
Trata-se de um artigo de reflexão sobre o protagonismo da enfermagem brasileira nos anos de 1980 e sua articulação com o campo da saúde coletiva. O Movimento de Reforma Sanitária Brasileira e o Movimento Participação contribuíram para a construção de uma perspectiva democrática, crítica e comprometida com o direito à saúde, à cidadania e à vida digna na saúde e na enfermagem brasileira. A produção teórico-metodológica na década de 1980 possibilitou compreender a enfermagem como trabalho inserido na organização social, política e econômica da sociedade capitalista, superando concepções idealizadas, tecnicistas e descontextualizadas da profissão. Essa abordagem ampliou a compreensão sobre as relações entre formação, trabalho, ensino e reprodução das desigualdades sociais, em articulação com pensamento crítico do campo da Saúde Coletiva. Essa nova práxis ético-política é fundamental para a materialização do Sistema Único de Saúde. Nesse sentido, é imprescindível uma formação crítica, interdisciplinar e comprometida eticamente, capaz de enfrentar desigualdades, fortalecer e promover transformações na perspectiva da dignidade humana.
A malária permanece como um importante problema de saúde pública na Amazônia brasileira, concentrando a maior parte dos casos registrados no país. O estado do Pará apresenta ampla heterogeneidade na ocorrência da doença, influenciada por fatores ambientais, socioeconômicos e pela dinâmica de ocupação do território. Nesse contexto, torna-se relevante, analisar a distribuição temporal e espacial dos casos de malária no estado do Pará, no período de 2020 a 2024. Trata-se de estudo epidemiológico observacional, ecológico, descritivo-inferencial, de abordagem quantitativa, realizado com dados secundários do Sistema de Informação de Vigilância Epidemiológica da Malária (SIVEP-Malária). Calculou-se a frequências dos casos de malária, o Índice Parasitário Anual (IPA), sua classificação de risco e os indicadores de autocorrelação espacial, utilizando o Índice Global de Moran e os Indicadores Locais de Associação Espacial (LISA). Os resultados mostraram que dos 119.999 casos confirmados de malária, houve predomínio de Plasmodium vivax (86,2%) e falciparum (12,4%). A distribuição espacial evidenciou elevada transmissão na região Sudoeste do Pará, e com oscilação de baixo para alto índice de transmissão no Marajó, e baixa transmissibilidade nas regiões do Nordeste e Metropolitana. Conclui-se que a malária apresentou variação temporal, porém permaneceu espacialmente concentrada, mostrando a necessidade de estratégias de vigilância em áreas com maior vulnerabilidade.
Este estudo analisou as contribuições da Gestalt-terapia para o acompanhamento psicológico de vítimas de abuso sexual, considerando seus fundamentos teóricos, suas possibilidades clínicas e seus limites éticos diante do trauma. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, de caráter exploratório e descritivo, desenvolvida por meio de revisão integrativa da literatura. A análise foi organizada a partir de produções acadêmicas que discutem a Gestalt-terapia, o abuso sexual, o trauma psicológico e seus impactos subjetivos, corporais e relacionais. Os achados foram agrupados em categorias relacionadas à compreensão do abuso sexual como ruptura do campo e da experiência, aos impactos na percepção de si e nos vínculos, às possibilidades clínicas da Gestalt-terapia e aos cuidados éticos necessários no manejo do trauma. Os resultados indicam que a violência sexual pode comprometer a relação da vítima com o próprio corpo, com sua identidade e com os vínculos interpessoais, produzindo retraimento, hipervigilância, esquiva e dificuldades de contato. Na perspectiva gestáltica, essas manifestações podem ser compreendidas como ajustamentos criativos construídos diante de experiências invasivas, sobretudo quando há violação da fronteira de contato. Conclui-se que a Gestalt-terapia pode contribuir para a ampliação da awareness, a reconstrução gradual do contato, o fortalecimento da autonomia e a ressignificação da experiência vivida. No entanto, sua aplicação exige cautela técnica, sensibilidade fenomenológica e respeito ao ritmo da vítima, a fim de evitar intervenções invasivas ou revitimizadoras.
O presente artigo analisa os impactos da opacidade algorítmica sobre a efetividade da tutela jurisdicional e o direito constitucional de acesso à justiça na sociedade da informação. Parte da transformação digital intensificada no período pós-pandemia para examinar os desafios decorrentes da virtualização do Poder Judiciário, da exclusão digital e da crescente utilização de sistemas de inteligência artificial na atividade jurisdicional. A pesquisa adota abordagem qualitativa, com base em revisão bibliográfica, análise doutrinária, legislativa e jurisprudencial, refletindo sobre os riscos da assimetria informacional, da ausência de transparência algorítmica e da automação de decisões judiciais. Os resultados demonstram que, embora as tecnologias promovam maior celeridade processual, sua utilização indiscriminada pode comprometer garantias fundamentais, como o contraditório, a ampla defesa, o devido processo legal e a dignidade da pessoa humana. Conclui-se que a efetividade do acesso à justiça exige a conciliação entre inovação tecnológica, supervisão humana, transparência e inclusão digital, de modo que a inteligência artificial atue como instrumento de fortalecimento, e não de restrição, dos direitos fundamentais no Estado Democrático de Direito.
A expansão urbana desordenada em municípios de pequeno porte impõe desafios à regularização de obras de terraplenagem executadas sem licenciamento prévio, demandando metodologias precisas para quantificação de volumes e avaliação geotécnica. Este estudo objetivou regularizar as obras do Loteamento Sinuelo, em Palma Sola (SC), área de aproximadamente 25.417 m², mediante aplicação de Modelos Numéricos do Terreno (MNT). Comparou-se um Modelo Digital de Superfície (MDS) pré-obra obtido do SIGSC com um Modelo Digital do Terreno (MDT) pós-obra, gerado a partir de levantamento com receptor GNSS geodésico Topcon Hipper II e processado no QGIS 3.40, com conversão de altitudes via Mapgeo2015. Os resultados indicaram volume total de corte de 13.915 m³ e de aterro de 1.288,51 m³. Identificou-se um talude instável de 238,44 m, para o qual foram calculados 712,79 m³ de reaterro para conformação à geometria 1,0H:1,0V, além de 761,41 m² a serem revegetados com aproximadamente 3.070 placas de grama. Conclui-se que a integração entre GNSS e MNTs constitui método robusto para regularização retroativa de intervenções topográficas, subsidiando o licenciamento urbanístico-ambiental e o dimensionamento de obras de estabilização de taludes.