
Este texto, escrito na forma de ensaio, objetiva pensar a formação para a pesquisa na pós-graduação stricto sensu a partir de dez conselhos, concebidos, sobretudo, como lições da experiência acerca do vivido no processo de formação de pós-graduandos em cursos de mestrado e doutorado, no âmbito da orientação e também da experiência profissional na Educação Superior. Ancora-se em autores de base crítica. Dentre os conselhos, reforçam-se: conceber a formação na pós-graduação como um projeto de vida; pesquisar com compromisso social e ético; desenvolver a autonomia intelectual; alimentar a formação sociocultural; pesquisar com criatividade; construir a pesquisa em diálogo com outras pessoas; fazer da escrita um dispositivo formativo e, além disso, uma marca identitária da condição de pesquisador, entre outros. Os conselhos ensinam, de maneira geral, que a pós-graduação stricto sensu é um momento da trajetória de vida profissional marcado por crescimento intenso quando vivido de maneira criativa e implicada, bem como articulado à reflexão crítica acerca da experiência formativa. Tais conselhos reforçam que o fazer pesquisa na pós-graduação carrega, em sua essência, a possibilidade de autoformação do pesquisador iniciante. Além disso, a formação na pós-graduação stricto sensu alcançará seu propósito quando permitir ao pesquisador que promova, além do conhecimento fundamental no âmbito da pesquisa e de sua autoformação, a elevação de sua consciência social no plano coletivo e individual.
Este trabalho analisa criticamente a banalização do termo quantitativo na pesquisa em Educação, argumentando que a imprecisão conceitual no uso de categorias metodológicas compromete a validade epistemológica do conhecimento produzido. O objetivo é demonstrar que dados numéricos e estatísticas descritivas, isoladamente, não caracterizam uma pesquisa como quantitativa, sendo necessário o uso rigoroso de técnicas inferenciais e a clareza quanto ao alvo e aos limites da inferência. A abordagem é teórico-conceitual, com aporte em Bourdieu (2004), especialmente na noção de que os conceitos científicos são construções simbólicas em disputa no campo acadêmico, e em Creswell (2010), no que se refere à caracterização de pesquisas quantitativas com base em inferência amostral. À guisa de exemplificação, o texto articula dois núcleos analíticos complementares: (a) a análise discursiva de um diálogo real com um sistema de inteligência artificial generativa, que evidencia padrões de acomodação conceitual e reprodução de consensos metodológicos frágeis; e (b) a leitura crítica de dois artigos acadêmicos recentes, publicados em periódicos qualificados da área, que se autodenominam quali-quantitativos apesar de não apresentarem procedimentos inferenciais ou integração efetiva entre abordagens. A partir desses materiais, o texto diferencia estatística inferencial de inferência válida, discute os limites epistemológicos da generalização e questiona classificações metodológicas que associam automaticamente ausência de generalização populacional à impossibilidade de inferência. Conclui-se que o ensino de Metodologia deve resistir à legitimação superficial conferida por discursos estatísticos e tecnológicos, promovendo uma reancoragem conceitual baseada em critérios explícitos, distinções rigorosas e responsabilidade epistemológica. Ao sustentar tais distinções, o estudo contribui para uma formação metodológica mais crítica e reflexiva, particularmente relevante diante do uso crescente de tecnologias de IA que tendem a reforçar ambiguidades já presentes na literatura educacional.
O artigo tem como propósito analisar fenômenos de estigmatizações e de processos discriminatórios em um Agrupamento que reúne sete escolas, na Região Norte de Portugal. O texto aborda, especificamente, questões decorrentes da presença de alunos/as imigrantes em escolas públicas naquele país. A pesquisa teve como âncora o conceito de estigmatização, de Erwin Goffman. Foram realizadas entrevistas compreensivas com o diretor do Agrupamento, a Diretora de Turma e o Coordenador do Programa Territórios Educativos de Intervenção Prioritária. Resultados apontam dificuldades para lidar com famílias e estudantes, estruturados em grupos participantes de redes sociais que se confrontam, potencializando situações de conflito e atitudes de incivilidades na escola.
O artigo objetiva investigar as trajetórias educacionais e profissionais de jovens, com altas habilidades ou superdotação, egressos da Educação Básica, evidenciando a convergência, ou não, entre suas áreas de talento identificadas e seus percursos atuais. Especificamente, pretendeu-se refletir sobre as barreiras e os desafios impostos por esses jovens após o Ensino Médio, bem como analisar as aspirações de futuro dos participantes do estudo, considerando suas potencialidades e os contextos em que estão inseridos. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, no âmbito de estágio pós-doutoral, que envolveu levantamento bibliográfico, documental e de campo, articulando referenciais teóricos da área com as narrativas de sete jovens egressos de escolas públicas de São Luís - MA, todos participaram do atendimento educacional especializado. Realizaram-se entrevistas semiestruturadas, das quais emergiram três categorias relacionadas ao período pós-Ensino Médio: barreiras e desafios no período transicional; caminhos e percursos na trajetória de egressos; e aspirações dos jovens com altas habilidades ou superdotação. Os resultados indicam que a maioria dos participantes seguiu trajetórias alinhadas aos seus domínios, apesar de obstáculos no percurso. Dentre os desafios, alguns estavam ligados a questões subjetivas e outros de ordem socioeconômica e institucional. Mesmo diante de cenários muitas vezes desfavoráveis, os jovens buscaram caminhos para viabilizarem seus projetos de vida, contando frequentemente apenas com esforço próprio e apoio familiar. Ainda assim, as aspirações acadêmicas e profissionais desses egressos mostraram-se associadas a seus talentos. Conclui-se que compreender as trajetórias pós-Ensino Médio desses estudantes favorece reflexões profundas sobre as políticas e práticas educacionais voltadas a eles.
Este artigo apresenta resultados de uma pesquisa de pós-doutorado realizada em uma universidade pública de Goiás, cujo objetivo foi analisar a presença e a ausência de políticas de permanência escolar para travestis e mulheres trans nos documentos oficiais da rede estadual de Mato Grosso do Sul (MS). Fundamentado em perspectivas pós-críticas, o estudo utilizou abordagem bibliográfica e documental, examinando o Plano Estadual de Educação 2014–2025 (PEE/MS), seus relatórios de monitoramento, registros da Assembleia Legislativa (ALEMS) e documentos de uma Coordenadoria Regional de Educação (CRE) que supervisiona 20 escolas em cinco municípios. Identificou-se que todas as unidades atendem estudantes Lésbicas e Gays e, em média, ao menos uma ou duas travestis, mulheres trans ou pessoas não bináries, revelando demanda concreta por políticas específicas. A análise mostrou que, embora gênero, sexualidade, orientação sexual e diversidade apareçam no PEE/MS e o nome social esteja previsto em normas estaduais, tais menções são genéricas e não se convertem em ações efetivas de enfrentamento à transfobia. No âmbito da CRE, observaram-se ausência de programas institucionais e respostas improvisadas diante de situações de violência ou conflito. Conclui-se que a política educacional de MS opera por reconhecimento sobretudo formal, sem assegurar condições de pertencimento, segurança e continuidade escolar para travestis, mulheres trans e pessoas não bináries.