivães, o que se intentou fazer neste artigo.
A constituição de corpora diacrônicos tem se afirmado como etapa indispensável para a reconstrução empírica da história do português brasileiro, uma vez que nenhuma interpretação consistente de seus processos de mudança pode prescindir da documentação escrita produzida em sincronias passadas. Em Sergipe, contudo, persiste uma lacuna significativa quanto à reunião, edição e disponibilização sistemática de fontes escritas que permitam investigar a sócio-história da língua portuguesa na região. Nesse contexto, este artigo apresenta o projeto de criação do Corpus Diacrônico do Português Sergipano (CDPS), iniciativa do Grupo de Estudos Filológicos em Sergipe (GEFES), que busca superar essa lacuna por meio da organização de um acervo documental representativo, cronologicamente equilibrado e estabelecido segundo critérios filológicos e sociolinguísticos rigorosos. Fundamentado no arcabouço teórico-metodológico da Filologia, da Linguística Histórica, da Linguística de Corpus, da Sociolinguística Histórica, da História da Cultura Escrita e das Humanidades Digitais, o CDPS integra procedimentos de identificação, reprodução, classificação, edição conservadora e codificação dos textos. Os resultados alcançados revelam um conjunto diversificado de tipologias textuais que documentam diferentes práticas escriturais e níveis de letramento entre os séculos XVIII e XX, permitindo não apenas a descrição documental, mas também a identificação de continuidades e mudanças linguísticas, bem como de aspectos da história externa do português no contexto sergipano. O CDPS visa contribuir simultaneamente para o avanço dos estudos histórico-diacrônicos e para a preservação da memória documental de Sergipe e do Brasil, oferecendo bases sólidas para futuras investigações sobre a formação e a trajetória sociolinguística do português brasileiro em sua dimensão regional.
O objetivo deste artigo é discutir teoricamente o léxico, com ênfase nas questões de neologia e etimologia, a partir de exemplos da Primeira Década da Ásia (1552), de João de Barros. A ampliação do vocabulário durante o Mercantilismo e o Renascimento, quando novas sociedades foram alcançadas e nomeadas, evidencia a importância do contato linguístico na formação do português moderno. Nesse contexto, destacam-se unidades lexicais como chatim (comerciante), chatinar (comercializar), pardáos (moeda da Índia), fanões (moeda indiana) e faraçolas (peso antigo usado no comércio), cujas origens remontam a línguas dravídicas, ao sânscrito, ao tâmil-malaio e ao árabe (Dalgado, 1919). No entanto, os empréstimos mais recorrentes no corpus analisado são antroponímicos e toponímicos, o que exigiu a adoção de uma classificação onomástica para a organização dos dados. O Sistema Toponímico Taxionômico, de Dick (1990), embora constitua a principal referência brasileira nesse campo, apresentou limitações quando aplicado aos dados da pesquisa, em razão do objeto de estudo e do método utilizados na lexicografia. Ainda assim, o modelo se mostra relevante para refletir sobre classificações existentes e propor novos encaminhamentos teórico-metodológicos no âmbito da lexicografia histórica.
O presente trabalho tem como objetivo analisar a influência de aspectos socioculturais, especialmente dos saberes e da cultura tradicionais, no léxico da comunidade rural quilombola Rio das Rãs, localizada no município de Bom Jesus da Lapa, Bahia. A pesquisa fundamenta-se nos pressupostos teórico-metodológicos da Lexicologia, da Lexicografia, da Antropologia Linguística e da Sociolinguística Histórica. Para a análise dos dados, consultaram-se obras lexicográficas representativas de diferentes períodos da história da língua portuguesa, como Bluteau (1712-1728), Morais Silva (1789), Pinto (1832), Freire (1954), Houaiss e Villar (2001) e Aurélio (2010), abrangendo os séculos XVIII, XIX, XX e XXI, com o objetivo de verificar se determinadas lexias utilizadas pelos membros da comunidade, em especial sene e fedegoso, encontram-se dicionarizadas e, em caso afirmativo, desde quando. Além dessas obras, foram também consultados dicionários regionais, como Amaral (1920), Souza (2004), Coelho (2010) e Seabra e Souza (2023), bem como o dicionário etimológico de Cunha (2010), quando possível. Os resultados indicam que as lexias analisadas, associadas aos saberes populares, estão registradas tanto nos dicionários de referência quanto nos dicionários regionais.