
Neste artigo me interessa pensar a partir da experiência de um culto ritual entre mulheres evangélicas reunidas no Terreiro de Ruah para abrir reflexões sobre a prática teológica desse grupo de fé mediada por vínculos com os não-hu-manos que operam no ritual. O ritual se deu no encerramento do Acampamento de Mulheres da Igreja Batista do Pinheiro em 2019, em Maceió-AL, com o tema Mulheres, corpo e resistência, coordenado pelo Flor de Manacá, uma pastoral de mulheres que faz leitura popular e feminista da Bíblia em intersecção com práticas teológicas feministas e negras desde meados dos anos 2000. A maneira como a Teologia Feminista Negra é mobilizada no ritual com a mediação de diferentes objetos sagrados, práticas corporais e narrativas trazidas se relacionam com a presença da Ruah abrindo novos espaços de práticas e propondo novos vínculos em um grupo de mulheres crentes batistas. As proposições de Donna Haraway, Patricia Hill Collins e Isabelle Stengers são fundamentais para o exercício epistemológico deste trabalho que pretende incluir não-humanos nas práticas político-religiosas por meio da experiência de um grupo de evangélicas de tradição batista produ-zindo diferenças.
Este ensayo dialoga con la propuesta de Irene Stengs sobre la relación entre basura, desecho y lo sagrado o la santidad. Se comparan tres casos de objetos de culto popular en México en situaciones límites de su vida sagrada: convertirse en basura. Con estas situaciones se muestran propuestas distintas de cómo se representa el valor de los objetos sacros ya partir de las recomendaciones o de las acciones realizadas para tratar a los objetos considerados sagrados cuando llegan al fin de su vida sagrada. Se comparan tres casos que contrastan entre sí: las figuras de yeso de niños Jesús, santos o vírgenes, las esculturas de la Santa Muerte y las cruces. El análisis comparativo de los tres objetos sacros en el punto de inflexión de su vida sagrada muestran distintos regímenes estéticos, regidos por distintos marcos de representación, a partir de los cuales se delimita la condición de lo sagrado y lo sobrenatural en el objeto.
El presente escrito tiene como propósito reflexionar en torno al texto del sociólogo Hugo José Suárez, titulado “El creyente y la imagen. Apuntes sobre el cine latinoamericano y la sociología de la religión”. Esta obra ofrece una mirada crítica y sugerente sobre las intersecciones entre la religiosidad popular y las representaciones visuales en el cine latinoamericano, proponiendo una lectura sociológica que permite comprender la persistencia y transformación de lo sagrado en contextos contemporáneos. En este marco, se abordará la discusión relativa al lugar que ocupa la religiosidad popular en América Latina, entendida no sólo como un conjunto de prácticas devocionales, sino como un campo dinámico de significación y producción simbólica que incide directamente en la vida cotidiana de los sujetos.
O dia dos Pretos Velhos, celebrado em 13 de maio, destaca-se no calendário da Umbanda como uma homenagem a entidades espirituais que personificam sabedoria, humildade, cura e resistência. Este ensaio documenta, por meio de uma narrativa fotográfica, as celebrações de 2023 e 2024 no Ilê Ogum Oiá Axé Odara, em Madrid, Espanha. A proposta é apresentar a cerimônia em ordem cronológica, evidenciando sua materialidade, símbolos e significados. Busca-se, assim, introduzir o leitor ao universo material e simbólico que permeia a celebração, ao mesmo tempo em que se demonstra a continuidade das tradições religiosas afro-brasileiras em um contexto transnacional, oferecendo uma leitura sensível da resistência cultural inerente a essas práticas.
Las relaciones entre imagen y formas de vínculo con lo más que humano tienen hoy un lugar destacado en los estudios sociales sobre religiosidad. En ese horizonte, este trabajo dialoga con el análisis de Hugo Suárez sobre las relaciones devocionales inscritas en diferentes narraciones cinematográficas latinoamericanas que describen tópicos clásicos de la denominada “religiosidad popular”, es decir una relación de eficacia con personas supra humanas (Santos y Vírgenes), promesas, peregrinaciones, formas de mediación material, entre otras cuestiones que componen una configuración especifica ampliamente difundida en Latinoamérica. En base a ello, se discuten algunos presupuestos teóricos del análisis entre visualidad y religiosidad en relación con su estatuto pragmático, es decir los usos y las mediaciones materiales y/o visuales, o representacional, es decir la construcción de visualidades como un orden distante de la experiencia práctica. Finalmente, se recupera la propuesta de ampliar las ciencias sociales a los registros sensibles.
Este ensaio visual documenta três rituais maias interconectados na Península de Yucatán, essenciais para o cultivo tradicional do milho. O primeiro ritual, descreve o processo raro e complexo de dar vida a um alux, um espírito protetor dos cultivos. Realizado em 2023, o ritual envolveu a criação de duas figuras de barro, que foram instruídas a proteger os campos, destacando a aliança entre agricultores e entidades "mais que humanas". O segundo momento ritual, capturado em 2024, foca nas oferendas de posole adoçado com mel às entidades-vento (iiko’ob) antes da queima da roça para a plantação, um processo perigoso que depende do vento para o sucesso. A aceitação da oferenda, evidenciada pela mudança na bebida, sinaliza a colaboração divina. Por fim, o ensaio revisita o Cha’ chaak, um ritual de 2014 para invocar a chuva, onde camponeses oferecem carne de caça e "pães" para os deuses da chuva, os chaako’ob. Esses rituais, embora distintos, mostram a profunda relação entre os camponeses, suas divindades e a floresta, reforçando a resiliência cultural e a resistência contra a descamponezação.
Este trabalho dialoga com a ideia de Hugo José Suárez (2025) de que os estudos sobre religião na América Latina podem e devem incorporar o cinema na ampliação dos horizontes compreensivos dos fenômenos religiosos do continente, combinando arte e ciência. Para isso, traz a análise de dois filmes ficcionais, O Pagador de Promessas (Brasil, 1962) e Cuestión de Fe (Bolívia, 1995), que desenvolvem seus enredos em torno de questões relacionadas ao pagamento de promessas, a peregrinações, a festas de padroeiro e a materialidades religiosas. As películas apresentam modalidades de relações de devoção, entretecidas a partir da interação entre pessoas-santas e pessoas-devotas, as quais são analisadas considerando as diferentes circunstâncias históricas em que as obras foram realizadas e as distintas concepções de sagrado e santidade que adotam. As práticas devocionais apresentadas cinematograficamente são ainda contrastadas às experiências etnográficas da autora quanto a esses temas, em pesquisas realizadas no Rio de Janeiro entre os anos 1990 e 2000.
O artigo discute as ambiguidades e dificuldades de tradução dos termos “lixo”, “resíduo” e “despacho” nas religiões afro-brasileiras, relacionando-as aos debates dos waste studies. A partir de etnografias sobre o surgimento de práticas e discursos ecologistas em terreiros de candomblé e umbanda, a autora analisa como as oferendas rituais mobilizam as categorias de "lixo" e "sagrado", dependendo de contextos sociais, ambientais e terminológicos. Objetos antes investidos de vitalidade espiritual podem, em certas circunstâncias, ser reclassificados como lixo, especialmente quando passam a ser associados à poluição ambiental ou ao colapso ecológico. Em diálogo com o contexto museológico ocidental, onde certos artefatos nunca podem se tornar lixo, evidencia-se o contraste entre a sacralização de objetos que perderam sua função social e que permanecem nos acervos institucionais e a mudança social e material nos terreiros. Assim, o texto propõe uma reflexão sobre como as categorias de valor e de descarte são constantemente renegociadas, iluminando tensões entre preservação e transformação.
O texto foca o campo afrorreligioso do Rio Grande do Sul e está dividido em duas partes. Na primeira, mais extensa, discorro sobre cinco tópicos que mobilizavam esse campo religioso gaúcho no final dos anos 1980, quando iniciei minhas pesquisas de campo, que se estenderam até a primeira década do século XXI. São eles: o caráter multiétnico dos participantes deste segmento religioso, ou, mais especificamente, a presença ativa de indivíduos “brancos” nos terreiros; o ingresso, ou conversão, de membros das religiões afro-riograndenses na Igreja Universal do Reino de Deus; a expansão da Linha Cruzada, ou Quimbanda, ou seja, o culto a Exus e Pombagiras; os fluxos transnacionais afrorreligiosos entre o Rio Grande do Sul e os países do Prata; e, enfim, as mobilizações políticas acionadas nesse meio religioso gaúcho para alcançar o espaço público e lutar contra a intolerância religiosa. Na segunda parte, mais reduzida, analiso os desdobramentos, as mudanças e as reconfigurações que ocorreram com aqueles tópicos ao longo dos anos e sua situação atual.
Neste texto busco identificar alguns modos pelos quais os dados do Censo têm repercutido, destacando algumas recorrências nas explicações sobre certa “dança nos números” e que tipo de agenda de pesquisa pode vir a se estabelecer a partir da divulgação dos dados mais recentes.
O Dunamis Movement é um grupo Pentecostal para eclesiástico e interdenominacional que foca na evangelização de adolescentes e jovens adultos. Como grupo religioso, enquadra-se no fenômeno sociologicamente definido como Cristianismo Descolado e performa uma religiosidade midiática na medida que faz intenso uso de mídias digitais para produzir significados religiosos. O presente artigo questiona como gênero e raça são representados nas imagens publicadas no perfil oficial do Dunamis Movement no Instagram. O estudo é baseado na análise de 41 imagens publicadas pelo movimento durante o segundo semestre de 2022 e visa responder de que forma gênero e raça definem a maneira como as personagens das fotos são retratadas. A investigação se baseou em duas etapas metodológicas sequenciais. A primeira etapa foi composta pela análise de conteúdo das imagens e a segunda pela aplicação de uma tabela de avaliação das representações imagéticas de gênero e raça. A análise do corpus mostrou que o movimento mobiliza imageticamente esses marcadores sociais para reforçar discursos machistas e reproduzir estruturas raciais que marginalizam a população negra nos espaços pentecostais. Mais ainda, a investigação demonstrou que as imagens mobilizam o que aqui se define como glamour religioso, um instrumento estilístico visual que se alimenta do racismo, do sexismo e de marcadores de classe para construir um cenário idealizado sobre a felicidade e o êxtase proporcionados pela relação com o divino. Argumento que esse modelo de glamour é parte constitutiva do fenômeno definido como Cristianismo Descolado.
En este breve comentario al texto de Hugo José Suárez acerca de las películas El pagador de promesas y Cuestión de fe, la autora coloca en una línea de tiempo tanto sus fechas de producción como las de producciones académicas latinoamericanas relevantes a los temas tratados. Dichos trabajos académicos convergen desde el análisis socioantropológico con la mirada que sobre el creer latinoamericano estas obras cinematográficas “nos dejan”. De esta manera, contribuye con el autor a poner de relieve el encuentro entre las tareas analíticas y las estéticas de la producción cinematográfica en tanto tareas hermenéuticas. Asimismo, invita a pensar cómo la temprana aparición de dichas películas, la originalidad y profundidad de su planteamiento y el efecto “de verdad” que producen, hace necesaria una autorreflexión crítica sobre los lugares y procedimientos con los que desempeñamos nuestro quehacer académico, a la vez que convida a una mayor apertura a la experiencia estética y de conocimiento que el arte ofrece.
A resenha analisa a obra Reimagining Christianity and Sexual Diversity in Africa, de Adriaan van Klinken e Ezra Chitando, que oferece uma contribuição para os estudos sobre religião e diversidade sexual. O livro questiona duas narrativas dominantes: a que considera a homossexualidade uma imposição ocidental e a que associa a homofobia a um suposto “atraso” cultural africano. Em contraposição, os autores destacam teólogos, ativistas e artistas cristãos africanos que constroem discursos inclusivos em favor da diversidade sexual e de gênero. A resenha enfatiza a pluralidade do cristianismo no continente africano e os diálogos possíveis com pesquisadores latino-americanos, especialmente aqueles que estudam religiões cristãs e dissidência sexual.
El presente trabajo dialoga críticamente con la propuesta de Hugo José Suárez sobre la relación entre cine latinoamericano y sociología de la religión, centrada en el análisis de los filmes El pagador de promesas (Brasil, 1962) y Cuestión de fe (Bolivia, 1995). En él se reconstruyen los principales argumentos del autor, enfatizando el papel de la imagen y el creyente, y se señalan tensiones teóricas y omisiones, especialmente en torno a la perspectiva de género y la función de la imagen religiosa. Como aporte original, se incorpora el análisis de Crónicas de una santa errante (Argentina, 2023), que introduce una experiencia femenina de la religiosidad y plantea desafíos a la autoridad religiosa desde la sátira y el absurdo. Finalmente, se destaca el potencial heurístico del género cinematográfico para dar cuenta de las tensiones propias del campo socioreligioso en Latinoamérica, invitando a los estudios sociales de la religión a revisar categorías tradicionales y a explorar nuevas formas de agencia, mediación y poder en la experiencia creyente contemporánea.
O presente artigo tem como propósito analisar as conexões entre Sociologia da Religião e Ciência da Religião a partir da obra de Joachim Wach. Objetivamos compreender como esse autor concebe uma zona de convergência entre essas disciplinas e como essa aproximação o auxilia a refletir sobre os aspectos teórico-metodológicos da investigação sociológica da religião e a relação entre religião e sociedade, especialmente no que tange ao estudo dos grupos religiosos. Com base na cartografia discursiva das práticas científicas, realizamos um rastreamento para identificar a estrutura sistemática que mantém a coesão entre os elementos do pensamento de Wach sobre a conexão entre as duas disciplinas. Além disso, descrevemos de forma sistemática o discurso teórico do autor sobre esse tema e suas condições de produção, apresentando-o através do mapeamento do campo de problematização em que ele está inserido. Por fim, defendemos que a Sociologia da Religião pensada por Wach está diretamente ligada à Ciência da Religião. Tal ligação, contudo, não significa que uma disciplina esteja em relação de submissão a outra, mas compartilham um interesse comum: o objeto religião, tendo como ponto de partida uma aproximação descritiva desse objeto. Nesse sentido, o diálogo entre Sociologia da Religião e Ciência da Religião se torna imprescindível.
Este artículo explora la noción de sacred waste propuesta por Irene Stengs (2014), entendida como materialidades rituales y ceremoniales descartadas que, lejos de perder eficacia, conservan un remanente sagrado que impide tratarlas como residuos ordinarios. A partir de este punto de partida, se plantea que la sacred waste constituye un umbral entre lo sagrado y lo profano, desestabilizando oposiciones binarias y revelando la potencia ambigua de los objetos en tránsito. El texto desarrolla cuatro ejes de análisis: las formas de socialidad ensamblada que produce, el flujo de valor/poder que circula en estas materialidades, el descarte como reconfiguración ontológica y las implicancias para pensar lo sagrado. Se argumenta que los restos rituales fabrican relaciones heterogéneas entre personas, instituciones, emociones y temporalidades, configurando nuevos regímenes de existencia. El valor/poder se adhiere y circula en redes, estabilizándose frente a la posibilidad de transgresión. En este marco, el descarte aparece como un acto de transformación ontológica y no como abandono. Finalmente, se propone concebir lo sagrado como dimensión potencialmente fuera de control, incluso accidental, que persiste en lo material más allá de las instituciones religiosas o estatales. Lo central de esta propuesta de debate consiste en radicalizar la mirada sobre lo que queda – lo inservible, lo incómodo, lo paradójico – como un espacio fértil para imaginar regímenes de existencia que producen lo real.
“Nem o feminismo, nem o antifeminismo, apresentam uma resposta adequada para as mulheres”. É assim que se posiciona Alana Carla, evangélica e influenciadora digital que produz um conteúdo voltado à temática da “feminilidade bíblica”. A partir da análise dos conteúdos produzidos pela influenciadora, buscarei aproximar suas narrativas de gênero com as sensibilidades pós-feministas. Entendo o pós-feminismo como um processo político e social, pelo qual conquistas feministas vêm sendo minadas. O feminismo, percebido como envelhecido e redundante, tem parte de seu significado subtraído pelo avanço de noções como igualdade, liberdade e escolha. Nas narrativas teológicas, enunciadas pela influenciadora digital em questão, o cristianismo é acionado como uma ferramenta eficaz na “libertação das mulheres”, sendo o machismo um pecado cultural que destoa de uma verdade bíblica. A igualdade entre homens e mulheres, defendida como um projeto divino, é pauta constante no conteúdo digital de Alana Carla, sobretudo, por meio de sua adesão à vertente teológica igualitarista, uma corrente antagônica à complementarista, a qual defende que homens e mulheres devem ocupar lugares sociais distintos na família cristã e no Reino de Deus. Nesse artigo, destacamos a articulação entre um “igualitarismo pragmático” e sensibilidades pós-feministas na defesa de feminilidades, categorizadas como bíblicas, criativas e imperfeitas.
Beth Singler mostra nesse livro que navega bem nos estudos da religião e da inteligência artificial (IA), embasando-se sempre em dados empíricos confiáveis. É a partir desses dados que ela mostra que a pergunta “o que a IA tem a ver com a religião” coexiste com evidências favoráveis e contrárias. Ela começa por mostrar três atitudes, tanto das comunidades religiosas quanto das comunidades científico-tecnológica, rejeição, adoção e adaptação. A resenha fala brevemente de cada capítulo e de sua contribuição para o conjunto da obra. Indo além dos caminhos usuais do campo de “religião digital”, a autora analisa desenvolvimentos recentes, como o das deepfakes, e futuro de longo-prazo, e movimentos subsumidos pelos rótulos “transhumanismo”, e “pós-humanismo”. Ela trabalha com áreas temáticas como os emaranhados secular-religiosos, imaginários ligados a sci-fi e videogames, e futuros possibilitados pela IA. Apesar de alguns problemas apontados na resenha do livro, este representa uma contribuição original e substantiva para um campo em ebulição e desafiador para o futuro da humanidade.
Irene Stengs, antropóloga holandesa atuante na Real Academia de Artes e Ciências dos Países Baixos e na Vrije Universiteit Amsterdam, consolidou-se internacionalmente como uma referência nos estudos da religião. Seus esforços etnográficos, centrados na Tailândia e nos Países Baixos, produzem articulações intrincadas entre a produção de memórias coletivas, de identidades nacionais e, como é focalizado nesta entrevista, do sagrado. Com Stengs, falamos de um sagrado de fronteiras ambíguas – como é o caso do sacred waste. Interpelada sobre a tradução do seu instigante conceito como lixo, resíduo ou desperdício sagrado em português, a autora demonstra que todo ato de nomeação pressupõe um mergulho em um universo moral em que velhas questões sobre pureza, valor e descarte ganham vida para nos desafiar frontalmente.