O português de São Tomé e Príncipe (PSTP) é uma das variedades do português faladas em São Tomé e Príncipe. Nessa variedade, diferentes estudos analisam o apagamento de /r/ em coda, um fenômeno caracterizado pela não produção do rótico em sequências CVC: correr [ko.ˈʁe]; porta [ˈpɔ.tɐ]. Dito isso, este artigo tem como objetivo apresentar uma revisão sistemática com uma metanálise do apagamento do /r/ em coda no PSTP. Para tanto, foi utilizada uma versão do Método Cochrane adaptada por Vieira (2021) que aplica métodos explícitos e sistematizados para (i) identificar e selecionar estudos primários relevantes e (ii) coletar, avaliar e analisar os dados dos estudos selecionados (Higgins et al. 2023). Os resultados mostraram que o apagamento do rótico é sempre favorecido quando o segmento está em coda final, sobretudo em itens lexicais verbais, além disso, o apagamento é mais recorrente entre os falantes com os menores níveis de escolaridade. Por fim, a metanálise indicou que a medida metanalítica unificada do índice de apagamento do rótico em coda no PSTP é de 51,73%, e seu intervalo de confiança, no nível de 95%, está entre 44,76% e 58,67%. Desse modo, esta revisão sistemática reúne, organiza, sintetiza e unifica informações dispersas em diversos estudos sobre o apagamento do rótico em coda no PSTP oferecendo uma compreensão panorâmica da ocorrência desse processo fonológico no português falado em STP.
RESUMO O objetivo deste artigo é analisar os ditongos decrescentes orais em duas variedades da língua portuguesa: o português de São Tomé e Príncipe (PSTP) e o português brasileiro (PB). Para tanto, com base em um corpus formado por itens lexicais elicitados a partir de frase-veículo, coletados in loco nas ilhas de São Tomé e de Príncipe, Costa Oeste Africana, extraímos, com auxílio do PRAAT, os valores do primeiro e do segundo formante (F1 e F2) de vocoides tônicos orais. Esse procedimento metodológico foi feito de modo a estabelecermos a dispersão acústica entre a vogal (V) e o glide (G) que constituem ditongos decrescentes em PSTP. Calculada a dispersão acústica entre VG, estabelecemos, em seguida, uma escala de dispersão compreendendo quatro pontos: alta dispersão; média dispersão; baixa dispersão e baixíssima dispersão. Essa escala foi, por fim, comparada à escala proposta por Eberle (2022) para o PB. Por fim, ao contrapor ambas as escalas, foram observadas algumas diferenças em termos de contraste acústico entre V e G de ditongos orais do PSTP e do PB. Essas diferenças parecem decorrer, sobretudo, da inserção de [ə] no sistema tônico oral de vogais do PSTP.
This paper describes 2 acoustic correlates of oral stressed vowels in Portuguese of Sao Tome and Principe (STPP): First formant (F1) and second formant (F2). Based on data from Escudero et al. (2009), we compared STPP with urban varieties of Brazilian (BP) and European Portuguese (EP), such as those spoken in Sao Paulo and Lisbon, respectively. Based on the analysis of 1,776 occurrences of 74 lexical items produced by 6 male and 6 female participants, we attested the presence of 8 stressed vowels in STPP [i, e, epsilon, a, a, (sic), o, u] - a different result from Escudero et al. (2009), who found 7 oral stressed vowels in BP and EP [i, e, epsilon, a, (sic), o, u]. [a] as an allophone of /a/, in STPP, is also accompanied by a reduction in the acoustic space of this variety, which, in general, presents a more compressed acoustic space than BP and EP. This finding differentiates STPP - a minoritized Portuguese variety - from the urban varieties of BP and EP in question, as it produces a unique outcome among documented Portuguese varieties that lead to the observation of some phonological processes in stress position.
Resumo Este artigo discute a variação da lateral /l/ em coda no Português de São Tomé (PST). Pautados em um corpus elicitado composto por 552 ocorrências de 55 palavras, verificamos que a lateral /l/ em coda pode ser velarizada, vocalizada ou apagada: bolso ENT#091;ˈboɫ.sʊENT#093; ~ ENT#091;ˈbow.sʊENT#093; ~ ENT#091;ˈbo.sʊENT#093;. Tais processos foram avaliados mediante regressões logísticas com efeitos mistos, as quais sugerem a atuação de diferentes variáveis estruturais e sociais, como o domínio de uma segunda língua (L2), na implementação dos fenômenos. A velarização (56%) e a vocalização (14%) são favorecidas em sílabas tônicas, sendo ENT#091;ɫENT#093; mais recorrente nos dados de fala de monolíngues (62.5%) e ENT#091;wENT#093; na produção de falantes de kabuverdianu como L2 (30%). Já o apagamento (29%), além de ocorrer de forma expressiva em comparação com outras variedades do português, como a brasileira, demonstrou uma proporção de apagamentos similar entre monolíngues (30%) e bilíngues em português-kabuverdianu (29%). Desse modo, a alternância ENT#091;ɫENT#093; ~ ENT#091;wENT#093; ~ Ø, no PST, evidencia algumas das características inerentes a essa variedade, que, além de explicadas por aspectos estruturais, sugerem a relevância do contato linguístico.
This paper describes 2 acoustic correlates of oral stressed vowels in Portuguese of São Tomé and Príncipe (STPP): First formant (F1) and second formant (F2). Based on data from Escudero et al. (2009), we compared STPP with urban varieties of Brazilian (BP) and European Portuguese (EP), such as those spoken in São Paulo and Lisbon, respectively. Based on the analysis of 1,776 occurrences of 74 lexical items produced by 6 male and 6 female participants, we attested the presence of 8 stressed vowels in STPP [i, e, ɛ, a, ə, ɔ, o, u] – a different result from Escudero et al. (2009), who found 7 oral stressed vowels in BP and EP [i, e, ɛ, a, ɔ, o, u]. [ə] as an allophone of /a/, in STPP, is also accompanied by a reduction in the acoustic space of this variety, which, in general, presents a more compressed acoustic space than BP and EP. This finding differentiates STPP – a minoritized Portuguese variety – from the urban varieties of BP and EP in question, as it produces a unique outcome among documented Portuguese varieties that lead to the observation of some phonological processes in stress position.
Com a migração caboverdiana para São Tomé e Príncipe, iniciada em 1903, o kabuverdianu foi levado para o Golfo da Guiné e passou a fazer parte da ecologia linguística da região. Considerando esse cenário, este estudo se debruça sobre o kabuverdianu da ilha do Príncipe (KVP), apresentando uma descrição fonética acústica do primeiro (F1) e segundo formantes (F2) e da duração que caracterizam as vogais orais tônicas nessa língua. Como corpora, utilizamos dados coletados no Príncipe em 2018 com quatro falantes de kabuverdianu como língua materna (Bandeira; Freitas, 2018). Os dados foram analisados com auxílio do programa Praat (Boersma; Weenick, 2022). Em posição tônica, foram encontrados nove fones vocálicos orais ([i, e, ɛ, ə, ɐ, a, ɔ, o, u]), ampliando as descrições do kabuverdianu de Santiago que mencionavam somente 2 vogais centrais. O comportamento das vogais médias e centrais sugere que a dispersão acústica é relevante na definição das vogais da língua. As vogais médias parecem estar mais próximas entre si (com a diferença entre F1 sendo de 75 Hz para as coronais e 98 Hz para as dorsais). Esse fato aproxima acusticamente as vogais médias-altas e médias-baixas, uma vez que os dois pares ([e] e [ɛ], [o] e [ɔ]) passam a ficar menos dispersos no espaço acústico.
Este artigo tem como objetivo apresentar o perfil toponímico do Setor Autônomo de Bissau (SAB), Guiné-Bissau, de modo a elencarmos alguns fatores socioculturais e linguísticos relevantes para a sua compreensão. Para tanto, avaliamos os topônimos do SAB tendo em vista: (i) o contato linguístico, refletido em topônimos de matriz africana ou de estrutura híbrida e (ii) a estrutura do sintagma toponímico em língua portuguesa e/ou em outras línguas. O corpus manifesta 53,5% de topônimos portugueses e 46,5% entre autóctones (22,8%), híbridos (14,8%) e desconhecidos (8,9%). Esses resultados sugerem que, mesmo havendo influência do português na toponímia do SAB, essa apresenta itens autóctones que revelam especificidades linguísticas, históricas e culturais locais.
In this study, we analyze tautosyllabic vowel nasalization in Santomean Vernacular Portuguese (SVP) spoken on Sa ($) over tildeo Tome Island. In European and Brazilian varieties of Portuguese, vowel nasality has been considered both a phonological (actual nasal vowels) and a phonetic (nasalized vowels) feature. Herein, we share an acoustic analysis demonstrating that nasalized vowels in SVP are 48% longer than their oral counterparts. Thus, a nasalized vowel could correspond to an underlying sequence of an oral vowel followed by a nasal consonant. In this sense, a nasal coda's nasal feature would spread to the continuous vowel on the left. After that, the nasal coda, which triggers the process, is deleted at the segmental tier without changing the syllable length. This suggests a biphonemic interpretation of vowel nasality in SVP. Accordingly, there are no phonological nasal vowels in SVP. As Sa ($) over tildeo Tome and Principe is a multilingual country, we investigate the influences triggered or reinforced by linguistic contact between Portuguese and other languages spoken in the country, especially Santome.
AbstractThis paper discusses the lateral /l/ in coda in Principense Portuguese (PP). Based on an elicitedcorpusrecordedin situ, composed of 852 occurrences of 78 lexical items, we found that the lateral /l/ in coda can be vocalized or deleted. For instance,bolso‘pocket’ can be pronounced as [ˈbow.sʊ] or [ˈbo.sʊ], as reported in some Brazilian Portuguese varieties. In PP, vocalization and deletion are phenomena that arise from a confluence of factors. It gathers characteristic features of the formative grammatical structure of Portuguese. At the same time, it reflects the linguistic contact scenario in which PP is inserted, since the lenition of consonants in semivowels, as well as strategies to avoid codas, are also reported in Lung’Ie (LI), a language in synchronic contact and present in the constitution of the PP (Agostinho, Ana Lívia. 2015.Fonologia e método pedagógico do lung’Ie[Phonology and pedagogical method of Lung’Ie]. São Paulo: University of São Paulo dissertation). Both Portuguese and Lung’Ie support vocalization and deletion in their grammars, fostering a relevant overlap of features to the alternation [ɫ] ∼ [w] ∼ ∅ in PP. We conclude that, in addition to specific features of Portuguese grammatical structure, PP’s linguistic contact situation must be considered as a relevant factor for the deletion and vocalization of laterals in coda in PP.
Este artigo analisa os desvios ortográficos de alunos brasileiros, filhos de bolivianos, e bolivianos do 6 º ano da rede pública estadual de São Paulo, avaliando a relação entre escritas não convencionais e fenômenos fonológicos da língua portuguesa. Baseados em um corpus formado por 121 produções escritas de três grupos de alunos (brasileiros, filhos de bolivianos e bolivianos) (GOUVEIA, 2019), identificamos a existência de diferentes processos fonológicos transpostos à escrita. Esse é o caso do alçamento, da vocalização, da ditongação, da monotongação e do apagamento de coda, fenômenos nos quais a proeminência lexical e a sílaba são primordiais e sugerem que o domínio de conhecimentos técnicos voltados à fonologia e à fonética são ferramentas necessárias para a atuação docente. Argumentamos, portanto, que o conhecimento metalinguístico fonológico é relevante no ensino-aprendizagem, sendo fundamental para a elaboração de estratégias pedagógicas que visem ao desenvolvimento de um pensamento metalinguístico, inclusive em salas heterogêneas como a avaliada.
Neste artigo discutimos a silabificação no português urbano de São Tomé e Príncipe (PSTP), com base no exame de alguns processos fonológicos: apagamentos de clusters, coda e núcleo; ensurdecimento vocálico; vocalização, nasalização e posteriorização do rótico. Tais fenômenos, embora tratados, comumente, de forma independente pela literatura, quando analisados em conjunto podem refletir padrões silábicos diversos, trazendo uma visão ampla e complexa sobre o sistema em foco. De fato, o levantamento dos fenômenos no PSTP indica a atuação de duas trajetórias gramaticais paradoxais: a prevalência de sílabas CV fomentada por apagamentos e lenições, em que sílabas fechadas se adaptam em sílabas abertas, e a emergência de estruturas complexas, promovida, sobretudo, pela ressilabificação de sibilantes e pelo apagamento vocálico. Essas trajetórias contrastantes refletem a dificuldade de propostas tradicionais em explanar a variação observada no PSTP. Ressaltamos, a partir dos processos discutidos, a necessidade, em trabalhos futuros, em abordar a questão por modelos pautados no uso, que acomodem a variação, e possam abarcar a complexidade dos sistemas linguísticos.
This paper describes three processes of external vowel sandhi — degemination (DG), elision (EL), and diphthongization (DT) — in São Tomé Vernacular Portuguese (PST). All three processes are found in PST: 32% DG; 36% EL; 52.5% DT. Working with six Santomean informants, we analyzed a corpus of 113 sentences with vowel encounters in word boundaries (V#V). Then, we measured the duration of vowel encounters or the single resulting vowel when the encounter was undone. Factors such as the nature of the prosodic boundaries (phonological word, phonological phrase, and intonational phrase), prosodic stress (lexical and phonological word), and vowel quality are crucial to implementing sandhi processes. However, they occur in different prosodic settings: diphthongization occurs between intonation phrases (IP+IP) as long as their boundary is not limited by a pause. In contrast, elision and degemination occur in phonological word boundaries (ω + ω) and phonological phrase boundaries (ϕ + ϕ). The prominence of the phonological phrase was the preponderant factor in preventing all processes, blocking degemination whenever phonological phrase stress matches with a stressed second vowel. For elision and diphthongization, sandhi was blocked when two stressed vowels co-occurred with the stress of a phonological phrase.
The aim of this study is to examine the phonological structure of lexical blends produced by slips of the tongue, which are blends resulting from a deviation during linguistic processing, such as mosquilongo (pernilongo [a type of mosquito] + mosquito). In order to investigate their phonological structure, 40 blends collected from natural speech were analyzed in terms of their segmental features, word stress and syllable structure. The analysis shows that while the production of speech error blends respected the phonological restrictions of Brazilian Portuguese, as reported in the literature on neological blends, the fact that the structures of the original items had similarities and were maintained suggests that the production of blends is facilitated when there is a structural similarity between the elements in question.
Este artigo discute a ascensão do português em São Tomé e Príncipe. Com base em processos históricos de interação social nos períodos colonial e pós-colonial, observou-se a difusão da língua portuguesa em detrimento das línguas locais, ainda que o input em português fosse, inicialmente, limitado. Em decorrência de pressões assimilatórias, reforçadas ao longo dos séculos XIX e XX, a população não portuguesa favoreceu o uso e a transmissão intergeracional do português, comportamento validado pelas elites locais. Após 1975, o português foi, então, consolidado, como a língua transmitida pelas gerações mais velhas, tornando-se a língua materna da maior parte da população de São Tomé e Príncipe, possibilitando, assim, a emergência de variedades singulares do português, as quais são marcadas pelo contato com as demais línguas locais.
Este artigo analisa três fenômenos fonológicos do guineense moderno: palatalização do /s/ em coda e estatuto do [ʃ] em onsets complexos, nasalização vocálica engatilhada por coda e onset, e variação do /r/. Os itens lexicais analisados foram retirados de Scantamburlo (2002), inseridos em frases, com a realização sonora confirmada com falantes nativos. Para o context de análise, consideramos: qualidade vocálica, posição silábica e acento lexical. Os resultados indicam que a palatalização atinge a coda e o onset complexo. Atestamos a nasalização tautossilábica, diferentemente da heterossilábica. Por fim, a variação do /r/ atinge as fronteiras de palavras: codas finais e onsets iniciais.
Este estudo teve como objetivo examinar a estrutura sonora de blends lexicais de lapsos de fala (BL), isto é, de palavras formadas por blending e resultantes de uma falha de processamento linguístico, como em mosquilongo (pernilongo+mosquito). Para tanto, a composição de BL foi analisada tendo em vista os traços segmentais, o acento lexical e a estrutura silábica de 40 BL coletados de modo naturalístico. A análise do corpus indica que enquanto a produção de BL respeita as restrições sonoras do PB, assim como identificado, na literatura, para blends neológicos, a manutenção e a coincidência das estruturas dos itens originais suscitam a hipótese de que a similaridade estrutural dos elementos acessados é um aspecto que favorece a produção de BL.
Este artigo discute o subsistema pretônico vocálico do português de São Tomé, deslindando o inventário dos segmentos e suas características acústicas, bem como o processo de alçamento que atinge essas vogais. Seguindo o referencial teórico da Geometria de Traços e usando dados coletados in loco, a partir da análise, propõe-se que na posição pretônica o quadro apresenta seis vogais: [i, e, a, ə, o, u]. A descrição acústica (sobretudo a duração e os formantes) corrobora o quadro proposto e o alçamento, processo desvinculado da harmonia vocálica de traço [ATR] ou mesmo do traço de altura [aberto 2]. Este estudo permitiu conhecer um aspecto da fonologia de uma variedade de português ainda pouco estudada, podendo abrir caminho para novas pesquisas.
E Este artigo discute a história e a situação linguística atual do português santomense e do português principense (PST e PP). O surgimento dessas variedades em São Tomé e Príncipe (STP) remonta ao estabelecimento colonial do português em um ambiente plurilíngue, bem como ao seu desenvolvimento inicial como segunda língua, e, posteriormente, como língua materna adquirida pelos nativos. Ademais, a partir de dados coletados in loco, o artigo apresenta um breve panorama sincrônico de alguns processos fonológicos, a saber: nasalização, alternância do rótico, vocalização e apagamento segmental, observados no PST e no PP. A análise de fatores históricos, sociais e linguísticos nos permite concluir que, em STP, é evidente o desenvolvimento de variedades locais próprias, as quais, embora ainda careçam de uma descrição e sistematização linguística robusta, são dotadas de traços linguísticos identitários.