
RESUMO Este ensaio examina como dois neurocientistas renomados, Stanislas Dehaene e Mariano Sigman, tratam a educação em livros de divulgação de grande alcance. Com base na tese de John Bruer (1997) sobre os limites da tradução direta entre neurociência e sala de aula, argumenta-se que ambos demonstram domínio da neurociência sem profundidade equivalente na tradição pedagógica, resultando em simplificações da obra de Maria Montessori e em categorizações pedagógicas imprecisas. Recorrendo a Nietzsche (1992; 1998), a Foucault (1996) e à análise do discurso, propõe-se nomear esse padrão como vontade de verdade: discurso institucionalmente prestigiado que se sobrepõe a um campo vizinho sem reconhecer sua produção própria. Dados sobre neuromitos entre professores latino-americanos e brasileiros reforçam a urgência do problema.
ABSTRACT This study investigates the ontological and operational boundaries of generative artificial intelligence (AI), conceptualizing the notion of limit not as a temporary technological barrier, but as a vulnerability constitutive of its very nature. Drawing on Gödel’s incompleteness theorems as an epistemological parallel, it argues that the computational simulation of language cannot autonomously generate truth, intentionality, or consciousness. Through the lens of Vico’s principle of verum esse ipsum factum, it posits that—since AI is a creation of homo faber—the intelligibility and true understanding of its elements belong exclusively to human beings, thereby reversing the cognitive asymmetry that haunts contemporary times. It concludes by proposing a critical digital education.
RESUMO Investigam-se as fronteiras ontológicas e operacionais da inteligência artificial (IA) generativa, concebendo o conceito de limite não como uma barreira tecnológica temporal, mas como uma vulnerabilidade constitutiva de sua própria natureza. Evocando os teoremas da incompletude de Gödel como paralelo epistemológico, argumenta-se que a simulação computacional da linguagem é incapaz de gerar, autonomamente, verdade, intencionalidade ou consciência. Sob a ótica do princípio verum esse ipsum factum, de Vico, postula-se que, por ser a IA uma criação do homo faber, a inteligibilidade e a verdadeira compreensão de seus elementos pertencem exclusivamente ao ser humano, invertendo a assimetria cognitiva que assombra a contemporaneidade. Conclui-se com a proposta de uma educação digital crítica.
RESUMO O artigo interpreta o desinteresse escolar como efeito de ecologias formativas que rarefazem o thauma e interrompem o trabalho paciente da curiosidade em contextos marcados por excesso de estímulos digitais, pressões avaliativas e desigualdades estruturais. Propõe-se recolocar a pergunta não como técnica de ativação, mas como ethos investigativo capaz de mediar thauma e curiosidade no cotidiano escolar. Em chave hermenêutica, o argumento articula Paulo Freire, John Dewey, Martin Heidegger e Hans-Georg Gadamer, em diálogo com resultados empíricos sobre atenção, distração, awe, desenvolvimento do interesse, uso de dispositivos digitais na escola e impactos da inteligência artificial generativa na autonomia intelectual. Metodologicamente, trata-se de um ensaio de análise interpretativa que utiliza achados empíricos como indícios e condições de plausibilidade, sem pretensão causal, e culmina na proposição de uma agenda qualitativa voltada a etnografias de sala de aula, estudos de caso comparados e análises de episódios de interação. A contribuição é dupla. No plano teórico, reinscreve a curiosidade em um ethos de pergunta que resiste ao proceduralismo e ao fetiche tecnicista em torno da inteligência artificial. No plano prático, oferece linguagem, critérios e princípios de desenho didático para proteger janelas de atenção, sustentar investigações que nascem do espanto e orientar o uso crítico de tecnologias digitais, de modo que comunidades de sala instituam a pergunta como eixo de convivência intelectual.
RESUMO Este artigo articula a análise do discurso, a memória social e a perspectiva crítica das humanidades digitais para discutir a formação docente voltada à mediação de tópicos controversos. A partir de pesquisa-ação em uma escola brasileira (2023-2025), sustentamos que enfrentar a polarização exige deslocar o modo como o docente ocupa sua posição-sujeito e explicitar os regimes de verdade na escola. Propomos a mediação discursiva como categoria que articula formações discursivas em disputa e condições institucionais para o dissenso. A análise de seis perfis, ilustrados por episódios, evidencia estratégias entre a neutralidade impossível e o engajamento ético; o preparo autoavaliado dos docentes passou de 30,3% para 69,3%, resultando em uma política institucional de abordagem do dissenso.