
O estudo objetivou mapear a estrutura dos estados fenomenais emergentes durante atividade de rotação mental tendo-se o tato como fonte sensorial, em pessoas com deficiência visual. Foi composta uma amostra dividida em grupos de cegos congênitos (7 participantes), e indivíduos com cegueira adquirida (10 participantes), os quais foram submetidos à atividade de rotação mental como tarefa de autofocalização, em que foram apresentados estímulos geométricos para tateio e construção de imagem mental dos mesmos. Em seguida aplicou-se a ‘Entrevista Fenomenológico-Cognitiva dos Estados Autoconscientes’ (EFEA). Os resultados do estudo confirmaram que pessoas com deficiência visual, ao utilizar o tato como fonte sensorial, podem, através dessa estimulação, criar e vivenciar estados fenomenais complexos, que mediam o acesso à experiência interna em curso. Os resultados encontrados no estudo contribuem significativamente para o início da sistematização do conhecimento referente a esta importante questão que ainda configura uma lacuna na teoria cognitiva atual, principalmente em pessoas com deficiência visual. Os achados põem a necessidade de se pensar novos procedimentos metodológicos que acessem com fidedignidade os estados fenomenais vivenciados por deficientes visuais, alargando a compreensão atual da pesquisa cognitiva sobre a mente fenomenal, em pessoas com deficiência visual.
No curso, ‘Os Anormais’ (1974-1975) do Collège de France, Foucault destaca que a figura do Monstro – ao lado das figuras do indivíduo a ser corrigido e do sujeito onanista – é fundamental na constituição do sujeito anormal moderno e, diante de amplas fases do pensamento, elemento de exceção e transgressivo das leis naturais, civis e divinas. Esta pesquisa estuda a genealogia da figura do monstro nesse curso, e seus efeitos e desdobramentos nos âmbitos jurídicos, biológicos, morais e médicos, articulados às suas mutações em abrangentes períodos históricos, produtores do conhecimento, com destaque para a Idade Média, Classicismo e Modernidade. Verificou-se que o monstro é uma figura de exterioridade ao pensamento vigente, uma exceção desafiando os aspectos normativos de cada época e abrangendo um espectro de estigmatizações e de preconceitos, produtores de exclusão social, violência e mortificação singularmente produzidos a cada momento histórico, sendo elemento-chave, dentre outros, na constituição do exame médico-legal contemporâneo.
Este artigo reflete sobre as práticas artísticas em sua relação com o corpo a partir da obra Estruturação do self da artista plástica Lygia Clark. Neste sentido, problematiza a relação entre a estética e a política, pensando-as no contexto da proposição de formas de resistência à dominação biopolítica a partir de uma ontologia política dos corpos. A obra de Lygia Clark nos fornece instrumentos capazes de acessar a experiência por meio da experimentação dos corpos com os chamados ‘objetos relacionais’. Através deles opera-se uma desconstrução sensorial que nos possibilita ressignificar os signos do poder e os dispositivos de sujeição que regulam nossa experiência a partir dos enquadramentos normativos reificados pela cultura. Tal análise foi realizada no contexto de um projeto de pesquisa envolvendo alunos e professores do curso de psicologia da Universidade Federal de Jataí-GO. Os estudos realizados se constituíram como um posicionamento frente ao cenário totalitário e extremista no qual vivemos na atualidade.
Com base na Psicologia Histórico-Cultural, temos como objetivo apresentar uma discussão acerca da íntima relação entre as vivências no contexto familiar e a constituição de sentidos sobre a educação. Fundamentadas no método do materialismo histórico-dialético, destacamos que no processo de nossa pesquisa teórica-empírica, que envolveu quatro jovens egressos do ensino médio, as relações familiares foram trazidas de maneira muito intensa em suas narrativas sobre o processo de escolarização, fazendo com que reorganizássemos nosso estudo teórico, incluindo uma revisão sobre a construção histórica e social da família, e ampliássemos nossa investigação empírica, realizando não só entrevistas iniciais, mas também entrevistas recorrentes, com base em roteiro semiestruturado. Nossas análises se se pautaram tanto nas teorizações de Vigotski, como nos continuadores da Psicologia Histórico-Cultural. Os resultados indicam que as vivências no ambiente familiar e os significados sobre educação compartilhados na família norteiam o processo de formação de sentidos pessoais dos jovens sobre educação, o que se deu tanto do ponto das experiências concretas, por compartilharem determinadas circunstâncias de vida dentro do grupo familiar, como do ponto de vista simbólico resultante das apropriações dos significados familiares nas trocas interpessoais.
A teoria do desenvolvimento moral de Lawrence Kolberg foi acusada de androcentrismo e sexismo por Carol Gilligan, que argumentou que as mulheres partem de uma estrutura de raciocínio moral distinta dos homens: a ética do cuidado. Contudo, ao justificar o porquê das diferenças de gênero, Gilligan subsidiou-se na Psicanálise, a qual a levou ao determinismo psíquico e ao binarismo de gênero. Diante disso, por meio de revisão bibliográfica, este artigo propõe uma nova interpretação emancipatoriamente feminista sobre essas diferenças, com base na Psicologia Analítica pós-junguiana. Revisitou-se a justificativa de Gilligan, comparando-a às prerrogativas junguianas, em especial pós-junguianas, e essa última pode ser amparada por pesquisas que inferem não haver predominância de gênero nas estruturas morais. Este artigo, por um lado, critica o posicionamento inicial de Gilligan, que na época foi interpretado como essencialista, mas reconhecendo sua própria evolução teórica: em seus estudos posteriores, a autora refinou suas ideias, enfrentando e desfazendo a armadilha essencialista que se criou em torno de sua obra. Por outro lado, resgatando a contribuição da Psicologia pós-junguiana e oferecendo uma alternativa à fundamentação na Psicanálise por Gilligan, conclui que a Ética da Justiça e a Ética do Cuidado podem compor o patrimônio moral de homens e mulheres, sem distinção ou relação de predominância segundo o gênero, apontando assim para a necessidade de utilizar-se dessa abordagem no campo da Psicologia Moral.
Este estudo analisa práticas de racismo e de preconceito contra a diversidade sexual, vivenciadas por um universitário autodeclarado negro e gay. Trata-se de um estudo qualitativo, orientado por pressupostos epistemológicos feministas, que utilizou o conceito de interseccionalidade como ferramenta para capturar as opressões vivenciadas em torno de dois eixos de subordinação: raça e sexualidade. Utilizou-se como técnica a entrevista narrativa, caracterizada como uma estratégia metodológica de pesquisa não estruturada e em profundidade, sendo os dados discutidos com base na Análise Crítica do Discurso, que se pauta nas estruturas do discurso e nas relações de poder como fundamentalmente produtores de sujeitos. Constatou-se a presença de segregação espacial, produção e manutenção de imagens negativas associadas à população negra, e hierarquização e inferiorização racial e sexual no estabelecimento das relações afetivas. Propomos, como ferramenta ético-política, a desestabilização das múltiplas opressões produzidas pelos paradigmas da modernidade universal — masculina, branca e heterossexual — como possibilidade de luta por patamares mais elevados de justiça social e igualdade de direitos. Palavras-chave: Racismo sistêmico; sexismo; enquadramento interseccional.
Objetivou-se identificar percepções e atitudes acerca da violência no namoro de adolescentes escolares. Estudo descritivo, exploratório e qualitativo desenvolvido com 502 participantes que preencheram questionário sobre relações afetivas e violência no namoro. Realizou-se a análise do material através do software NVivo. Os resultados indicam que os adolescentes reconhecem situações de violência, contudo toleram a prática de comportamentos abusivos nas relações afetivas. Dessa maneira, apenas a detenção de conhecimento acerca das manifestações violentas e o reconhecimento dessas práticas abusivas são insuficientes para contribuir na cessação do ciclo de violência. Os dados incitam a necessidade de novos estudos para maior compreensão do fenômeno, bem como para estimular a resolução positiva de conflitos e a manutenção de relacionamentos saudáveis em uma perspectiva harmônica entre o casal.
Este artigo relata uma experiência profissional de pós-venção em casos de suicídio, realizada na Secretaria Municipal de Saúde de Diadema, no estado de São Paulo, durante 2020, após a morte de uma enfermeira durante trabalho, sob o impacto da COVID-19. Os procedimentos utilizados são descritos a partir da vivência das autoras que relatam os primeiros cuidados psicológicos e demais ações estruturadas no transcurso de seis meses. Foi estruturado um Comitê de Cuidado em escuta psicanalítica, e implementadas rodas de conversa, rituais religiosos e ofertadas modalidades de acolhimento com o objetivo de prevenir subsequentes tentativas de suicídio ou suicídios de profissionais de saúde a fim de promover um processo de luto institucional em diálogo com a gestão de saúde local. É possível supor que ação contundente e de impacto emergencial no campo psicossocial evitou que se alastrassem sensações de pânico e desamparo ou de imitação do efeito Werther diante do risco de contágio provocado pela divulgação do caso com tentativas de suicídio e/ou suicídios adicionais. A experiência pode contribuir em situações similares futuras e pode ser incorporada em políticas públicas de saúde, assim como em outros setores. Todo esse cenário indica a necessidade de manter ações permanentes de saúde dos trabalhadores e das trabalhadoras, garantindo a escuta das demandas relacionadas aos processos de trabalho e à ambiência, favorecendo a prevenção e promoção da saúde mental no trabalho e em outros ambientes.
As Condições Crônicas Complexas na infância são caracterizadas por um quadro clínico irreversível, dependência tecnológica para garantia de sobrevida, hospitalização prolongada e limitações severas a nível físico e/ou cognitivo. O objetivo deste estudo é compreender as experiências dos familiares, cuidadores principais, no cotidiano de cuidados destinados às crianças hospitalizadas em Condições Crônicas Complexas. Nesse sentido, desenvolveu-se uma pesquisa qualitativa no cenário de um quarto hospitalar, onde essas crianças estão residentes desde o nascimento, sem nenhum contato com o meio externo. Foram realizadas entrevistas semiestruturadas com nove familiares dessas crianças e utilizou-se a análise temática e o referencial winnicottiano para a análise dos dados e discussão dos resultados, sendo identificados aspectos que compõem e caracterizam a relação de cuidado estabelecida entre os familiares e seus filhos. Observou-se que os fatores ambiente e tempo foram determinantes na experiência de cuidado com a criança, no cotidiano hospitalar dessas famílias. Destaca-se a importância de se considerarem os aspectos subjetivos dos familiares, que perpassam a dimensão do cuidado complexo com os filhos, na direção de se ampliar o olhar para além das tecnologias, técnicas e diagnósticos que os cercam. Palavras-chave: Hospitalização; criança; doença crônica.
Esta pesquisa qualitativa objetivou compreender e discutir, a partir da Teoria Histórico-Cultural, quais os sentidos atribuídos à escola por adolescentes de escolas particulares e públicas de Uberlândia-MG durante a pandemia de COVID-19. Participaram nove estudantes de ensino médio, entre 15 e 18 anos. Realizamos, entre setembro e outubro de 2020, entrevistas semiestruturadas individuais, de maneira remota. Por meio de análise de conteúdo, construímos cinco categorias sobre os sentidos atribuídos às escolas pelos(as) adolescentes: 1) Espaço de socialização e preparação para a vida; 2) Contexto de aprendizado de conteúdos; 3) Espaço de (des)preparação acadêmica e profissional; 4) Lugar organizador; 5) Espaço de apoio. Entretanto, principalmente para estudantes de escolas públicas, o cumprimento da maioria desses papéis está sendo efetivado de maneira insuficiente durante a pandemia, escancarando as desigualdades e injustiças envolvidas no acesso ao ensino. Ademais, destaca-se a relevância da garantia do direito à escolarização para o desenvolvimento integral de adolescentes, propiciando a apropriação de conhecimentos e a reflexão crítica sobre a realidade.
O objetivo do trabalho foi identificar as metacontingências descritas na Lei 11.343/2006, que trata da prevenção ao uso, promoção de saúde, reinserção social do usuário e repressão ao tráfico de drogas no Brasil. Para análise da Lei, seus artigos foram categorizados, a fim de identificar contingências de controle comportamental classificadas como completas ou incompletas, conforme especificassem todos ou apenas parte dos antecedentes, respostas e consequências planejadas para alterar comportamentos relacionados ao uso e tráfico de drogas. As contingências identificadas tratam dos seguintes temas: 1 – Contexto selecionador das demais contingências, 2 – Contingências de atenção à saúde, prevenção e reinserção social; 3 – Contingências de repressão ao tráfico e produção de drogas e 4 – Contingências para julgamento de pessoas e apreensão de bens oriundos do tráfico. Dentre os resultados, foi identificada uma maioria de contingências completas acerca dos temas tratados. Foram também identificados critérios imprecisos para distinção entre traficantes e usuários e para o registro das ocorrências; ausência de contingências de reforçamento positivo para comportamentos alternativos aos de tráfico; propostas de intervenção focadas na abstinência total e penalização a partir do afastamento temporário de traficantes e usuários do convívio social, sem que sejam corrigidas outras condições ambientais que determinam o tráfico ou o uso. A análise revela estratégias de controle social pautadas no controle coercitivo como prática educativa. Discutem-se as ineficiências dessas estratégias e a necessidade de que novas regulamentações sejam implementadas e avaliadas.
À medida que envelhece, cada indivíduo apresenta sua maneira de lidar com as mudanças e com as perdas próprias do envelhecimento. Alguns sofrem de uma angústia de que são incapazes de se recuperar, outros sofrem menos intensamente e por um período bem menor de tempo. Entretanto, a maioria parece tolerar bem os estragos temporários das situações de adversidade, desta forma, o interesse dos estudos tem sido direcionado aos fatores de resiliência em potencial que podem fornecer resistência mental. Por resiliência entende-se o conjunto de processos sociais e intrapsíquicos que possibilitam o desenvolvimento saudável da pessoa, mesmo esta vivenciando experiências desfavoráveis. Com o intuito de verificar o quanto os eventos potencialmente traumatizantes e as adversidades ao longo da vida são responsáveis pelo desenvolvimento da capacidade de resiliência no indivíduo idoso longevo, foi realizada pesquisa qualitativa com 5 idosas. Como resultado obteve-se as seguintes conclusões: 1) Para haver resiliência é preciso haver um evento traumático prévio; 2) As vivências traumáticas não podem transbordar a capacidade que cada indivíduo tem para lidar com elas; 3) Vivências de apego seguro na infância são fundamentais para desenvolver a capacidade de resiliência; 4) A capacidade de realizar o trabalho de luto está diretamente relacionada com a capacidade de resiliência; 5) Os mecanismos de defesa maduros estão relacionados à capacidade resiliente; 6) Os autoconceitos estão diretamente relacionados à capacidade resiliente e 7) A espiritualidade ajuda na capacidade resiliente do indivíduo, porém não é fundamental. Dessa forma, essa pesquisa investiga como as experiências traumáticas contribuem para o desenvolvimento da resiliência em indivíduos na velhice.
Este estudo descritivo e exploratório investigou ações protagonistas identificadas na intervenção #NoBullying, realizada com 40 adolescentes, entre 12 e 17 anos, estudantes do Ensino Fundamental de uma escola pública do Sul do Brasil. A intervenção foi desenvolvida em grupos, com oito sessões semanais, a partir do método experiencial e metodologias participativas. Os dados, obtidos por meio do diário de campo, das gravações e transcrições dos encontros, da Medida de Avaliação da Intervenção e das fichas de avaliação dos observadores, foram analisados a partir de duas categorias: Participação ativa e engajada e processos de empoderamento e proteção. Na primeira categoria, são discutidas as expressões de participação ativa e engajada manifestadas pelos adolescentes durante os encontros, quando desenvolveram e lideraram atividades com as crianças da escola. Na segunda categoria, são analisadas atitudes e iniciativas dos participantes que não estavam previstas como atividades na intervenção, mas que demonstraram o empoderamento do grupo. Os resultados demonstram que o grupo empoderou-se e exerceu seu protagonismo, utilizando seus conhecimentos, de forma engajada, para intervir na escola, e atuando como agente protetivo junto a seus pares. Conclui-se que a intervenção oferece uma possibilidade para os adolescentes refletirem, apoiarem-se e se sentirem fortalecidos para o enfrentamento de situações de violência contra eles mesmos ou seus pares.
El presente artículo tuvo como objetivo realizar una revisión sistemática de la literatura científica en América Latina respecto de los múltiples aspectos asociados con el inicio en el consumo de sustancias psicoactivas en adolescentes y jóvenes en contextos de vulnerabilidad social. Se realizó la búsqueda de artículos publicados durante el período de 2013 a 2021 en las bases de datos Scielo, Lilacs y RedIb, con los descriptores Trastornos relacionados con sustancias, Abuso de drogas, Vulnerabilidad social y Adolescentes; definidos por DeCS/MeSH y BVS. Se seleccionaron 22 estudios publicados en portugués, español e inglés. Se elaboraron tres categorías: Crianza parental y experiencias de violencia durante la infancia, Influencia del grupo y Contexto de vulnerabilidad y exclusión social, que identifican los principales hallazgos de este trabajo. Los resultados evidencian que los adolescentes experimentan procesos de exclusión social sin posibilidades de participación en diversas esferas de la vida social como desvinculación del ámbito escolar, familiar y social, considerando que las condiciones de inequidad social en los distintos ámbitos de inserción de los jóvenes producen riesgos a la salud, entre ellos el consumo de drogas.
Este estudo teve como objetivo conhecer e descrever como a qualidade conjugal se expressa em casais que coabitam e vivenciam a etapa de formação do casal. A qualidade conjugal foi compreendida a partir das seguintes dimensões: satisfação, compromisso, intimidade, sexualidade e afetividade. Oito casais heterossexuais, em coabitação, sem filhos, adultos jovens, residentes em Porto Alegre e região metropolitana, foram entrevistados conjuntamente. A análise temática dedutiva realizada permitiu constatar que as dimensões da qualidade conjugal avaliadas se retroalimentam. Pode-se verificar que os casais manifestaram indícios de boa qualidade conjugal por meio do desejo de permanecer e investir no relacionamento, pelo senso de intimidade compartilhado, pela vivência mutuamente satisfatória da sexualidade e a partir das expressões de afeto e cuidado com o parceiro. De modo geral, os participantes demonstraram estar satisfeitos com seus relacionamentos amorosos. Evidencia-se, por fim, a importância de investigar a qualidade conjugal durante a etapa de formação do casal, dada a repercussão dos padrões que se estabelecem nesta fase ao longo do ciclo vital.
O termo intersexo diz respeito às pessoas cujos fatores genéticos e/ou estrutura anatômica diferem das características genitais, gonadais e cromossômicas atribuídas ao sexo masculino ou feminino. Neste estudo, empreendemos a tarefa de construir – por meio da arte e de discussões mediadas por ela – compreensões ampliadas e menos norteadas por padrões da binariedade como única forma de vivência humana. Para tanto, objetivamos refletir sobre a significação da função social do corpo intersexo na arte, a partir do livro IV da obra Metamorfoses de Ovídio. Tomamos como base para o estudo o Materialismo Histórico e Dialético, a Psicologia da Arte de Vigotski e experiências acadêmicas e clínicas anteriores. A discussão estrutura-se em dois eixos: 1) ausência de escolha e intervenção externa no corpo da pessoa intersexo e 2) vivência do corpo da pessoa intersexo e sua relação com a binariedade. O corpo da pessoa intersexo apresenta-se como obstáculo objetivo para compreensões acerca do corpo humano que se apoiam somente em uma visão binária. Portanto, a intersexualidade, como se apresenta na obra ovidiana, alcança uma função social que explicita a diversidade das experiências humanas de corporeidade. Por fim, a análise anuncia uma funcionalidade social e estética do corpo intersexo, pois permite materializar contradições inerentes à existência, bem como denunciar os limites de sistemas de classificação social que não contemplam outros modos de ser e estar no mundo.
A preservação dos recursos ambientais e a minimização dos impactos ambientais da vida humana na terra, sustentabilidade e desenvolvimento sustentável são tópicos que se sobressaem frente ao contexto de crise ambiental experimentado. Em função disso, o fenômeno das ecovilas vem tomando destaque por ser um assentamento humano que reúne vida em comunidade e maior integração com a natureza. O objetivo desse estudo é descrever as práticas sustentáveis, a vivência comunitária e a forma de organização e funcionamento da ecovila Inkiri-Piracanga. Os procedimentos metodológicos partem de uma abordagem etnográfica, utilizando-se principalmente de entrevistas informais e observação participante. Os resultados indicam práticas e valores referentes ao autoconhecimento, à solidariedade e à comunidade, fortalecendo assim, os vínculos afetivos. Além de serem evidentes projetos e técnicas de cuidado com a natureza em formato de gestão participativa. Nota-se que ecovilas contribuem para a construção e implantação de meios sustentáveis para lidar com a crise ambiental.
As implicações da pandemia de COVID-19 são multifacetadas, afetando diretamente a organização do trabalho. Durante esse período, observou-se a intensificação de tendências, tais como a ênfase em metas, muitas vezes inalcançáveis, a invasão do tempo e do espaço para além das fronteiras do trabalho, e a adequação compulsória ao mundo virtual. Essa realidade tem elevado substancialmente as exigências sobre os trabalhadores, agravando ainda mais quando se contemplam os efeitos da pandemia sobre os serviços de saúde pública. Isso, por sua vez, intensifica o cenário desafiador para os trabalhadores adoecidos. Diante desse contexto, objetivou-se investigar o acesso às redes de apoio dos trabalhadores adoecidos no período pandêmico. Para atingir esse propósito, foram conduzidas entrevistas semiestruturadas com oito trabalhadores adoecidos, com as idades variando de 25 a 55 anos e experiências profissionais abrangendo períodos de três a 35 anos. Esses participantes foram identificados por meio da estratégia de amostragem em bola de neve (SnowballSampling). O critério de inclusão baseou-se na manifestação voluntária dos trabalhadores em relação ao adoecimento e na disponibilidade para participar das entrevistas, realizadas por meio de videoconferência em uma plataforma online. Foram abordados como eixos de análise: história de vida e o processo de adoecimento; mobilização das redes em período pandêmico e os impactos promovidos. Os dados foram submetidos a uma análise temática, resultando na identificação das seguintes categorias de conteúdo: (1) redes de apoio como linha de cuidado à saúde do trabalhador: instâncias mobilizadas na pandemia; (2) fios que não compõem as redes: a organização do trabalho como espaço de fragilidade; (3) do individualismo do trabalho à solidão do distanciamento social. Conclui-se que durante o período de pandemia, as empresas intensificaram os processos de trabalho, agravando o estado de saúde dos seus trabalhadores. Além disso, observou-se que as redes de cuidado possibilitaram a construção e fortalecimentos das relações sociais nesse período.
O objetivo do artigo é investigar como o contato com a natureza afeta o desenvolvimento biopsicossocial de crianças com Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). O estudo é qualitativo, exploratório e descritivo, baseado em pesquisa bibliográfica e de campo, seguindo os princípios do Método de Aprendizado Sequencial, proposto por Joseph Cornell. A pesquisa de campo foi desenvolvida com um grupo de crianças que apresentaram laudo com TDAH, na faixa etária de 7 a 12 anos, que, no início da pesquisa, estavam matriculadas regularmente em escola pública municipal da cidade de Crato – CE. As atividades foram realizadas na Zona de Uso Público (ZUP) da Floresta Nacional do Araripe-Apodi (FLONA), no Parque Ecológico Riacho do Meio e no Sítio Pinheiros, na cidade de Barbalha. Como procedimentos técnicos, foram utilizados a observação, registros em guias e em diários de campo e a interpretação dos dados. Trata-se de um estudo de caso múltiplo, realizado por meio de intervenção socioambiental. O estudo evidenciou que, por meio do contato direto com a natureza, além de as crianças vivenciarem experiências genuínas, apresentaram a minimização de sintomas pontuais, no TDAH, no momento da intervenção como também um melhor desenvolvimento dos aspectos cognitivos (maior conhecimento e compreensão) e socioafetivos (habilidades de comunicação, convívio em equipe, valores e autopercepções).
Estudo qualitativo, descritivo e exploratório que objetivou analisar as percepções de psicólogas atuantes em oncologia pediátrica acerca dos processos e resultados de intervenções psicossociais realizadas na área. Cinco psicólogas que trabalham com crianças e adolescentes com câncer no âmbito hospitalar foram entrevistadas de modo presencial ou online, com base em um roteiro para entrevista semiestruturada. As respostas obtidas foram categorizadas com base na Análise de Conteúdo de Bardin. A partir dos relatos obtidos, foram desenvolvidas categorias em quatro eixos temáticos: trabalho com as famílias; atuação na equipe multiprofissional; avaliação dos resultados das intervenções; e desafios e benefícios da atuação profissional. O familiar foi visto como informante, aliado, foco de apoio e alvo da intervenção. O papel do psicólogo na equipe multiprofissional foi destacado como promotor de interações, interconsultor, mediador e auxiliador na comunicação de más notícias. Os resultados das intervenções psicossociais foram vistos a partir do alcance de alterações psicológicas nas crianças, feedback, aplicação de testes psicométricos e redução da demanda. Os desafios da atuação profissional consistiam, por exemplo, em lidar com crianças em fim de vida ou resistentes à intervenção. Os benefícios, por sua vez, estiveram relacionados a contribuições, reconhecimentos e fortalecimento da espiritualidade. Destaca-se a necessidade de mais ênfase em investigações qualitativas dessa temática e da discussão de suas implicações para a formação profissional em psicologia.