
Resumo: Este artigo versa sobre as formas de intervenção psicológica orientadas às pessoas em situação de refúgio, traçando os contornos que as intervenções assumem em campo e as intersecções desse fazer com as políticas humanitárias e o sistema de governança global. Foi desenvolvida uma investigação qualitativa e exploratória, com a realização de entrevistas com distintos interlocutores que atuam no campo humanitário do refúgio e situações de crise. Aqui, são trazidos os relatos de 11 profissionais da Psicologia atuantes em ONGs, projetos, programas e agências internacionais. Em campo, as ações desenvolvidas são as mais amplas e têm objetivos muito variados, sendo enquadradas, de modo geral, entre abordagens clínicas ou psicossociais. A Psicologia é convocada a prestar auxílio a pessoas em mobilidade, integrando o trabalho das organizações internacionais com atuação sem fronteiras e das políticas públicas de acolhimento e integração nos países de recepção. A saúde mental é um foco de atenção que se insere nas práticas de intervenção, mobilizando ações tanto de caráter preventivo, como de atendimento especializado, quando há detecção de problemas. Os profissionais abordam tais demandas dentro das possibilidades de atuação oferecidas pelo contexto, entendendo que há a exigência de reinvenção dos aportes da Psicologia para dar conta desse cenário móvel, heterogêneo, instável, marcado por vivências extremas.
Resumo: O interesse por pesquisa e intervenção sobre o comportamento alimentar está em crescimento, mas parte relevante da produção nessa área foca excessivamente uma fronteira entre comer normal e comer patológico, derivada do modelo médico e uma concepção dualista sobre o comportamento, considerando-o causado por eventos mentais. A Análise do Comportamento pode contribuir para o estudo do comportamento alimentar com uma concepção alternativa, que define o comportamento de modo não dualista e estabelece leis gerais sobre as relações organismo-ambiente que não se restringem a padrões problemáticos. Parte dessa contribuição envolve o conceito e as características de procedimentos de avaliação funcional: o estabelecimento de relações de determinação do comportamento por variáveis ambientais presentes e passadas. O objetivo do presente trabalho é definir avaliação funcional, diferenciar os tipos de avaliação funcional existentes e exemplificar alguns comportamentos alimentares e suas possíveis relações com eventos ambientais. Para tanto, são ainda apresentados alguns conceitos auxiliares, como Modelo de Seleção por Consequências; Estímulos Antecedentes e Subsequentes; Reforçamento; e Condicionamento. Espera-se que este trabalho sirva como fonte de orientação para profissionais - de Psicologia, Nutrição e áreas afins - interessados em interpretar e/ou modificar o comportamento alimentar.
Resumo: A pandemia de covid-19 impactou a vida de milhões de pessoas em todo o mundo, inclusive a dos adolescentes, que, em virtude do isolamento social, foram privados do convívio com seus pares, com a escola e com pessoas fora do contexto familiar mais próximo. Esta pesquisa objetivou compreender a experiência de ser adolescente durante esse período. Foi utilizado o método progressivo-regressivo, ou biográfico, de Sartre, realizando-se a análise-regressiva e a síntese-progressiva a partir da coleta dos depoimentos de oito adolescentes, que foram abordados por meio desta questão: “como foi para você a experiência vivida de ser adolescente durante a pandemia de covid-19”? Os dados coletados foram analisados em quatro etapas: transcrição das falas das entrevistas fenomenológicas; redução fenomenológica dos depoimentos transcritos; elaboração das unidades de sentido; e interpretação das estruturas de situação. Dos resultados da pesquisa, emergiram as seguintes categorias ou unidades de sentido: escolha profissional; suicídio como fenômeno da existência; influência da sociedade; repercussões emocionais; relações sociais; isolamento social na educação; e retorno ao contato presencial. A pesquisa desvelou sentimentos como medo, tristeza, angústia e ansiedade, resultados das limitações impostas pela pandemia de covid-19 aos projetos de ser dos adolescentes.
Resumo: Este trabalho investiga os desafios da intersetorialidade no cuidado em saúde mental infantojuvenil nas práticas de profissionais de onze municípios das cinco macrorregiões do Ceará. Foram realizadas rodas de conversa com os profissionais da rede de assistência e proteção em saúde mental infantojuvenil de cada município, buscando realizar uma análise crítica das falas colhidas. O artigo tem natureza qualitativa do tipo exploratória, utilizando como referencial textos do campo da psicanálise e das políticas públicas e, como ferramenta metodológica, a análise de conteúdo. Ao todo, 96 profissionais de diversas categorias participaram das rodas de conversa de todas as macrorregiões. Percebeu-se que, em sua maioria, os profissionais participantes compartilham de desafios muito semelhantes da prática intersetorial, com algumas exceções provenientes de aspectos específicos da realidade de cada cidade. Foi possível observar como principais desafios aspectos que envolvem: precarização das condições de trabalho e fragmentação do cuidado; compreensões imprecisas sobre da noção de rede intersetorial; e barreiras geográficas, conflitos territoriais, violências e estigmatização dos territórios. Conclui-se que os resultados deste trabalho possibilitam a criação de subsídios para formação de profissionais inseridos no campo da saúde mental infantojuvenil e a construção de ações vinculadas a essa política que estejam alinhadas aos contextos singulares nos quais se inserem as problemáticas apresentadas.
Resumo: O objetivo principal foi analisar as relações entre variáveis de saúde mental (capital psicológico e burnout) e variáveis acadêmicas (motivação acadêmica e afetos sobre o projeto de carreira) em estudantes de graduação da Universidade Federal da Bahia (UFBA), considerando diferenças sociodemográficas e acadêmicas. Participaram 503 discentes, com idade média de 26,53 anos, dos quais 67,8% eram mulheres e 39,8% se autodeclararam pardos(as). A maior parte da amostra estava matriculada em cursos da Área III (Filosofia e Ciências Humanas), estudava no turno da manhã (38%), ingressou por ampla concorrência (57,9%), não participava de nenhum programa de permanência estudantil (89,9%) e não precisou mudar de cidade para estudar (72,6%). Os participantes responderam de maneira on-line ao questionário sociodemográfico, à Escala de Capital Psicológico no Contexto de Estudos e ao Oldenburg Burnout Inventory, à Escala de Motivação Acadêmica e à Escala de Afetos sobre o projeto de carreira. Foram encontradas correlações positivas entre afetos positivos sobre a carreira, motivação acadêmica, capital psicológico e satisfação acadêmica e entre afetos negativos sobre a carreira e burnout. Foram observadas correlações negativas entre afetos negativos sobre a carreira, exaustão e desengajamento, e fatores positivos, como motivação acadêmica, capital psicológico e satisfação com a experiência acadêmica. As diferenças de médias indicaram diferenças em função do gênero, raça, área de conhecimento e da mudança de cidade para cursar a graduação. Conclui-se que fatores acadêmicos e sociais impactam na trajetória acadêmica de estudantes da UFBA, sendo necessário adotar medidas institucionais que reduzam o impacto das desigualdades sociais e proporcionem uma melhor experiência para seus estudantes.