
O presente ensaio teórico, derivado de uma pesquisa mais ampla sobre a gestão dos riscos de desastres nos estados do Rio Grande do Sul e do Amazonas, propõe uma análise sobre a produção e a reprodução das desigualdades socioambientais no Brasil. Utilizando o conceito de racismo ambiental como uma lente analítica, examinamos processos profundamente enraizados em estruturas coloniais que perpetuam dinâmicas de exclusão e que afetam desproporcionalmente populações negras, indígenas e outros grupos étnicos e vulnerabilizados. Procuramos problematizar a inércia do estado e a ineficácia das atuais políticas públicas diante da intensificação de eventos climáticos extremos, sublinhando que a adaptação climática deve ser incorporada a um processo de transformação estrutural mais ampla, através da redistribuição equitativa de recursos, da valorização de saberes ancestrais e da inclusão ativa de vozes historicamente silenciadas. Esperamos contribuir para o avanço do debate acadêmico sobre justiça climática e gestão de riscos, apontando direcionamentos para a formulação de políticas públicas integradas e comprometidas com a equidade social e o fortalecimento da resiliência dos espaços rurais e urbanos.
Este artigo investiga como a reificação de dados afeta a emancipação política no capitalismo de vigilância. O objetivo é explorar o conceito de reificação na teoria marxista, examinar a transformação de dois dados pessoais na vigilância e refletir sobre a emancipação política nesse contexto. Adota-se uma abordagem dialética, baseada na teoria marxista e em uma revisão bibliográfica interdisciplinar. Conclui-se que a reificação de dados intensifica a desumanização, limita a autonomia e perpetua assimetrias de poder, afetando a emancipação política. Portanto, alternativas emancipatórias são possíveis por meio da construção de um novo pacto social em torno de dois dados, envolvendo diferentes atores sociais em um esforço colaborativo para criar uma sociedade digital mais democrática e inclusiva.
Os sistemas de proteção social têm sua historicidade atrelada a conquistas e concessões da classe trabalhadora. A América Latina, reconhecidamente a região mais desigual do mundo, tem na proteção social uma forma de enfrentamento às gravosas expressões da questão social e o ensejo pela diminuição das desigualdades sociais; contudo, a agenda neoliberal e neoconservadora contemporânea impõe desafios de grande monta à preterida garantia de direitos à coletividade. Nesse sentido, o presente ensaio de cariz qualitativo, produzido a partir de pesquisa bibliográfica e documental de nível exploratório, enseja problematizar as características assumidas pelos sistemas protetivos da América Latina (sobretudo de Argentina, Brasil, Chile e Uruguai). O eixo analítico da alternância ideopolítica de governos progressistas e conservadores foi eleito com vistas a desnudar a imperatividade da orientação neoliberal e das formas de neoconservadorismo nas agendas sociais dos referidos governos. O tracejo deste panorama possibilitará a compreensão de como tais governos preconizaram, ou não, a proteção social, sobretudo no campo da política de saúde, educação e enfrentamento às expressões da pobreza.
Neste artigo, o nosso objetivo é apresentar dados relativos ao atual perfil do mercado de trabalho de assistentes sociais, atuantes na gestão pública municipal de São Gonçalo, RJ (PMSG), com ênfase na caracterização profissional e nas expressões objetivas do mercado de trabalho, por meio das variáveis: carga horária de trabalho, vínculo contratual, área de atuação e salário. A análise está fundamentada no materialismo histórico-dialético e recorremos à pesquisa de tipo descritiva, a abordagem qualitativa, por meio de pesquisa bibliográfica, documental e de campo. A pesquisa de campo foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa sob Parecer Consubstanciado do CEP nº 7.488.554 e contou com a participação de 42 assistentes sociais. Os resultados apontam que tais profissionais se identificam, majoritariamente, como do gênero feminino (85,7%), negras (57%) e que não participam de atividades cívico-políticas (61%). Em relação à formação profissional, verifica-se a equiparação entre a formação em instituições públicas presenciais e instituições privadas de natureza presencial e EaD. Além disso, 62% das assistentes sociais atuam na Política de Assistência Social e 38% na Política de Saúde, por meio de Recibo de Pagamento autônomo (48%), com carga horária de 30h (67%) e recebendo até 2 salários mínimos (52%). A conclusão da pesquisa aponta para ampliação da precarização da formação profissional e do mercado de trabalho das assistentes sociais atuantes pela Prefeitura municipal de São Gonçalo (PMSG), nos últimos 10 anos, evidenciada neste último caso, nos vínculos de trabalho e salários, o que está relacionado aos efeitos da contrarreforma trabalhista (Lei nº 13.467/2017) e da lei da terceirização (Lei nº 13.429/ 2017) no mercado de trabalho do Serviço Social e na vida do sujeito profissional, cujos relatos evidenciam processos de pauperização da categoria.
O artigo sistematiza dados de tese de doutoramento sobre os Fundamentos do Serviço Social, com base na teoria social marxista, fruto de pesquisa que analisou as publicações sobre o tema em 11 periódicos da área entre os anos de 1993 e 2013, totalizando 2031 artigos revisados e um banco de dados composto por 324 documentos. A produção que aborda diretamente os Fundamentos é diminuta, perfazendo 0,49% das publicações, sendo que as que tratam de dimensões relativas à temática representam 15,91% dos artigos dos periódicos. A partir da investigação, conclui-se que fundamentos profissionais consistem numa matriz explicativa da realidade e da profissão, (re)construída processualmente ao longo da trajetória histórica do Serviço Social na sua inscrição na realidade brasileira. Considerando o processo de renovação crítica do Serviço Social, essa matriz, na atualidade, se conforma a partir da conjugação entre método/teoria marxistas e valores emancipatórios, orientando uma análise histórico-crítica totalizante da profissão. Seu núcleo central reside no debate teórico-metodológico marxista, na análise de sua historicidade, na abordagem da questão social e da categoria trabalho (em articulação com a profissão), bem como em seu projeto ético-político.