
A formação de pesquisadores na pós-graduação requer o desenvolvimento de um pensamento crítico que progrida para a autocrítica e o autoconhecimento, elementos cruciais para o pensamento complexo. Contudo, nem sempre se explora conscientemente como as influências pessoais e as lacunas na representatividade teórica presentes no imaginário do pesquisador iniciante moldam a construção do conhecimento científico. Este artigo narra e analisa uma vivência ocorrida na disciplina “Ateliês Imaginativos e Complexidade”, oferecida em um Programa de Pós-Graduação em Educação nos anos de 2023 e 2024. Esta narrativa constitui um recorte de uma pesquisa de pós-doutorado mais ampla, desenvolvida pela primeira autora e supervisionada pela segunda, fundamentada na concepção de método do pensamento complexo. O objetivo foi investigar como uma estratégia pedagógica imaginativa pode fomentar a tomada de consciência de mestrandos e doutorandos acerca das figuras (vivas ou falecidas) e das ideias que habitam seu imaginário e influenciam suas pesquisas. Trata-se de uma pesquisa qualitativa (Rey, 2002). Inspiramo-nos no método construtivo-interpretativo de Rey e Martínez (2017) para o tratamento das informações e a análise de quatorze trabalhos realizados pelos estudantes. Constatamos uma notável predominância masculina no imaginário dos pós-graduandos, tanto como inspiração geral na área de pesquisa quanto como referencial teórico de base, em contraste com a sub-representação feminina. Além disso, foram observadas a presença recorrente de figuras maternas (mães e avós) e a predominância de autores brasileiros como inspiração para as/os estudantes. A atividade revelou-se um instrumento potente para gerar autorreflexão sobre as bases que informam a construção do conhecimento das pesquisadoras e dos pesquisadores, apontando para a necessidade de maior equidade de gênero na academia, para a discussão do currículo na pós-graduação e para a relevância das experiências de vida na construção da trajetória intelectual do pesquisador.
Participação, experiência e política são conceitos que assumem, no campo dos estudos da infância, outra perspectiva quando as crianças são consideradas como informantes da sua geração. Nosso objetivo é analisar e problematizar esses conceitos a partir de espaços configurados como institucionais e não institucionais. Na primeira parte do texto, apresentamos e justificamos as escolhas metodológicas para análise da pesquisa realizada em uma escola de educação infantil carioca e das histórias cotidianas. Na sequência, tratamos dos conjuntos participação-experiência e participação-política, buscando compreendê-los a partir de cenas ocorridas na escola de educação infantil e histórias divulgadas pela mídia. Concluímos que esse encaminhamento permite a ampliação do debate a respeito da tríade conceitual a partir das formas como as crianças se posicionam e são posicionadas nas esferas socioculturais.
A lógica neoliberal, ao adentrar os países considerados periféricos e semiperiféricos na geopolítica capitalista, nos impõe o desafio de pensar como as instituições de educação superior podem resistir às disformidades das avaliações em larga escala em contexto de consolidação do ideário neoliberal no campo da Educação. Nesse sentido, a relação entre os campos sociais da Educação e da Economia é tomada à análise neste artigo a partir das políticas de avaliação do Ensino Superior do Brasil e do Equador. A partir da combinação entre a Sociologia Reflexiva de Pierre Bourdieu, a Sociologia da Ação Pública de Pierre Lascoumes e Patrick Le Galès e a Pesquisa Comparada, nosso objetivo geral consiste em analisar as expressões e influências do campo econômico nas políticas de avaliação da educação superior brasileira e equatoriana. Metodologicamente, combinamos uma abordagem qualitativa com pesquisa bibliográfica e documental em um trabalho com documentos de políticas públicas, a partir de um diálogo com Laurence Bardin e Eneida Oto Shiroma. Desenvolvemos uma análise comparada a partir de três categorias: Classificação, Papel do Estado e Concepção de Universidade. Identificamos como, mesmo em distintas realidades, expressões do Neoliberalismo são incorporadas nos modelos de avaliação e acreditação, com ênfase no desempenho e nos resultados, nos processos de responsabilização docente e estudantil, na naturalização de modelos empresariais de gestão de qualidade e no próprio habitus individual e coletivo da sociedadediante da função da educação e da universidade.
Com o objetivo de apresentar parte dos resultados de um estudo qualitativo focado na articulação entre educação literária, linguística e matemática através da poesia, analisam-se os contributos desta articulação para o desenvolvimento do gosto pela poesia e pela matemática em contexto de educação pré-escolar, com crianças de 4 anos. São apresentados os dados resultantes de um estudo empírico que decorreu durante seis meses. Ao longo do estudo, com características de investigação-ação, desenvolveram-se percursos de aprendizagem a partir da mobilização de poemas nos quais se reconheceu qualidade literária e potencialidade para uma abordagem articulada ao nível das áreas mencionadas. Os resultados sugerem que a abordagem articulada favoreceu o interesse e o envolvimento das crianças com a poesia, sobretudo através da seleção dos poemas, das atividades desenvolvidas e da mediação. Relativamente à matemática, embora se tenham observado manifestações de interesse, os dados não permitem atribuir claramente ao projeto alterações no gosto das crianças por esta área. A análise dos dados recolhidos permite considerar que as estratégias de articulação contribuíram efetivamente para favorecer o gosto das crianças pela poesia. Embora o interesse pelo projeto seja evidente, não foi possível demonstrar com clareza que este contribuiu para o gosto pela matemática.
Este artigo apresenta uma pesquisa qualitativa, de natureza bibliográfica e documental, que analisa criticamente as práticas pedagógicas de inclusão de estudantes migrantes e refugiados nos anos finais da educação básica, com foco no contexto da cidade de São Paulo. A discussão se estrutura em três dimensões complementares: a normativo-política, a prático-pedagógica e a analítico-crítica. Na primeira, examina-se o arcabouço legal que garante o direito à educação, desde a Constituição Federal até normativas específicas como a Resolução CNE/CEB nº 1 (2020). Na segunda, sistematizam-se, a partir da literatura acadêmica e de documentos institucionais, práticas pedagógicas relatadas em escolas paulistanas para o acolhimento desses estudantes, como o uso de translinguagem, a mediação cultural e os projetos interdisciplinares. Por fim, a análise crítica revela tensões e lacunas na efetivação dessas políticas, apontando para a urgência de formação docente adequada, políticas linguísticas consistentes e investimento institucional. Conclui-se que a inclusão exige mais que legislações: requer transformação das práticas escolares e do ethos pedagógico.