
Resumo: Este artigo versa sobre as formas de intervenção psicológica orientadas às pessoas em situação de refúgio, traçando os contornos que as intervenções assumem em campo e as intersecções desse fazer com as políticas humanitárias e o sistema de governança global. Foi desenvolvida uma investigação qualitativa e exploratória, com a realização de entrevistas com distintos interlocutores que atuam no campo humanitário do refúgio e situações de crise. Aqui, são trazidos os relatos de 11 profissionais da Psicologia atuantes em ONGs, projetos, programas e agências internacionais. Em campo, as ações desenvolvidas são as mais amplas e têm objetivos muito variados, sendo enquadradas, de modo geral, entre abordagens clínicas ou psicossociais. A Psicologia é convocada a prestar auxílio a pessoas em mobilidade, integrando o trabalho das organizações internacionais com atuação sem fronteiras e das políticas públicas de acolhimento e integração nos países de recepção. A saúde mental é um foco de atenção que se insere nas práticas de intervenção, mobilizando ações tanto de caráter preventivo, como de atendimento especializado, quando há detecção de problemas. Os profissionais abordam tais demandas dentro das possibilidades de atuação oferecidas pelo contexto, entendendo que há a exigência de reinvenção dos aportes da Psicologia para dar conta desse cenário móvel, heterogêneo, instável, marcado por vivências extremas.
Resumo: O interesse por pesquisa e intervenção sobre o comportamento alimentar está em crescimento, mas parte relevante da produção nessa área foca excessivamente uma fronteira entre comer normal e comer patológico, derivada do modelo médico e uma concepção dualista sobre o comportamento, considerando-o causado por eventos mentais. A Análise do Comportamento pode contribuir para o estudo do comportamento alimentar com uma concepção alternativa, que define o comportamento de modo não dualista e estabelece leis gerais sobre as relações organismo-ambiente que não se restringem a padrões problemáticos. Parte dessa contribuição envolve o conceito e as características de procedimentos de avaliação funcional: o estabelecimento de relações de determinação do comportamento por variáveis ambientais presentes e passadas. O objetivo do presente trabalho é definir avaliação funcional, diferenciar os tipos de avaliação funcional existentes e exemplificar alguns comportamentos alimentares e suas possíveis relações com eventos ambientais. Para tanto, são ainda apresentados alguns conceitos auxiliares, como Modelo de Seleção por Consequências; Estímulos Antecedentes e Subsequentes; Reforçamento; e Condicionamento. Espera-se que este trabalho sirva como fonte de orientação para profissionais - de Psicologia, Nutrição e áreas afins - interessados em interpretar e/ou modificar o comportamento alimentar.
Resumo: A pandemia de covid-19 impactou a vida de milhões de pessoas em todo o mundo, inclusive a dos adolescentes, que, em virtude do isolamento social, foram privados do convívio com seus pares, com a escola e com pessoas fora do contexto familiar mais próximo. Esta pesquisa objetivou compreender a experiência de ser adolescente durante esse período. Foi utilizado o método progressivo-regressivo, ou biográfico, de Sartre, realizando-se a análise-regressiva e a síntese-progressiva a partir da coleta dos depoimentos de oito adolescentes, que foram abordados por meio desta questão: “como foi para você a experiência vivida de ser adolescente durante a pandemia de covid-19”? Os dados coletados foram analisados em quatro etapas: transcrição das falas das entrevistas fenomenológicas; redução fenomenológica dos depoimentos transcritos; elaboração das unidades de sentido; e interpretação das estruturas de situação. Dos resultados da pesquisa, emergiram as seguintes categorias ou unidades de sentido: escolha profissional; suicídio como fenômeno da existência; influência da sociedade; repercussões emocionais; relações sociais; isolamento social na educação; e retorno ao contato presencial. A pesquisa desvelou sentimentos como medo, tristeza, angústia e ansiedade, resultados das limitações impostas pela pandemia de covid-19 aos projetos de ser dos adolescentes.
Resumo: Este trabalho investiga os desafios da intersetorialidade no cuidado em saúde mental infantojuvenil nas práticas de profissionais de onze municípios das cinco macrorregiões do Ceará. Foram realizadas rodas de conversa com os profissionais da rede de assistência e proteção em saúde mental infantojuvenil de cada município, buscando realizar uma análise crítica das falas colhidas. O artigo tem natureza qualitativa do tipo exploratória, utilizando como referencial textos do campo da psicanálise e das políticas públicas e, como ferramenta metodológica, a análise de conteúdo. Ao todo, 96 profissionais de diversas categorias participaram das rodas de conversa de todas as macrorregiões. Percebeu-se que, em sua maioria, os profissionais participantes compartilham de desafios muito semelhantes da prática intersetorial, com algumas exceções provenientes de aspectos específicos da realidade de cada cidade. Foi possível observar como principais desafios aspectos que envolvem: precarização das condições de trabalho e fragmentação do cuidado; compreensões imprecisas sobre da noção de rede intersetorial; e barreiras geográficas, conflitos territoriais, violências e estigmatização dos territórios. Conclui-se que os resultados deste trabalho possibilitam a criação de subsídios para formação de profissionais inseridos no campo da saúde mental infantojuvenil e a construção de ações vinculadas a essa política que estejam alinhadas aos contextos singulares nos quais se inserem as problemáticas apresentadas.
Resumo: O objetivo principal foi analisar as relações entre variáveis de saúde mental (capital psicológico e burnout) e variáveis acadêmicas (motivação acadêmica e afetos sobre o projeto de carreira) em estudantes de graduação da Universidade Federal da Bahia (UFBA), considerando diferenças sociodemográficas e acadêmicas. Participaram 503 discentes, com idade média de 26,53 anos, dos quais 67,8% eram mulheres e 39,8% se autodeclararam pardos(as). A maior parte da amostra estava matriculada em cursos da Área III (Filosofia e Ciências Humanas), estudava no turno da manhã (38%), ingressou por ampla concorrência (57,9%), não participava de nenhum programa de permanência estudantil (89,9%) e não precisou mudar de cidade para estudar (72,6%). Os participantes responderam de maneira on-line ao questionário sociodemográfico, à Escala de Capital Psicológico no Contexto de Estudos e ao Oldenburg Burnout Inventory, à Escala de Motivação Acadêmica e à Escala de Afetos sobre o projeto de carreira. Foram encontradas correlações positivas entre afetos positivos sobre a carreira, motivação acadêmica, capital psicológico e satisfação acadêmica e entre afetos negativos sobre a carreira e burnout. Foram observadas correlações negativas entre afetos negativos sobre a carreira, exaustão e desengajamento, e fatores positivos, como motivação acadêmica, capital psicológico e satisfação com a experiência acadêmica. As diferenças de médias indicaram diferenças em função do gênero, raça, área de conhecimento e da mudança de cidade para cursar a graduação. Conclui-se que fatores acadêmicos e sociais impactam na trajetória acadêmica de estudantes da UFBA, sendo necessário adotar medidas institucionais que reduzam o impacto das desigualdades sociais e proporcionem uma melhor experiência para seus estudantes.
Resumo: Este estudo é um recorte de uma pesquisa mais ampla sobre conjugalidade inter-racial e tem como objetivo compreender de que maneira compor essa modalidade de relação contribuiu para a construção da identidade conjugal e das identidades raciais dos membros do casal, bem como para o engajamento conjunto contra o racismo. Trata-se de uma pesquisa qualitativa com realização de quatro entrevistas, duas com um homem negro e duas com uma mulher branca, casal inter-racial entre si. Da análise e categorização do material emergiram cinco categorias, das quais três serão discutidas neste trabalho: “Racialização no casal: tornar-se branco, tornar-se negro”; “Vivência de racismo”, que se desdobra em duas subcategorias: “Sutileza, relativização e parceiro assegurador” e “Sofrimento racial compartilhado”; e “O “nós” conjugal inter-racial”. Observou-se que o reconhecimento das diferenças raciais e a legitimação de vivências racializantes possibilitaram aos membros repensarem seus lugares raciais, além de ter contribuído para a sensibilização da parceira branca frente ao racismo e para a construção da identidade conjugal. Conclui-se que o reconhecimento da alteridade e do racismo faz com que os parceiros pensem o “eu” racializado a partir do “nós” inter-racial e vivenciem juntos o sofrimento que aflige um em particular, fortalecendo a relação.
Resumo: Este relato resulta de uma experiência de estágio curricular em Psicologia Social, junto a um dispositivo de saúde do Consultório na Rua (CnR) de uma cidade do extremo sul do Brasil. Articulando conceitos da Saúde Coletiva e Psicologia Social, compartilhamos reflexões e inquietações sobre as práticas de cuidado em Psicologia, junto à população em situação de rua (PSR). Ao retomarmos nossos registros de diário de campo, nos questionamos sobre o que pode a Psicologia no cenário da rua. Das análises, três analisadores emergiram: espaço, tempo e relações, associados aos desafios do cotidiano de trabalho a partir de uma política pública, no que se refere aos atravessamentos institucionais, relacionais, afetivos e seus efeitos em nossos corpos-estagiárias. Problematizamos a necessidade de que a formação em Psicologia possa levar em conta estratégias voltadas à multiplicidade, flexibilidade e a singularização das relações, encadeadas em tempos e espaços situados. A Psicologia nas ruas evoca movimentos, em prol de um estar presente, acompanhar as demandas, trabalhar pela defesa da garantia de direitos, muitas vezes violados, na articulação das políticas públicas, em uma perspectiva intersetorial. Enfim, se traduz em um caminhar junto, acionando processos na produção de encontros como práticas de cuidado.
Resumo: Este é um relato da experiência da autora no cargo de psicóloga da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), no Polo Base de Confresa do Distrito Sanitário Especial Indígena do Araguaia, entre julho e dezembro de 2021. Trata-se da relação com o povo Apyãwa/Tapirapé da Terra Indígena Urubu Branco, no nordeste de Mato Grosso, estabelecida pela vinculação institucional e mantida pelo afeto e militância. Objetiva-se refletir criticamente sobre o cotidiano de trabalho de psicóloga da Sesai, tensionando as contribuições do saber psi para promoção do bem viver. Como método, foram utilizados dados escritos em diário de campo que continha as vivências profissionais, a participação em manifestações indígenas nacionais e os contatos virtuais com os/as Apyãwa pelo aplicativo Whatsapp. A análise deu-se pela reflexão crítica estabelecida com a pouca literatura disponível sobre essa etnia. Além da contextualização de aspectos históricos, territoriais e sociais desse povo feita na introdução, a discussão dividiu-se em dois pontos. O primeiro abordou a atuação da Psicologia em território indígena a partir de dilemas ético-políticos revelados nas atividades prescritas institucionalmente; e o segundo trouxe a figura do apoiador não indígena sob a ótica Apyãwa, pela sua leitura e posicionamento ético-político-ideológico, bem como pela escolha de quais pessoas serão consideradas amigas. Conclui-se que, mesmo com diretrizes sobre a atenção diferenciada, a prática ainda revela disputas entre biopoder e conhecimentos Apyãwa. Urge adotar uma prática racializada e comprometida com a demarcação de territórios indígenas, para além dos geográficos, a fim de garantir a promoção do bem viver.
Resumo: O direito de recusa aos psicofármacos é considerado uma questão bastante controversa no âmbito da discussão ética sobre o cuidado em Saúde Mental, principalmente em situações que envolvem sujeitos em crise. O objetivo deste artigo é apresentar os resultados de uma pesquisa realizada em um Centro de Atenção Psicossocial (Caps) III do município do Rio de Janeiro sobre o manejo clínico utilizado por profissionais nos casos de recusa medicamentosa. A pesquisa, de caráter qualitativo e tipo exploratório, utilizou uma abordagem narrativa na análise dos dados, que foram coletados através de dez entrevistas semiestruturadas e virtuais realizadas com profissionais do serviço. A proposta é que possamos ampliar as possibilidades de leitura e compreensão sobre esse fenômeno pouco discutido no Brasil, sem pretensões protocolares sobre modos de intervenção em tais contextos. Nos resultados, apresentamos os tipos de recusa e motivos identificados pela equipe e os manejos comumente realizados por ela diante dessas situações. Também apresentamos uma narrativa onde cinco casos acompanhados pelo serviço são descritos e posteriormente debatidos na discussão. Concluímos que tanto os motivos quanto os manejos da recusa aos psicofármacos envolvem fatores subjetivos e objetivos, micro e macropolíticos, sendo o contexto local um importante norteador para as escolhas reais, visto que as opções ideais nem sempre conversam com os cenários encontrados nos serviços. Por fim, apresentamos o dispositivo do Plano e Cartão de Crise como uma possibilidade de garantir o consentimento dos usuários e sua participação na tomada de decisão em momentos de crise.
Resumo: Este artigo aborda três modalidades de escuta no campo da assistência social: a escuta comum, a escuta qualificada e a escuta do inconsciente, assim como seus impasses e possibilidades. Observa-se a ausência de pesquisas e trabalhos sobre a escuta a partir da práxis com os sujeitos que demandam atendimento no Sistema Único da Assistência Social (SUAS). Mesmo nos documentos oficiais do SUAS, constatam-se apenas menções pontuais sobre essa ferramenta. A escuta constitui o principal instrumento dos trabalhadores da assistência social; por meio dela, o trabalhador identifica vulnerabilidades, riscos, situações de empobrecimento, impasses psíquicos e sociais, além de compreender as dinâmicas familiares, comunitárias, territoriais e as potencialidades dos sujeitos. O objetivo do presente trabalho foi analisar as diferentes modalidades de escuta na assistência social e propor uma escuta do inconsciente que não desconsidere as demais modalidades e que inclua a realidade material dos sujeitos, bem como os efeitos do modo de produção capitalista. Para isso, utilizamos a psicanálise de Freud e Lacan e o materialismo histórico. Foram abordados os seguintes pontos: quem escuta, as dificuldades em escutar o outro, a identificação, a realidade, a transferência, a ética e as formas de responder às demandas apresentadas. Conclui-se que a psicanálise e o materialismo histórico podem contribuir para situar o trabalhador nesse campo, possibilitando conhecer tanto a realidade subjetiva quanto a material, assim como pensar estratégias de intervenção. A escuta, nesse contexto, compreende não apenas um ato de conhecer, mas também um fazer-saber.
Resumo: A adolescência se caracteriza como um período de intensas mudanças físicas, psicológicas e culturais, que permeia várias vulnerabilidades para comportamentos de risco. As tentativas de suicídio emergem como uma forma de vazão a um sofrimento psíquico insuportável. Nesse sentido, este trabalho tem como objetivo aproximar-se dos sentidos e significados do comportamento suicida na adolescência. Trata-se de uma pesquisa de abordagem qualitativa, baseada no método clínico-qualitativo de Turato, com delineamento de estudos de casos múltiplos. Foram analisados quatro casos de adolescentes que tentaram suicídio entre 2019 e 2020, incluindo seus familiares e jovens afetivamente próximos. A análise dos dados foi realizada pelo método de análise de conteúdo proposto por Bardin. Como resultados, destaca-se que os adolescentes se apresentam como pessoas silenciosas, solitárias e com intensa dor psíquica, com vivências familiares de falta de acolhimento, ancoragem e espaços continentes de escuta e validação de seu sofrimento. Além disso, as tentativas de suicídio revelam os contornos de um sofrimento psíquico insuportável, que transborda em atos autoagressivos, representando risco à própria vida. Há uma comunicação implícita nesse ato, que pode ser compreendida como um pedido de ajuda e, portanto, não pode ser silenciada. Assim, são urgentes programas de promoção de saúde mental específicos às necessidades dos adolescentes, especialmente aqueles com características individuais e familiares que favorecem o risco de suicídio, e ações pautadas no fortalecimento dos vínculos familiares e na psicoeducação dos pais em relação ao comportamento suicida.
Resumo: No Brasil é elevado o número de casos de violência doméstica e familiar contra as mulheres, e existem lacunas teóricas a respeito da atuação da Psicologia diante desses casos. Com o objetivo de compreender o processo de trabalho de psicólogas que atuam no âmbito jurídico diante das demandas que envolvem violência contra as mulheres, foi desenvolvida uma pesquisa qualitativa, exploratória e de levantamento, por meio de entrevistas semiestruturadas. As participantes foram nove psicólogas que atuam em diferentes serviços das áreas da justiça e da segurança pública de um estado da Região Sul do país. Os resultados apontam três grandes temas que atravessam e dificultam o processo de trabalho das psicólogas nesse contexto: a) as condições de trabalho, com insuficiência de recursos, de profissionais, de espaço físico adequado e de capacitações, bem como com sobrecarga e tempo reduzido para atendimento das demandas; b) o conteúdo do trabalho, com encaminhamentos carregados de subjetividade e atuações com concepções teóricas, técnicas e éticas diversas; e c) a estrutura jurídico-política marcada por interesses políticos, econômicos e sociais que impactam na aplicabilidade e efetividade das legislações. Identificam-se tanto barreiras para a execução do trabalho com vistas à garantia do direito das mulheres quanto a necessidade de construção de referências teóricas, técnicas e éticas para o exercício profissional crítico e transformador.
Resumo: Uma das principais ações dos profissionais que realizam as consultas de acompanhamento do bebê no Sistema Único de Saúde (SUS) é a prática de orientação. Visando propor possibilidades de contribuição da Psicologia do Desenvolvimento para esses profissionais, o objetivo desse trabalho é discutir as potencialidades da escuta dos profissionais de saúde que realizam as consultas de acompanhamento do bebê, a partir de uma experiência de pesquisa que tem a escuta enquanto principal dispositivo de investigação. A partir de um projeto de pesquisa territorializado, interessado em conhecer as experiências e desafios dos profissionais de saúde da Atenção Básica que trabalham com bebês, foram entrevistados 15 profissionais de diferentes formações, oriundos de sete Unidades de Saúde de Montenegro/RS. A perspectiva de escuta adotada nas entrevistas tem seus pressupostos amparados na psicanálise. A partir da análise das entrevistas, constata-se que ser escutado oportunizou espaços reflexivos sobre o ofício dos profissionais, a partir do resgate de suas experiências, que evidenciavam aspectos apagados pelo cotidiano. Oportunizar esses espaços proporciona que os entrevistados possam elaborar experiências e desafios sobre seu trabalho. Reflete-se que os impactos práticos da escuta dos profissionais de saúde pode ser uma contribuição da Psicologia do Desenvolvimento, deslocando-a de um lugar de orientação.
Resumo: Com o objetivo de analisar os motivos que acarretam o abandono da carreira internacional dos atletas da Seleção Brasileira de Karatê, este estudo adotou uma abordagem de métodos mistos e coletou dados de 47 ex-atletas que fizeram parte desse grupo na categoria sênior. Os participantes responderam a um questionário estruturado com perguntas fechadas e uma pergunta aberta sobre grau de influência dos motivos de abandono da carreira de atleta da Seleção Brasileira. Os dados quantitativos foram analisados por meio de modelos de regressões ordinais multiníveis bayesianos e os dados qualitativos por meio da análise temática. Verificou-se que os motivos que mais influenciaram a saída da Seleção Brasileira foram questões financeiras, dificuldades de conciliação das carreiras e insegurança profissional. Os dois principais temas que emergiram dos comentários dos participantes foram a “falta de uma gestão profissional” e “falta de reconhecimento”. Com base nos resultados, verifica-se a necessidade de uma reestruturação das condições presentes no meio esportivo para que os atletas se sintam seguros em relação à sua carreira e possam performar com excelência.
Resumo: Reconhecendo as dificuldades apontadas na literatura da área sobre a atuação de psicólogas(os) na proteção social básica, este artigo busca analisar as alternativas construídas em um grupo de psicólogas(os) como respostas aos desafios do trabalho no Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), bem como discutir as contribuições das estratégias construcionistas sociais para a reflexão sobre a prática profissional nesse contexto. Participaram 16 psicólogas(os) de 12 cidades do estado de São Paulo. Foram-lhes formuladas perguntas apreciativas, autorreflexivas e de foco no futuro, inspiradas na metodologia da investigação apreciativa, as quais permitiram: questionar a atuação profissional, identificar recursos e ações potencializadoras, refletir sobre os desafios institucionais, reconhecer possibilidades de coletivização e politização das demandas e ampliar a percepção de agência pessoal diante das dificuldades estruturais dos serviços. O grupo proporcionou ainda a sistematização de estratégias metodológicas e a construção coletiva de alternativas às limitações enfrentadas.
Resumo: Apesar da existência da Política Nacional de Atenção à Saúde das Pessoas Privadas de Liberdade (Pnaisp), nos cárceres brasileiros, são constantes as violações de direitos: superlotação, violências, celas insalubres, proliferação de patologias etc. Nesse contexto, tornou-se importante analisar quais são as possibilidades de acesso à saúde no sistema prisional durante a pandemia da covid-19. Este artigo objetiva analisar as estratégias desenvolvidas para o cuidado das(os) apenadas(os) no período da pandemia, por meio da discussão sobre as políticas de enfrentamento à covid-19 no sistema prisional. Por meio da análise de conteúdo, foram examinados 56 documentos, sendo 7 internacionais e 49 nacionais, produzidos durante a pandemia com normativas sobre a covid-19 no sistema prisional (decretos, leis, recomendações, portarias, resoluções, notas informativas, técnicas e de posicionamento). A partir da análise realizada, foi possível identificar orientações e estratégias previstas nesses documentos para a condução de ações durante a pandemia dentro do sistema prisional. Entretanto, observou-se que, apesar das estratégias pensadas, não houve uma ação coordenada como resposta à pandemia no sistema prisional. Consta-se que a pandemia agravou problemas já existentes que foram associados a novas questões apresentadas pela condição de crise pandêmica. A Pnaisp continuou sem efetividade durante a pandemia, mesmo com a Recomendação nº 62/20, produzida pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Por fim, conclui-se que, numa estrutura social arquitetada e calcada na hierarquização de poder a partir de marcadores como gênero, raça, classe social e geração, viu-se durante a pandemia de covid-19 um adensamento das violações e vulnerabilidades às quais já estão submetidas as pessoas privadas liberdade.
Resumo: A pandemia de covid-19 acrescentou ao luto fatores de risco para uma experiência mais difícil para os enlutados, como ausência de rituais fúnebres e mortes repentinas e múltiplas. Este artigo objetivou analisar a percepção de pessoas enlutadas pela covid-19 sobre a assistência recebida em formato grupal e online no âmbito do projeto Acolhedor durante a pandemia. Participaram 12 pessoas enlutadas que integraram grupos de apoio ao luto online entre os meses de março de 2021 e março de 2022. Os participantes foram entrevistados em profundidade. As entrevistas foram gravadas, transcritas, organizadas em um corpus textual e submetidas a análise lexical por meio do software Iramuteq, originando quatro classes: “Formato do atendimento”, “Experiência grupal”, “Singularidade da morte na pandemia” e “Compreensão do processo de luto”. Na percepção dos entrevistados, ter recebido apoio profissional e social durante o processo de luto, ainda que online, teve efeitos diversos que propiciaram melhor ajustamento à perda, por meio do aprendizado, do compartilhamento de emoções e da construção de sentidos para a situação vivida. Conclui-se que a oferta de grupos de apoio em formato online pode ser uma estratégia importante de cuidado a pessoas enlutadas, especialmente em contextos em que não se faz possível o contato pessoal.
Resumo: Este artigo analisa como a segurança pública se estabelece estrategicamente como uma estrutura de poder que perpetua a violência sistêmica contra pessoas negras, consolidando o genocídio negro brasileiro. Utilizamos como metodologia o estabelecimento de conversas com seis mães que compartilharam o contexto da morte de seus filhos em decorrência da atuação da Polícia Militar de Minas Gerais. Construímos um bloco de notas para orientar as conversas, no qual abordamos aspectos relacionados à trajetória de vida dos jovens negros e ao contexto da produção de suas mortes, entrelaçando essas questões com as vivências das mães. Realizamos análises dos relatos das mães dialogando com a noção de democracia, tomando como referência Mbembe; com o Estado de exceção, utilizando as contribuições de Agamben; e com a ideia de suplício, fundamentando-nos em Foucault. Observamos que as noções de risco e periculosidade, ancoradas no racismo, foram utilizadas como justificativas pelo Estado para as mortes dos jovens negros. Nessa lógica, reside uma dinâmica de culpabilização das vítimas pela violência que as acomete, a qual encontra terreno fértil na fragilização da democracia, no fortalecimento do Estado de exceção e na manutenção da noção de suplício na atualidade. Sublinhamos o quão imperativo é que a Psicologia, enquanto ciência comprometida com a luta antirracista, se dedique ao entendimento e combate ao racismo em contextos de criminalização e genocídio da juventude negra, além de construir formas de amparar as mães, especialmente as mulheres negras, que frequentemente vivenciam o luto e a luta por justiça de maneira solitária.
Resumo: Neste ensaio teórico, buscamos nas raízes históricas e culturais brasileiras elementos fundamentais do mal-estar institucional. Nosso método se apoia no estudo de Dussel sobre o eurocentrismo, que associa as violências institucionais americanas à transmissão do pensamento colonialista, em indicações deixadas por Freud a respeito da força do trauma na história e na historiografia, a partir da qual inferimos que o cristianismo gestou o eurocentrismo. Nosso objetivo é evidenciar que a dificuldade específica do cristianismo com a alteridade, segundo a hipótese que buscaremos estabelecer, modelou a estrutura inconsciente do mal-estar em questão. Encontramos elementos traumatizantes na cultura que convergem com o que LaCapra descreve como “trans-históricos”, que não estão obrigatoriamente ligados à realidade factual, mas tocam o real social. Os historiadores revelam a particularidade desse fragmento do trauma fundador do fantasma cristão que definiu tal estilo de relação à alteridade como “um drama familiar”. Esse romance histórico/familiar é detalhado pelos historiadores, inclusive como ele participa da constituição da subjetividade dos sujeitos nas coletividades desde a expansão do cristianismo e sobretudo a partir de Constantino, desde 312. Concluímos que, sem o trabalho de cultura adequado, os afetos recalcados pela história tendem a se perpetuar como sintoma, se atualizando pela cadeia significante e se repetindo compulsivamente pelos séculos. Finalizamos o trabalho trazendo a discussão para o Brasil, por meio da relação do significante “favela” com sua significação social e metapsicológica no contexto deste romance histórico.
Resumo: Este artigo de teor histórico e teórico fundamentou-se em uma pesquisa bibliográfica de materiais em português, inglês e russo, focando a relação entre o período do Primeiro Plano Quinquenal soviético (1929-1932), também conhecido como a Grande Quebra stalinista, e sua relação com as reflexões de Vigotski sobre a “crise na psicologia” e a (menos conhecida) “crise na pedologia”, no contexto da rede de iniciativas do autor. As conclusões debatem os efeitos da promoção stalinista das disciplinas práticas, como a pedologia, no campo da psicologia e das ciências aplicadas. Nossa análise mostra que, diante da redução de importância da psicologia na Grande Quebra, não é possível definir claramente se a pedologia ou a psicologia seria a ciência mais geral para Vigotski, que, de forma vacilante, ensaiava um distanciamento em relação a pressupostos de sua psicologia, enquanto os transpunha à pedologia. Entre outras mudanças de suas ideias ontoepistemológicas em relação ao texto “O significado histórico da crise na psicologia”, Vigotski reflete sobre a possibilidade de compartilhamento do objeto científico entre pedologia e psicologia, desde que essas desenvolvessem, sobre ele, diferentes perspectivas. Há, contudo, sinais de sobreposição entre as duas ciências. O resultado de nossa análise esclarece o labirinto de afirmações do autor dotadas tanto de potencial ontoepistemológico para a psicologia e as ciências afins, quanto para a confusão dos leitores contemporâneos, mediando uma leitura materialista dialética do autor em sua gênese histórica que procura apreender a totalidade da obra do autor em sua diversificada e complexa rede de iniciativas.