Este trabalho se constitui como um dos elementos da pesquisa de doutorado sob o título “A aula como questão e problema: experimentações e críticas”, onde tem por objetivo explicitar o processo de constituição e consolidação do conceito de aula ao longo do tempo. Esta investigação considera elementos da pesquisa qualitativa e quantitativa, numa perspectiva de complementariedade. De forma particular se configura a partir de elementos da pesquisa bibliográfica. Vale ressaltar que uma das fontes de dados, dessa investigação foi a entrevista com professores. Entendemos que quando pensamos nos processos educacionais, percebemos uma convergência para o que chamamos de aula. Por esse motivo entendemos ser necessário discutir tal conceito de forma mais aprofundada, bem como, sua constituição histórica e suas implicações para nossa atualidade. Ao longo deste trabalho, olhamos para a cultura grega, e buscamos a origem da palavra aula, seus desdobramentos e implicações para a constituição do conceito na atualidade. Ao analisarmos os dados coletados por meio das entrevistas com os 16 professores, percebemos que, quando se pensa o conceito de aula, temos a inclinação de pensar tal conceito com os significados de ensino e aprendizagem.
ABSTRACT This paper examines the word didactics, starting from its vernacular usage and moving towards its genesis in Greek culture. Against the philologists, it wants to know the usage values that are inside the word. When the current use of the term is investigated, obtained from dictionaries, the choice of the Greek word from Christian texts is identified as much more of the first use, inscribed in the archaic Greek theatre. This forgetfulness, like repression, reveals the instinctual investment that the subject contains. Hence, the hypothesis of this text is that, despite its efforts from the second half of the 20th century onwards, didactics holds in the field a metaphysics of presence that finds an ideal of human being. In order to distance itself from this conception, it choses to follow Sandra Corazza’s philosophy of hell towards a didactics of the infernal that considers, on the one hand, the fractures of a diabolical thought and, on the other hand, its assumption as a transcreation of didactics.
RESUMO Este ensaio examina a palavra didática partindo do seu uso vernacular em direção à sua gênese na cultura grega. Para além de filologismo, quer encontrar os valores de uso que encharcam a palavra. Ao investigar o uso hodierno do termo, obtido de dicionários, identifica-se a escolha da palavra grega vinda de textos cristãos, em detrimento do uso primeiro, inscrito no teatro grego arcaico. Esse esquecimento, como recalque, indica o investimento instintual que o assunto contém. Daí, a hipótese deste texto é que a didática, não obstante seus esforços a partir da segunda metade do século XX, segue inscrita em uma metafísica da presença que estabelece um ideal de ser humano. A fim de se distanciar dessa concepção, opta-se por recorrer à filosofia do inferno de Sandra Corazza em direção a uma didática do inferno, que considere, por um lado, as fraturas de um pensamento diabólico, e, por outro, assuma-a como transcriação didática.
This text contains fragments of research movements in education. The movements are marked by readings and scriptures that stir ideas. The research embraces the philosophy of difference and the thinking of Deleuze, Butler and Corazza among possible plans of composition in the anguish of problematizing the performativities of genders that constitute lives, especially phallogocentrism. To this end, investigative experiments were carried out with children attending elementary school. Experiments are non-preexisting experiences invented in the everyday life of the school. We left history to enter life, life as an affirmation and will to power that reverberates with binary systems of domination. Thus, we found child dissidences over acts of genders performativities through writing workshops that resulted in critical writing-readings and creators of new ways of thinking, seeing and feeling life and Education.
Este trabalho é oriundo de uma pesquisa, ora em andamento, com chancela da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Objetiva-se trazer narrativas de crianças sobre suas vivências acerca do “cantinho do pensamento”, em uma creche pública no interior do estado de Mato Grosso. A investigação se insere no campo da Educação em interface com a filosofia da diferença. Dialoga com autores como Jacques Derrida/Nietzsche, Deleuze, Kohan, Corazza e outros assemelhados. As itinerâncias metodológicas lançaram mão da observação participante e da escuta de narrativas, evocadas por crianças no âmbito de uma cenacontecimento na ambiência da creche. A cena resulta de exercícios de um experimentar possibilidades, a do “cantinho” como ato normativo, dimensionado no pensar criativo e autônomo de crianças na Educação Infantil. Nessa direção, apresentam-se no texto modos outros de se pensar as infâncias, num movimento desconstrutor, bem ao modo derridiano, afirmando infâncias, que operam em uma lógica própria, e se mostram para nós a maneira como reverberam seus atos nessa instituição, com suas artistagens, devires e vivências.
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Este ensaio procura demonstrar que Heráclito poderia ser considerado leitor de Friedrich Nietzsche. Esta especulação sustenta-se, basicamente, sobre a decisão estilística de Nietzsche em escolher seus leitores, sobre as vivências partilhadas entre o filósofo alemão e o grego e da presença de Heráclito, em Ecce homo, como aquele com quem Nietzsche mais se sentia acolhido. O interesse mais evidente do jovem professor da Basileia sobre o filósofo obscuro se vê na destinação de tempo que ele dá em seu curso de 1873. Mais do que examinar as alternativas conceituais, o autor de O nascimento da tragédia quer aprender com as vivências dos pré-platônicos, sobretudo com seu filósofo trágico por excelência. Embora a relação estudada entre Nietzsche e Heráclito reconheça a óbvia questão cronológica, este ensaio fabula sobre possibilidades da anacronia de Heráclito leitor de Nietzsche.
Resumo Este texto põe em crítica algumas noções e elementos teóricos circulantes relativos ao conceito de saúde, tomando-os como instáveis e polissêmicos, abertos a alternativas do pensamento. Tomamos noções de saúde - em articulação com as noções de doença e cuidado - em ocorrência nos escritos atuais no campo da Saúde, especialmente da Saúde Coletiva, tendo como ensejo um movimento de leitura que contribua para ampliação dos modos de pensar sobre o tema. Elegemos cinco pontos, apresentadas como duplos, e não como dualismos, binarismos ou dilemas: generalizações e singularidades; posse e escape; medicalização e moralização; significante e significado; e limites e margens. Temos em vista percebê-los em sua potência de abertura, ampliação e proposição de mudanças, em movimentos caros ao debate acerca da saúde, no sentido de entendê-la fora de padrões rígidos estabelecidos por bases científicas unívocas. Consideramos que esse exercício pode contribuir para ampliar a noção de saúde que permeia as práticas profissionais de atenção à população.
Este texto traz fragmentos de movimentos de pesquisa em educação. Os movimentos são marcados por leituras e escrituras agitadoras de ideias. A pesquisa abraça a filosofia da diferença e o pensamento de Deleuze, Butler e Corazza entre possíveis planos de composição na angústia de problematizar as performatividades de gêneros que constitui vidas, em especial o falogocentrismo. Para tanto, realizou -se experimentações investigativas com crianças que frequentam o ensino fundamental. As experimentações são experiências não-preexistentes, inventadas no acontecimento do cotidiano escolar. Saímos da história para entrar na vida, a vida enquanto afirmação e vontade de potência que reverbera sistemas binários de dominação. Assim, encontramos dissidências crianceiras quanto aos atos de performatividades de gêneros por meio de oficinas de escrileituras que resultaram em escritas-leituras críticas e criadoras de novos modos de pensar, ver e sentir a vida e a Educação.
Este ensaio explora o conceito, usado por Deleuze e Guattari, de hecceidade, criado por Duns Scot. Sua estrutura é nominada pelo termo lembranças, para seguir o texto 1730 – Devir-Intenso, Devir-Animal, Devir-Imperceptível, de Deleuze e Guattari. Coube bem a estrutura: lembrança remete à palavra grega alêtheia, comumente traduzido por verdade. Ao mesmo tempo, este texto remete a episódios autobiográficos inspirados pelo opúsculo de Derrida: O animal que logo sou. Ao ser feita breve crítica ao conceito de sujeito como ordenador da vontade e do raciocínio, se pensa o conceito de hecceidade como individuação sem sujeito.
As margens do pensamento derridiano escrevemos este texto, sob titulo provisorio, oriundo da pesquisa em andamento no processo de doutoramento do Programa de Pos-Graduacao em Educacao da Universidade Federal de Mato Grosso - UFMT, na linha de pesquisa Cultura, Memorias e teorias em Educacao. A pesquisa procura situar algumas linhas de escritas do pensamento infantil avesso as tentativas de sistematizacao na constituicao das subjetividades crianceiras. Nas trilhas da filosofia da diferenca, questionamos o que nos inquieta em relacao a metafisica da presenca que legitima sistemas binarios como modos de subjetivacao, no caso, o falogocentrismo. Para Derrida (2013), o falogocentrismo denota a dominacao masculina, evidente no fato de o falo ser sempre aceito como o unico ponto de referencia, o unico modo de validacao da realidade cultural. A sociedade dominada pelo falogocentrismo olha sempre a mulher com base na sua relacao com o homem, deixando prevalecer os aspectos que lhe faltam por oposicao a plenitude do homem. Provocados(as) pelo autor, perscrutamos por processos labirinticos de inscricoes na busca de gestos de desconstrucao do pensamento falogocentrico. Diante destes pressupostos indagamos: como as criancas reverberam os atos de performatividades de generos que atuam na constituicao de suas subjetividades? Nesse sentido, junto ao povo crianca, experienciamos por movimentos crianceiros que reverberam atos, discursos e sistemas de dominacao. Assim, fomos a uma escola de ensino fundamental e convidamos estudantes do quinto ano para participarem da pesquisa que convergiu em realizar, entre-meio as criancas Oficinas de Escrileituras. As Oficinas de Escrileituras e considerada a aposta metodologica dessa esquadrinhadura. Para a autora Corazza (2015), as oficinas de escrileituras oferece possibilidades outras de ler e escrever num movimento errante e autoral. Escolhemos as criancas por corroborarmos com o pensamento de Nietzsche ao sinalizar em seu Zaratustra que as criancas sao um novo comeco; um sagrado dizer sim para o jogo da criacao. Deste modo, em errância, circulamos entre-meio as criancas em busca de suas escrileituras criativas que reverberam experimentos do pensamento num movimento de desconstrucao do binarismo falogocentrico. Em nossa travessia de pesquisa labirintica, no cotidiano escolar crianceiro, buscamos encontrar na razao a novidade da alteridade infantil que sempre se apresenta como Outra . E, como Outra, produz jogos de diferenciacoes e inscricoes − a differance . Na trama da differance e possivel afirmar efeitos enquanto potencia criadora, romper com o substancialismo da presenca (o ideal) e abrir possibilidade para as inscricoes da diferenca, ou seja, produzir a escritura na/da infância em detrimento aos dualismos da racionalidade aos quais somos submetidos. Destarte, fazemo-nos do movimento de desconstrucao derridiano para produzir outras possiveis maneiras de ler e escrever em meio a vida e angariar a brisura na tradicao metafisica da presenca e, tambem, nao afirmar uma ‘verdade’, mas apresentar outras possibilidades de pensar a didatica e a educacao.
A Educacao Infantil, primeira etapa da Educacao Basica se constitui em espaco rico para as pesquisas em educacao, seja por abordar suas praticas, as instituicoes ou os sujeitos que ocupam o espaco escolar. Em muitas dessas pesquisas as fontes orais ocupam papel fundamental nas metodologias propostas, sendo, geralmente, ouvidos gestores, professores e mesmo as familias das criancas que frequentam a Educacao Infantil. A presente pesquisa intenciona investigar as vivencias das criancas na escola, especificamente quando estiveram no “cantinho do pensamento”, pratica que perpassa o cotidiano de varias instituicoes. Para isso, apostamos na investigacao que toma a escuta das criancas, grupo que historicamente e silenciado nas pesquisas. Compreendendo a escola como espaco que efetiva praticas, onde ha diretamente uma relacao de saber e de poder, buscamos estudar esse fenomeno no cotidiano de uma creche no municipio de Porto dos Gauchos, MT. Escolhemos este locus por ser um espaco de atuacao da pesquisadora, o que motiva suas inquietacoes como profissional. Esta pesquisa opera com a filosofia da diferenca, pois busca singularidades, num movimento de desconstrucao , ao modo derridiano, do modo hegemonico de pensar a infância. Assim, afirmamos outra infância adotando uma concepcao de crianca e de infância nao continua, a crianca como criadora, como potencia de multiplicidades. Para a escuta das vivencias das criancas sobre o cantinho do pensamento elegemos a otobiografia , metodo cunhado por Monteiro, a partir de sua leitura de Jacques Derrida como leitor de Nietzsche. A pesquisa e do tipo qualitativa; trabalharemos com a observacao participante e diario de campo; como estrategia, fazemos uso de brincadeiras e dinâmicas (rodas de historia e conversa) com intuito de registrar as narrativas produzidas pelas criancas. Ao apostarmos na narrativa delas, consideramos as criancas como produtoras autorais de seus discursos, pois nos interessa o ecoar de suas vozes, afinal, defendemos uma investigacao que se faz com criancas e nao sobre criancas. Deste modo, esta pesquisa investiga as narrativas infantis sobre suas vivencias no “cantinho do pensamento” produzidas na multiplicidade do espaco-tempo da creche. E uma pesquisa em filosofia da educacao que toma como aporte a filosofia da diferenca.