
Este artigo é resultado de um estudo social antropológico de abordagem qualitativa e pesquisa de campo sobre o impacto do Programa Bolsa Família (PBF) entre o povo indígena Akwẽ-Xerente, do estado do Tocantins-Brasil. Apresentamos, por meio de revisão bibliográfica, a inserção de indígenas no PBF considerando os avanços e desafios na execução do programa. Foi identificado que o programa garante o acesso a alimentação e autonomia para as mulheres indígenas. Desse modo, foi necessário compreendermos, por meio dos estudos conceituais sobre gênero, as mudanças culturais do papel da mulher indígena, uma vez que verificamos mudanças no processo decisório da vida Akwẽ, dando autonomia para as mulheres definirem o que é prioridade para a família.
Este artigo investiga a inserção de mulheres no campo da tecnologia industrial brasileira durante os anos 1950, com foco na cidade do Rio de Janeiro, a partir dos dados de um inquérito publicado pela Capes em 1957. Por meio de uma abordagem prosopográfica, foram analisadas 50 mulheres atuantes em instituições públicas de pesquisa, como o Instituto Nacional de Tecnologia (INT) e o Laboratório Nacional de Análises (LNA). A pesquisa identificou um subconjunto de 12 mulheres que receberam auxílios do CNPq, constituindo uma “elite da elite” dentro da comunidade científica. A análise identificou que a maioria era formada em Química, com vínculos institucionais estáveis e participação em cursos e projetos estratégicos para o projeto desenvolvimentista da época. A origem social destacou-se como variável fundamental: muitas eram filhas de imigrantes europeus, brancas e pertencentes à classe média urbana, o que lhes facilitou acesso ao ensino superior. A trajetória dessas mulheres foi atravessada por normas de gênero que impunham conciliações entre trabalho científico, casamento e maternidade, frequentemente viabilizadas pelo trabalho doméstico de mulheres negras invisibilizadas nos registros históricos. O artigo contribui para a compreensão das desigualdades de gênero, raça e classe na ciência brasileira, ao evidenciar que o acesso de mulheres à pesquisa científica, mesmo quando institucionalizado, foi condicionado por filtros sociais que limitavam suas possibilidades de ascensão e reconhecimento, reforçando hierarquias estruturadas por raça, classe e capital social no interior da própria comunidade científica feminina.
Este texto apresenta registros etnográficos realizados no período de agosto de 2021 a maio de 2022, com o intuito de conhecer narrativas de mães universitárias, na relação com seus filhos, durante a pandemia de Covid-19, em territórios indígenas e quilombolas. As vivências dessas mulheres abordam percepções sobre o cuidado, em âmbito individual e coletivo, lançando luz à temas clássicos dos estudos feministas e convidando ao diálogo com estudos sobre a infância, sobretudo sobre o cotidiano de crianças indígenas e quilombolas. Apresento suas experiências, aqui, enquanto parte das análises de uma pesquisa de pós-doutorado, que desenvolvi no Programa de Investigação Pós-Doutoral em Ciências Sociais, Infâncias e Juventudes CLACSO/RedInju, junto à Universidade de Manizales, Colômbia – pesquisa que tem como objetivo analisar o impacto da pandemia de Covid-19 no cotidiano de mães universitárias, indígenas e quilombolas, haja vista as denúncias sistemáticas de movimentos sociais sobre o descaso governamental em seus territórios neste período. Por fim, problematizo a dimensão do trabalho de cuidados na instituição e as consequências atuais que a ausência de uma política de cuidado impõe à permanência das mães da Educação do Campo, especialmente das mães indígenas e quilombolas, no campo das ciências.
Este artigo trata de uma revisão integrativa da literatura sobre o assédio no ambiente universitário e tem como objetivo mapear discussões existentes na literatura a partir das dimensões: política, cultural, social e econômica, bem como discutir sobre estratégias de prevenção e enfrentamento presentes no corpus analisado. A metodologia baseou-se na análise sistemática de 38 artigos publicados entre 2015 e 2024, selecionados nas bases Web of Science e Scopus, a partir de critérios de inclusão e exclusão. Os resultados tendem a indicar que o assédio é um fenômeno estrutural, enraizado em relações de poder e desigualdades de gênero, raça e classe, afetando desproporcionalmente mulheres e minorias sociais. As contribuições teóricas incluem a síntese de conceitos e a análise multidimensional e interseccional do problema. Sobretudo, o estudo aponta a necessidade de políticas institucionais eficazes, como protocolos claros, canais de denúncia seguros, campanhas de conscientização, formação especializada e outros elementos para combater a violência, promover ambientes seguros e formas de convivência ética e bioética.
O presente estudo teve como objetivo analisar o processo de feminização da pobreza no Brasil, a partir do gênero das pessoas de referência nos domicílios. Para tal, são utilizados dados relativos à 5ª visita do ano de 2022 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC), sendo definidas duas linhas de pobreza, correspondentes a ½ e ¼ do salário-mínimo. Os resultados encontrados indicam que houve feminização da pobreza no país, onde domicílios cujas mulheres são as pessoas de referência possuem probabilidade mais elevada de estarem abaixo das linhas de pobreza. Ademais, por meio das demais especificações consideradas, verificou-se outras nuances desse processo. Dessa forma, há intensificação do processo de feminização da pobreza quando além de a pessoa de referência no domicílio ser mulher, ela também é preta, parda ou indígena, realiza dupla jornada de trabalho e mora sozinha.