
Este artigo analisa os processos de transição de estudantes do Ensino Médio regular para a modalidade Educação de Jovens e Adultos (EJA) no Brasil, problematizando o fenômeno à luz das desigualdades sociais, das barreiras educacionais sistêmicas e das políticas educacionais de orientação neoliberal. Busca identificar as contradições e desafios presentes nesse processo, bem como os significados da noção de transição e suas consequências nas trajetórias escolares dos estudantes. Parte-se das seguintes questões: quais desafios e contradições marcam a passagem do Ensino Médio regular para a EJA? Quais os sentidos atribuídos ao conceito de transição no contexto educacional brasileiro? E quais os impactos dessa dinâmica nas trajetórias educacionais dos sujeitos da EJA? Adota-se a compreensão de transição como processo socialmente produzido, contínuo e multidimensional, articulando dimensões estruturais, institucionais e vivenciais das trajetórias educativas. Metodologicamente, o estudo fundamenta-se em pesquisa de campo, com levantamento bibliográfico e entrevistas realizadas com coordenadores da EJA de secretarias estaduais de educação de três estados brasileiros. Os resultados indicam que estudantes com histórico de repetência, abandono escolar e interrupções nos estudos tendem a migrar para a EJA, especialmente após as recentes reformas do Ensino Médio. A modalidade vem sendo utilizada como mecanismo de correção do fluxo escolar e certificação acelerada, reforçando uma concepção instrumental da EJA e contribuindo para a reprodução das desigualdades educacionais. Conclui-se que essa transição expressa processos de exclusão, persistência e continuidade dos estudos, mantendo a relevância social da EJA para sujeitos historicamente privados do direito à educação.
Este artigo emerge de reflexões produzidas na disciplina Pensamentos Curriculares e Ensino de Ciências, ofertada em um programa de pós-graduação em biociências, e tem como objetivo analisar em que medida essa experiência pode ser compreendida como um processo curricular de natureza rizomática, a partir dos efeitos formativos expressos nos sentidos atribuídos ao currículo, à docência e à formação científica. A pesquisa adota uma abordagem qualitativa, de inspiração cartográfica, a partir da análise de memoriais formativos elaborados por oito participantes ao final da disciplina. Sem recorrer a categorias temáticas fixas, a análise acompanha linhas de força, conexões e deslocamentos que atravessam as narrativas, considerando dimensões subjetivas, afetivas, políticas e epistemológicas da formação. Os resultados indicam que a disciplina constituiu um espaço de problematização das relações entre ciência, educação e sociedade, tensionando sentidos estabilizados acerca da neutralidade científica, das políticas curriculares e das práticas pedagógicas. Os efeitos formativos aparecem sobretudo como microdeslocamentos nos modos de compreender a formação, a docência e a atuação profissional. A dinâmica analisada aproxima-se da noção de currículo-rizoma, marcada por conexões, retomadas e reconfigurações entre experiências, saberes e contextos. Ao situar essa experiência na formação em biociências, o estudo contribui para o debate sobre o lugar das reflexões curriculares em áreas tradicionalmente orientadas pela racionalidade técnico-científica.
Este artigo tem como objetivo analisar, à luz da ecotranscomplexidade, a avaliação da aprendizagem como movimento retroalimentador do currículo e do planejamento pertinente, destacando suas contribuições para a qualificação do processo educativo na Educação Básica. Trata-se de um estudo teórico-analítico, de abordagem qualitativa e caráter propositivo, ancorado nos pressupostos da complexidade, da transdisciplinaridade e da ecoformação. A discussão parte da compreensão de que currículo, planejamento e avaliação não se constituem como etapas isoladas, mas como dimensões interdependentes de um mesmo processo formativo. Inicialmente, problematiza-se a relação entre a Base Nacional Comum Curricular, currículos subnacionais e plano curricular da escola, evidenciando a tensão entre prescrição e contextualização. Em seguida, analisa-se o planejamento pertinente como mediação entre currículo, sujeitos, território e avaliação da aprendizagem. Na sequência, discute-se a avaliação para além da lógica classificatória e mensuradora, compreendendo-a como prática diagnóstica, processual, interpretativa e retroalimentadora. Como contribuição autoral, propõe-se uma matriz ecotranscomplexa de religação entre currículo, planejamento e avaliação, organizada em dimensão interna/nuclear, composta por currículo, planejamento pertinente e avaliação da aprendizagem, e dimensão externa/ampliada, constituída pelo replanejamento e pelo currículo vivido. Conclui-se que a avaliação da aprendizagem, quando assumida em chave ecotranscomplexa, interpreta o vivido, tensiona o previsto e orienta o porvir, favorecendo práticas pedagógicas mais pertinentes, integradoras e transformadoras.
Este trabalho objetiva discorrer sobre as características e potencialidades dos Recursos Educacionais Abertos (REA) em contexto de formação de professores de Letras. A partir disso, pretende-se compreender o potencial transformador de tais recursos no que tange à promoção de práticas autorais, colaborativas e inovadoras por/entre professores de língua(s) e literatura(s) em contexto da cibercultura. A partir de uma abordagem qualitativa, a pesquisa possui aprofundamento bibliográfico e documental, a fim de fundamentar as discussões de forma teórico-crítica a partir do contexto formativo dos docentes de Letras e analisando como as políticas públicas de formação docente contemplam, ou não, os REA e aspectos que dialogam com seus princípios. Pontua-se que, de acordo com suas características técnicas e estéticas, os REA estabelecem estreita relação com práticas que permitem adaptações e produção autoral, de forma criativa e inovadora, de diferentes textos e em diferentes línguas e formatos. Evidencia-se um descompasso entre as demandas relacionadas à cultura digital apresentadas para a educação básica e as experiências formativas previstas para os futuros professores, bem como uma limitada articulação entre as políticas analisadas. Embora não haja menção explícita aos REA nos principais documentos que normatizam a formação do professor de Letras, a sua exploração no cenário de formação pode se configurar como um avanço no que tange à compreensão das novas práticas de comunicação, de produção de textos e do próprio trabalho docente na área das linguagens na era digital.
O presente artigo é um recorte de uma pesquisa de doutorado que se verteu sobre a reorganização curricular das outrora disciplinas, agora componentes curriculares, Biologia, Física e Química, sob a égide de área de conhecimento, imposta pela Base Nacional Comum Curricular do Ensino Médio (BNCCEM). Partindo da premissa que professores constituem comunidades profissionais atreladas às disciplinas escolares por eles ministradas, estabeleceu-se a pergunta de pesquisa mobilizadora: como ficam as identidades docentes desses professores, formados em licenciaturas especializadas frente a esta nova organização curricular? O referencial teórico foi construído em torno dos conceitos de comunidades disciplinares e epistêmicas, em diálogo a perspectivas da história e sociologia do currículo. A abordagem empírica e metodológica ampara-se na perspectiva da pesquisa com narrativa, justapondo-se dimensões macro, meso e micro e utilizando mônadas como dispositivos metodológicos. Seis professores foram entrevistados e dois documentos foram analisados: a Base Nacional e o Currículo Paulista Etapa Ensino Médio de 2020. A análise documental e biográfica indica que o agenciamento docente se manifesta por meio de episódios de refração, nos quais os professores subvertem a prescrição para transformar o currículo em um ato criativo de preservação do conhecimento escolar especializado. Conclui-se que a configuração de uma comunidade epistêmica de Ensino de Ciências favorece o entrecruzamento de fronteiras locais e cosmopolitas, ressignificando as tradições disciplinares de modo resistivo e inventivo às tensões promovidas pela prescrição estabelecida.