
A violência no contexto escolar reproduz desigualdades historicamente naturalizadas nas relações sociais. Na Educação Física Escolar (EFE), essas violências incidem de modo particular sobre os corpos. Por meio de uma pesquisa qualitativa participante, este artigo tem como objetivo analisar a coeducação como possibilidade político-pedagógica de enfrentamento das violências de gênero na escola. Tendo como referencial teórico os Estudos Feministas, realiza-se uma releitura do conceito de aprendizagem da separação, visando aprofundar o debate sobre a coeducação na EFE. Em seguida, são analisados dados de uma pesquisa participante desenvolvida por uma professora-pesquisadora em uma escola estadual de Fortaleza/CE, a partir de uma unidade didática orientada por intervenção coeducativa em uma turma de Ensino Médio. Os resultados evidenciaram que as aulas coeducativas tornaram visíveis os conflitos de gênero, de modo a possibilitar intervenções pedagógicas adequadas para o enfrentamento das violências de gênero na escola.
O artigo analisa os impactos da globalização e da democracia na gestão escolar angolana, destacando desafios e perspectivas para a efetivação de uma gestão participativa e para o fortalecimento da autonomia institucional. A pesquisa, de carácter bibliográfica, qualitativa e interpretativa, recorre à análise documental. Os resultados revelam que a gestão escolar é dinâmica, marcada por tensões e diversidade de ideias. A globalização influencia esse processo ao introduzir modelos empresariais centrados em eficiência e desempenho, redefinindo o papel do Estado, da escola e dos profissionais da educação. Conclui-se que a democracia, ao dialogar com tais efeitos, abre possibilidades para práticas participativas e para a autonomia escolar, ainda que permeadas por desafios contínuos.
As crianças aprendem e estão em formação no seu dia a dia com inúmeras coisas vinculadas ao tempo. O objetivo deste artigo consiste em apresentar a conexão entre tempo e coisas a partir da perspectiva das ciências sociais, além de mostrar como as crianças estabelecem essa relação no processo de formação e aprendizagem. A fundamentação teórica tem como base a perspectiva das ciências sociais que considera a relação do tempo e das coisas como uma construção social. O procedimento metodológico é uma revisão de literatura, na qual mapeia e discute como o tempo e as coisas influenciam a formação e a aprendizagem das crianças. Os resultados mostram que as crianças nas escolas aprendem o tempo cronológico, enquanto, em sociedade, o tempo e os objetos estabelecem relações entre passado, cotidiano e natureza. Deste modo, em tempos de Antropoceno, a relação com as coisas implica na transformação da interação cíclica das crianças com objetos e temporalidade.
O estudo examina como o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 4 da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas, especialmente nas metas 4.5 e 4.7, e o Novo Plano Nacional de Educação (2026-2036) produzem sentidos sobre a educação básica, problematizando a reflexão crítica como princípio formativo diante da racionalidade neoliberal e do neotecnicismo nas políticas educacionais. Compreende-se a educação como campo de disputas simbólicas em Bourdieu e mobiliza-se o conceito de habitus para interpretar disposições neotecnicistas. Realiza-se uma pesquisa documental ancorada nos estudos de políticas educacionais, fundamentada nesses documentos e orientada pelos sentidos de qualidade, justiça social e formação humana. Os resultados indicam que os princípios de equidade, inclusão e justiça social sustentam a reflexão crítica como contraposição ao neotecnicismo, deslocando a educação da lógica do desempenho, da adaptação flexível ao mercado e da responsabilização individual para reinscrevê-la no direito à educação, à democracia, à qualidade social e à emancipação dos estudantes.
O estudo analisa as Representações Sociais (RS) de estudantes do Ensino Médio sobre o desinteresse escolar, buscando compreender como significam a perda de engajamento com a escola. Fundamenta-se na Teoria das RS, em sua abordagem estrutural, articulada à Epistemologia Genética de Piaget e ao conceito de Modernidade Líquida de Bauman. Participaram 570 estudantes de instituições públicas do Sul do Brasil, cujas evocações livres ao termo “desinteresse” foram analisadas com os softwares EVOC e Complex, complementadas por análise de conteúdo das justificativas. Os resultados indicam um núcleo central composto por termos como “professor não explica bem”, “aulas chatas” e “aulas repetitivas”. Conclui-se que o desinteresse escolar não se reduz a uma falha individual ou apatia juvenil, mas constitui um fenômeno coletivo e relacional decorrente da desconexão entre a lógica transmissiva de ensino e as realidades juvenis na modernidade líquida, agravado pela sobrecarga docente e pela rigidez curricular. Apreender a estrutura dessa RS configura-se como um gesto ético e político capaz de reorientar a mediação pedagógica para práticas mais dialógicas, afetivas e significativas.
O trabalho analisa as interações entre a literatura infantojuvenil indígena e o ensino das ciências ambientais, destacando a relevância da leitura literária no processo de ensino e aprendizagem, a partir da perspectiva da construção de diálogos interculturais. Trata-se de uma pesquisa de natureza qualitativa, fundamentada no método de análise de conteúdo e análise ecocrítica. Os resultados evidenciaram as inter-relações entre as narrativas indígenas e os temas ambientais – cultura, biodiversidade, lugares, agricultura, conservação, mitos e lendas – reforçando a importância da leitura literária em sala de aula, articulada aos saberes indígenas e às ciências ambientais. A literatura infantojuvenil indígena, quando analisada à luz da ecocrítica, demonstrou ser um recurso valioso nas reflexões ambientais em sala de aula. Ela pode ser inspiradora aos educandos, despertando-os para novas formas de convivência com a humanidade que valorize posturas mais éticas em relação à diversidade de mundos e de saberes.
O artigo analisa as implicações da governança corporativa para os sistemas de inovação em universidades públicas, no contexto da financeirização do capital. O objetivo é examinar de que modo a incorporação desse conceito, originário do setor privado, redefine práticas de gestão universitária e incide sobre a autonomia acadêmica. Parte-se da concepção de governança corporativa como um conjunto de princípios, mecanismos e estruturas voltados à coordenação, ao controle e à tomada de decisão, orientados por critérios de eficiência, desempenho e accountability. Metodologicamente, a pesquisa é de natureza bibliográfica e documental, com análise crítica de referenciais teóricos e normativos sobre governança, administração pública e inovação. Os resultados indicam que, embora a governança corporativa possa fortalecer a capacidade institucional de articular parcerias e promover a inovação, sua adoção tende a subordinar a gestão acadêmica a racionalidades mercantis, fragilizando a autonomia universitária e tensionando o caráter público da universidade.
Interpretar a missão barnabita em Pernambuco a partir dos escritos produzidos pelos religiosos (cartas, relatórios e chronicas) entendidos aqui como ego-documentos (Artières, 1998), ou seja, registros nos quais a escrita de si opera como exercício de produção de identidade, é o objetivo do texto. Para tanto, mobiliza documentos preservados em arquivos localizados no Brasil e na Europa, em diálogo com referências da história cultural (Chartier, 1990), da crítica do arquivo (Farge, 2009) e da memória coletiva (Halbwachs, 1990). A interpretação sugere que a escrita religiosa não apenas registrou práticas, mas operou como uma estratégia de legitimação e uma certa pedagogia simbólica. À luz do conceito de ego-documentos, conclui-se que esses escritos funcionaram como dispositivos de elaboração da experiência missionária, por meio dos quais uma missão breve, e marcada por tensões, foi ressignificada como aprendizagem institucional e convertida em memória legítima da Ordem. O artigo evidencia, assim, como experiências efêmeras podem tornar-se lugares de memória e dispositivos formadores de identidade coletiva.
No campo da Educação, a Alimentação Escolar (AE) ainda carece de estudos mais aprofundados. Nesta escrita, objetivamos compreender as narrativas de diferentes atores sobre a AE em Medellín, como direito, política e ação pedagógica. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, ancorada na abordagem (auto)biográfica (Delory-Momberger, 2014) em três instituições educativas de Medellín-Colômbia, com 13 atores sociais – encarregados do Programa de Alimentação Escolar (PAE), docentes e estudantes do 5º ano do ensino primário. Segundo as narrativas dos colaboradores, no campo do Direito, a AE, além de suplementar a nutrição, mantém o estudante na escola. Como política, as narrativas apontaram para universalizar o PAE na Colômbia, equitativamente a todas as instituições educativas. Como ação pedagógica, promove a educação alimentar, auxilia as sociabilidades do comer, desvela as identidades culturais e, por fim, estimula o respeito mútuo e a cidadania.
Este artigo analisa os fundamentos teóricos e os contextos que sustentam o conceito de insubordinação criativa como atitude formativa e ético-política na Educação contemporânea. A partir de uma abordagem teórico-conceitual, mobilizam-se contribuições da Sociologia, da Educação e da Gestão Escolar, com o objetivo de mapear e articular perspectivas que dialogam com práticas educativas contra-hegemônicas e comprometidas com a justiça social. A análise problematiza os modos instituídos de ensinar e aprender, evidenciando que a insubordinação criativa se materializa no cotidiano escolar por meio da escuta, do cuidado e da reinvenção das práticas pedagógicas. Conclui-se que essa atitude ultrapassa a oposição pontual às normativas institucionais, afirmando-se como princípio orientador da formação docente, ao tensionar lógicas que reforçam desigualdades e ao reafirmar a Educação como prática de liberdade, dignidade humana e esperança crítica.
Ao tratar de crianças que ainda não leem de forma autônoma, cabe aos adultos garantir oportunidades de acesso aos livros e experiências de leitura mediadas. Embora a literatura sobre apropriação da leitura e mediação adulta seja ampla, são menos numerosos os estudos que investigam os desejos infantis relacionados às práticas de leitura compartilhada. Trata-se de um estudo de abordagem qualitativa, inserido nos princípios da quase-etnografia, realizado com 28 crianças de 3 a 5 anos em uma escola pública no México. O objetivo foi compreender o que pensam as crianças acerca da leitura literária, de seus espaços e dos momentos de leitura compartilhada. Os dados evidenciaram duas dimensões analíticas: o acesso aos livros e a presença de adultos mediadores. Os resultados indicaram desejo por leitura mediada, associado à escassez de livros, à limitada disponibilidade de mediadores e à baixa frequência em bibliotecas, percebidas como espaços de silêncio e obrigação. Conclui-se que as crianças anseiam por experiências de leitura que fortaleçam interações na tríade adulto–livro–criança.
Foram objetivos do texto evidenciar e discutir as circunstâncias nas quais o professor se comporta ou é compulsoriamente levado a se comportar segundo as atitudes de transigência no trabalho, para contemplar orientações direcionadas, decididas por instâncias oficiais nas esferas públicas e privadas, e ordenações superiores de instituições contratantes. Caracteriza-se como um ensaio descritivo exploratório fundamentado nos conceitos de disciplina e controle de Foucault (2014) e Deleuze (1992), nos achados das pesquisas de Sueth (2017; 2023), em publicações científicas pertinentes e na técnica de observação participante natural. Segundo as formas de transigências evidenciadas e as circunstâncias nas quais se desenvolvem em seu ambiente de trabalho, o professor é submetido com pouca ou nenhuma chance de resistência.
Este artigo analisa a maldição do conhecimento como problemática da prática docente, discutindo sua invisibilidade no cotidiano escolar e o processo de visibilização desencadeado pela Clínica da Atividade (CA). A fundamentação teórica tem perspectiva dialógico-desenvolvimental, integrando princípios da CA, da Psicologia Histórico-Cultural de Vigotski e da Filosofia da Linguagem de Bakhtin. O corpus constitui-se por transcrições de autoconfrontação cruzada realizada em 2023 em um colégio do sudoeste do Paraná, analisadas linguístico-discursivamente. A análise evidencia que a maldição do conhecimento se manifesta como viés cognitivo estrutural, caracterizado pela pressuposição docente de que os alunos compartilham seu repertório conceitual. Os resultados demonstram que a tomada de consciência, mediada pelo dispositivo clínico e pelo diálogo com o par profissional, promove deslocamento do automatismo para reflexão consciente, possibilitando estratégias pedagógicas mais acessíveis. Conclui-se que superar tal problemática demanda articulação entre reconhecimento individual e construção coletiva, evidenciando a potência da CA como dispositivo formativo transformador.
Este artigo analisa a história de vida e formação educacional de Maria do Monte Serrat, articulando a educação escolar e os saberes do cotidiano presentes em sua obra autobiográfica. Trata-se de uma pesquisa documental que utiliza a obra “A mãe-da-teimosia: o desejo de ser” para reconstituir os modos de ser, viver, fazer e resistir de Maria do Monte Serrat. Tem como referencial teórico Michel de Certeau (2014), Foucault (2004), Ginzburg (1989) e Perrot (2019). O estudo evidencia que a formação educacional de Monte Serrat expressa tanto o peso das prescrições sociais orientadas para o matrimônio e a maternidade quanto as formas de resistência que lhe possibilitaram ultrapassar esse modelo. Sua formação docente lhe garantiu uma certa independência, mesmo em um contexto em que a função social da mulher permanecia atrelada à vida doméstica.
O presente trabalho analisa a política indigenista do Serviço de Proteção aos Índios (SPI), no século XX, no que se refere à educação para as mulheres indígenas da Reserva Indígena de Dourados/Mato Grosso. A pesquisa busca – por meio de fontes documentais, como os documentos oficiais do SPI, disponíveis nos arquivos do Museu do Índio no Rio de Janeiro, nos conceitos de estratégias e táticas de Certeau (2014) e nas práticas e representação de Chartier (1990, 2011) – investigar como as políticas indigenistas do Estado implementaram a educação para as mulheres indígenas no período em estudo. Como resultados, é possível identificar que a política indigenista do SPI manteve e desenvolveu uma educação para as mulheres indígenas que priorizou a assimilação, a “civilização” e a integração das etnias à sociedade não indígena por meio de um ensino pautado no projeto republicano de nacionalizar e universalizar as culturas, a educação e os comportamentos sociais.
A historiografia da educação tem avançado no resgate de protagonismos femininos. Contudo, permanecem personagens singulares a serem exploradas. Nesse sentido, a partir de resultados de uma pesquisa de doutorado, o artigo analisa a atuação e a trajetória da professora Maria Helena Silveira, concentrando-se nas décadas de 1960 a 1980. Para tal, utiliza o conceito de "arquivos em aparições transitórias" ao analisar as suas contribuições na formação de professores para programas de saúde, na década de 1970. A metodologia adotada combina as humanidades digitais, a "bola de neve", a história oral e a pesquisa em fontes primárias em arquivos institucionais e pessoais. Os resultados iluminam processos históricos da interface entre educação e saúde, especialmente no período que remete à censura e à repressão, ao revelar a investigação de conteúdos interpretados como "contestatórios". O estudo demonstra, assim, o potencial das trajetórias individuais para o debate sobre educação, saúde e democracia no Brasil.
Sob a perspectiva da história das mulheres de Perrot (2005), que evidencia a complexidade das experiências femininas e transcende a experiência de vítimas, neste estudo o objetivo foi analisar as trajetórias formativas de três mulheres pioneiras do Norte do Brasil que se graduaram em Medicina, entre 1890 e 1892: Amélia Pedroso Benebien (Ceará), Ephigenia Veiga (Bahia) e Maria Amélia Cavalcanti de Albuquerque (Pernambuco). Por meio de pesquisa bibliográfica e documental, investigou-se como essas mulheres ingressaram e atuaram em um ambiente acadêmico e profissional predominantemente masculino, em um período marcado por discursos patriarcais e científicos que buscavam restringir a presença feminina na esfera pública. Apesar dos obstáculos, as pioneiras mobilizaram recursos legais, culturais e sociais para concluir seus estudos e exercer a Medicina. Seus feitos refletem não apenas resistências individuais mas também mudanças sociais mais amplas em relação à capacidade intelectual das mulheres, aos seus agenciamentos e aos seus papéis na construção da nação.
O estudo se insere no campo da história da educação de mulheres ao tratar da vida de Luiza de Teodoro Vieira, educadora e militante política com protagonismo na cidade de Fortaleza, Ceará. O objetivo foi biografar a história de vida de Luiza de Teodoro com ênfase na sua atuação educativa (1960-1995). Elaborou-se uma pesquisa do tipo biográfica, amparada teoricamente na História Cultural, que entrecruzou fontes autobiográficas e entrevistas orais. Luiza de Teodoro foi docente dos ensinos primário, secundário e superior, bem como gestora das secretarias de educação municipal e estadual e escritora de livros didáticos para a educação básica. A interpretação hermenêutica da narrativa de vida conclui que sua visibilidade foi majorada por sua militância educacional e política, seja para formação de alunos e professores de maneira crítica e contextualizada, seja contra a ditadura militar, o que resultou em reconhecimento social e homenagens.