
A Base Nacional Comum Curricular considera que os educandos da educação básica devem aprender a utilizar a linguagem escrita como forma de interação, nos diferentes campos de atuação da vida em sociedade, estimulando o protagonismo e a participação na cultura letrada de forma autônoma. Sem o aporte de uma formação continuada para o professor, o livro didático se investe do papel de bússola da prática em sala. Para satisfazer a essa demanda, contribuem orientações de livro didáticos de Língua Portuguesa indicados a professores e alunos, razão por que é necessário questionar que perspectivas teóricas fundamentam o ensino da escrita nesses materiais didáticos. Para tanto, este artigo analisa as perspectivas teóricas mobilizadas pelas tarefas de produção textual escrita presentes na coleção Se liga nas linguagens, adotada no Ensino Médio brasileiro, sendo, inclusive, utilizada pelas escolas do município de Caraúbas, Rio Grande do Norte. A investigação articula quatro tradições teóricas da escrita (cognitiva, linguístico-textual, sociossemiótica e sociocultural) que servem de base para a categorização das atividades. O estudo utiliza uma abordagem metodológica mista: qualitativamente, emprega-se a análise de conteúdo para identificar e descrever os critérios associados a cada perspectiva teórica; quantitativamente, aplicam-se o teste Qui-quadrado e a Análise de Correspondência Múltipla (ACM) para examinar padrões de ocorrência e coocorrência entre os critérios. Os resultados evidenciam que as tarefas não mobilizam critérios de modo aleatório, mas seguem configurações sistemáticas e estatisticamente significativas. Observa-se predominância das perspectivas linguístico-textual e cognitiva, enquanto as dimensões sociossemiótica e sociocultural aparecem de maneira menos frequente, mas formam agrupamentos conceitualmente coerentes. A discussão aponta como essas regularidades teóricas estruturam o ensino de escrita no material analisado e sugere implicações para práticas pedagógicas e para a avaliação de livros didáticos. Além disso, essa composição aponta para o fato de que os conhecimentos que a linguística tem construído ao longo do tempo estão se acumulando, não sendo substituídos a cada novidade.
No contexto da Psicolinguística Aplicada à Educação (Maia, 2018), este artigo investiga os impactos do uso do Instagram no desenvolvimento da produção oral de bilíngues português-espanhol, com ênfase na Proficiência Oral Global (POG), bem como as percepções desses aprendizes sobre essa experiência educacional mediada por uma tecnologia digital. O foco da pesquisa está em compreender como o uso pedagógico dessa rede social pode potencializar as habilidades orais em uma segunda língua (L2), considerando o protagonismo dos aprendizes e a integração de ferramentas digitais à prática docente, especialmente do Instagram. Para fundamentar teoricamente a proposta, foram adotadas a Teoria da Aprendizagem Significativa (TAS) (Ausubel, 2003) e a Abordagem Baseada em Tarefas (Willis, 1996), que sustentam a importância de envolver os estudantes em atividades contextualizadas, motivadoras e centradas no sentido atribuído aos conteúdos. O estudo foi realizado com 42 participantes do Instituto Federal do Rio Grande do Norte — Campus Natal Centro Histórico, organizados em dois grupos: o grupo experimental (GE), que utilizou o Instagram nas tarefas realizadas em sala de aula, e o grupo controle ativo (GCA), que realizou tarefas com a mesma temática do GE, mas sem o uso da rede social. A pesquisa adotou uma abordagem metodológica quanti-qualitativa (Dörnyei, 2007), aplicando pré e pós-testes para avaliar o desempenho na produção oral dos participantes e, especificamente no GE, explorando suas percepções por meio da análise de nuvens de palavras geradas a partir de suas respostas. Os resultados indicam uma melhoria estatisticamente significativa na POG dos participantes do GE em relação aos do GCA após a intervenção com o Instagram. Além disso, as percepções dos aprendizes que utilizaram a plataforma foram predominantemente positivas. Com base nisso, ressalta-se a relevância do Instagram como uma ferramenta eficaz para promover uma prática pedagógica significativa e alinhada às necessidades e aos interesses dos estudantes contemporâneos.
As transformações que se formam significativamente pelas tecnologias têm afetado nossas práticas sociais porque envolvem, em primeiro lugar, as linguagens e a maneira como produzimos textos e discursos. No contexto escolar, é necessário romper com a separação artificial entre o texto e a tela. Em vez de tratar o meio digital como um simples suporte passivo, as aulas de linguagens devem englobar práticas que entendam os algoritmos, as interfaces e os hipertextos como parceiros ativos na construção de sentido (Paveau, 2021). Essas mudanças se refletem também na sala de aula à medida que lidamos com o texto produzido ou mediado por tecnologias digitais, como ferramentas de Inteligência Artificial. O objetivo do artigo é refletir sobre os benefícios e os limites do uso de ferramentas de inteligência artificial generativa, como o ChatGPT, na aula de Língua Portuguesa. A pesquisa é teórica e aplicada, assim, serão abordadas as competências digitais e sua relação com o letramento digital, será vista a definição de inteligência artificial e suas aplicações e, a partir disso, serão feitas as reflexões sobre a inteligência artificial na aula de Língua Portuguesa. Se tomarmos como recomendação que é atribuição dos professores saber como as tecnologias podem apoiar o aprendizado e desenvolver, com autonomia, os estudantes, para que conheçam e saibam aproveitar benefícios e oportunidades trazidos por essas tecnologias, podemos considerar também importante que os próprios professores saibam aproveitar essas ferramentas no seu planejamento. Inicialmente, são abordadas as competências digitais exigidas de professores e estudantes, destacando-se a multiplicidade dos letramentos digitais. Em seguida, discute-se o conceito de IA, suas aplicações e limitações, ressaltando os desafios da integração dessas tecnologias à educação. A análise abrange considerações sobre o uso do ChatGPT na elaboração de um jogo de investigação textual voltado ao ensino fundamental, discutindo sobre o potencial da IA como ferramenta de apoio ao letramento crítico e à colaboração entre estudantes. As conclusões evidenciam a necessidade de formação docente contínua, uso ético das tecnologias e reconhecimento da IA como aliada (e não substituta) das interações humanas no processo educacional. Com a aproximação entre as competências digitais docentes e o letramento digital, torna-se evidente que a atuação do professor exige mais do que o domínio técnico das tecnologias: requer uma compreensão crítica de seus usos pedagógicos e sociais.
O Projeto de Gramática do Português Falado (PGPF) foi uma iniciativa, liderada pelo Prof. Dr. Ataliba Teixeira de Castilho, que se propunha a descrever o português culto falado no Brasil a partir de uma perspectiva própria, com base nos dados do Projeto NURC/Brasil (Norma Urbana Culta). Essa perspectiva reconhece o funcionamento gramatical das línguas como um sistema composto por três subsistemas (fonológico, morfossintático e textual). No bojo do PGPF nasce a Perspectiva Textual-Interativa (PTI), uma abordagem proposta para fundamentar a descrição do subsistema textual em função da inexistência de uma teoria explicativa das regularidades desse subsistema. Nas formulações teóricas do PGPF e da PTI, se opera um movimento de distinção do termo “texto”. Nosso objetivo, neste artigo, é recuperar, histórica e epistemologicamente, essas distinções. Do ponto de vista metodológico, realizamos um estudo bibliográfico com base em apresentações/introduções dos trabalhos produzidos pelo PGPF, em um trabalho sobre o percurso de formação do PGPF e em estudos específicos que fundamentam a PTI. Uma das distinções associa texto ao lugar onde as regularidades do funcionamento da língua são percebidas, ou seja, texto é uma noção equivalente a atividade linguística propriamente dita e que corresponde à instância de observação dos fenômenos linguísticos. Outra distinção é feita para dar ao texto o estatuto de objeto de análise, como subsistema gramatical. Igualmente, a terceira distinção é feita para dar ao texto o estatuto de objeto de análise, mas, nesse caso, como unidade sociocomunicativa globalizadora. Mesmo de forma implícita e não sistemática, essas distinções sugerem a construção de diferentes construtos explicativos a partir da observação da diversidade de fenômenos que compõem a linguagem, assim como a tentativa de articular a diversidade teórica e de temas para cumprir o objetivo de construir um quadro teórico minimamente homogêneo. Essa característica do PGPF revela, portanto, sua herança para os estudos do texto, assim como a existência de perspectivas de desenvolvimento que apontam para a retomada dessas proposições como um empreendimento para a área, de forma especial, no Brasil.
In this interview, obtained through email exchange in 2026, Xiangdong Li (Xi’an International Studies University) discusses core themes within Interpreting Studies. Drawing on his extensive teaching and research background, the expert analyzes interpreters’ cognitive processing, modes of interpreting, and pedagogical challenges, while evaluating the impact of various methodologies on both instruction and research.
Este artigo propõe uma reflexão sobre os modos de constituição da subjetividade e da intersubjetividade linguística em indivíduos com Transtorno do Espectro Autista (TEA), a partir da teoria da enunciação de Émile Benveniste. Partimos do pressuposto de que a linguagem não é apenas um instrumento de comunicação, mas o próprio espaço onde o sujeito se constitui enquanto tal. Nesse sentido, investigamos como pessoas com TEA, apesar das limitações comunicativas e sociais frequentemente associadas ao transtorno, podem se propor como locutores e sujeitos de seus próprios dizeres. Para isso, discutimos conceitos fundamentais da teoria benvenistiana, como a categoria de pessoa (eu/tu/ele) e a temporalidade do discurso, articulando-os às especificidades linguísticas do TEA, conforme descritas no DSM-V. Dessa maneira, percorremos os estudos diagnósticos do TEA e a teoria enunciativa de Benveniste para, ao fim do trabalho, estabelecermos reflexões sobre como o conceito de (inter)subjetividade, em Benveniste, pode ser uma possibilidade de discussão de questões envolvidas no tema da inclusão linguística. Metodologicamente, o estudo se caracteriza como um ensaio teórico-analítico de natureza qualitativa, fundamentado em pesquisa bibliográfica e na mobilização de dados de caráter ilustrativo, provenientes da série Atypical e da participação de Ju Barbosa no reality Corrida das Blogueiras. A partir dessa análise, defendemos que a inclusão linguística exige um olhar sensível do interlocutor, capaz de reconhecer a presença do sujeito mesmo em formas não convencionais de linguagem. Assim, a linguagem é entendida como meio de afirmação da identidade e do pertencimento social, sendo a enunciação um espaço potente de inclusão.
Este artigo tem como objetivo examinar as relações de saber-poder que atravessam a matéria jornalística intitulada “Desfile cívico com crianças no sul do Tocantins tem ato considerado racista e órgão pede apuração”, publicada em 18 de novembro de 2024 no portal Gazeta do Cerrado. Para tal empreitada analítica, mobiliza-se o consagrado método arqueogenealógico da Análise do Discurso de filiação foucaultiana, por meio de alguns de seus principais operadores conceituais: formação discursiva, enunciado, dispositivo e episteme. O estudo desenvolve uma análise arqueogenealógica da materialidade enunciativa da notícia, identificando redes discursivas e seus efeitos de saber-poder no interior do dispositivo midiático. A partir desse itinerário metodológico, torna-se possível evidenciar a espessura e os efeitos de um poder disciplinar ancorado em um saber normativo que sustenta determinadas práticas pedagógicas naturalizadas no ensino formal. Tais práticas, quando interpeladas por discursos conservadores, tendem a ser reguladas sob a vigilância combinada dos dispositivos jurídico e midiático. Um dos principais resultados da análise consiste na descrição minuciosa do enunciado e de suas condições de produção, revelando como a matéria em questão se constitui como um conjunto de sentidos politicamente orientados por uma formação discursiva progressista, a qual estrutura o dispositivo midiático da Gazeta do Cerrado. Esse arranjo discursivo permitiu a apreensão de uma episteme intervencionista, marcada por uma racionalidade que busca reposicionar a escola e seus sujeitos diante de práticas simbólicas e estruturais de exclusão racial, mediante a visibilização de desigualdades e a proposição de formas institucionais de responsabilização.
Este estudo se insere no campo da Onomástica, área que se ocupa dos nomes próprios em geral, e, como recorte específico, investiga um conjunto de topônimos – nomes próprios de lugar urbanos. Pesquisas realizadas anteriormente, como as de Mori (2007), Tavares (2017) e Isquerdo (2023), têm mostrado que a toponímia urbana é um espaço de homenagens, especialmente a pessoas. Neste trabalho, entretanto, o objetivo geral foi realizar um exame de topônimos urbanos de Caarapó (MS) que têm outras motivações, isto é, aqueles que não se incluem nas categorias (Dick, 1990a) constituídas por nomes e/ou sobrenomes de pessoas. Os dados foram coletados de um mapa municipal fornecido pela prefeitura e o corpus ficou constituído de 72 nomes de ruas, travessas e avenidas; em seguida, os dados foram organizados em quadros seguidos da análise. Como o foco do estudo foi a motivação, dentre os resultados, destaca-se que as categorias motivacionais mais recorrentes são os fitotopônimos (19), os corotopônimos (17) e os zootopônimos (11), sendo exemplificadas, respectivamente, por Travessa das Flores e Rua dos Ipês, Rua Nazaré e Rua Paraná, Ruas das Araras e Rua dos Tucanos. A análise aponta, ainda, que apesar da categoria que inclui os nomes religiosos (hierotopônimos) não estar entre as mais recorrentes, a referência a esse aspecto cultural pode ser notada em vários topônimos como, por exemplo, nos que foram considerados corotopônimos, entre os quais estão vários nomes de cidade que aparecem na Bíblia. Constatou-se, ainda que, apesar da presença histórica e contemporânea de comunidades indígenas no município, observa-se um apagamento de aspectos da cultura dessa população na toponímia urbana. Tal ausência pode ser entendida como resultado das decisões dos gestores responsáveis pela nomeação dos espaços públicos.
A propagação de discursos de intolerância religiosa nas redes sociais tem se intensificado, tendo as práticas de matriz afro-brasileira como principais alvos de discriminação e violência, perpetuadas por relações de poder hegemônico intrinsecamente vinculadas ao racismo estrutural e à colonialidade (Almeida, 2019; Nogueira, 2020). Este artigo analisa o discurso de uma influenciadora digital que associou as enchentes ocorridas no estado do Rio Grande do Sul, em abril de 2024, à presença de terreiros de religiões afro-brasileiras na região. A análise fundamenta-se no modelo tridimensional de Análise Crítica do Discurso (ACD) de Fairclough (1995; 2001; 2015), o qual possibilita examinar, por meio das categorias texto, prática discursiva e prática social, como o discurso foi produzido, circulado e consumido nas redes sociais, bem como seus efeitos sociais em um contexto mais amplo. A dimensão textual evidencia o uso de vocabulário carregado de conotações religiosas e pejorativas, com repetições e perguntas retóricas que reforçam a autoridade moral e a narrativa de punição divina. A prática discursiva mostra que o discurso foi estrategicamente produzido e disseminado no Instagram, alcançando um público amplo e consolidando a influenciadora como figura de autoridade religiosa, cuja fala legitima preconceitos e reforça estigmas contra as religiões afro-brasileiras. Por sua vez, a análise da prática social revela a articulação desse discurso com estruturas hegemônicas de dominação religiosa e colonialidade, naturalizando a marginalização e a demonização dessas práticas e de seus seguidores. Os resultados indicam que a linguagem funciona como instrumento de poder, capaz de perpetuar o racismo religioso, reforçar ideologias excludentes e gerar violência simbólica e física contra grupos minoritários. Ao mesmo tempo, aponta-se que a linguagem pode atuar como ferramenta de resistência e transformação, possibilitando a contracolonização e a (re)existência das práticas religiosas afro-brasileiras. Dessa forma, este estudo contribui para a compreensão das interseções entre discurso, poder e colonialidade nas redes sociais, ressaltando a importância de enfrentar e desconstruir narrativas que legitimam o racismo religioso e a marginalização cultural.
Propomos, neste artigo, uma comparação entre as distintas “imagens de si” transmitidas por violinistas solistas em performances de um mesmo concerto, com apoio, principalmente, das teorias do ethos, da cenografia e do gesto musical. Consideramos a ideia de performance musical como a entendida por Daniel Kohut (1992) e Simon Frith (1998); a teoria do ethos e da cenografia, como entendidas principalmente por Dominique Maingueneau (2008, 2018, 2020) e Patrick Charaudeau (2008, 2020); e a ideia de gesto musical, como entendida por Bruno Madeira (2017). Analisamos as apresentações do Concerto para Violino e Orquestra em Mi Menor de Felix Mendelssohn com as interpretações, como solistas, de Joshua Bell (1967 - ), Julia Fischer (1983 - ), Isaac Stern (1920 – 2001) e Leonidas Kavakos (1967 - ). Concluímos que as variações de imagens podem ser causadas tanto por causas históricas, sociais e de contextos específicos, como pela própria personalidade que a/o violinista ou a mídia a ele ou a ela ligada busca imprimir como uma característica própria. Percebemos também como uma das prováveis causas, a busca por tornar a música de concerto menos formal e mais acessível ao público, alterando estereótipos comumente associados a esse gênero, principalmente entre os violinistas mais jovens. Aspectos como a entrada e saída de palco, os gestos musicais em trechos selecionados da obra e os ethe prévios transmitidos pelos solistas serão analisados. Dessa maneira, analisamos não somente a performance dos músicos, como também matérias de jornais e os sites dos próprios artistas, quando disponíveis. Percebemos como algumas imagens de si transmitidas: simpatia, informalidade, formalidade, gratidão (para com o público e/ou para com a orquestra), “tradicionalismo”, sobriedade, contenção, sensibilidade e empatia. Esperamos contribuir tanto para a área da Análise do Discurso quanto para a área de Performance Musical e, principalmente, como a Análise do Discurso pode contribuir para o entendimento e para a construção de Performance Musical.
Este artigo investiga as palavras diacríticas e semidiacríticas do português contemporâneo (brasileiro e europeu), com foco em sua ocorrência em locuções adverbiais e adjetivas (à beça, à tona, de araque, à toa, com afinco, de soslaio, de araque, à paisana, do balacobaco, etc.). Essas palavras, caracterizadas por forte restrição fraseológica e por uma assemanticidade relativa, foram pouco investigadas nos estudos fraseológicos portugueses, embora sejam amplamente estudadas em outras tradições românicas. Partindo do referencial teórico da Fraseologia espanhola, o objetivo do trabalho é identificar de forma sistemática as lexias que funcionam como núcleos de locuções a partir de uma abordagem empírica e baseada em corpus. Para isso, foi compilado o Corpus do Português Sincrônico (CorPS), com cerca de 475 milhões de palavras provenientes de textos literários, jornalísticos, técnico-científicos e cotidianos escritos no século XXI. Utilizou-se um Índice de Restrição Fraseológica (IRF), calculado automaticamente por meio de um script em Python e revisado por um crivo manual. O IRF determina a proporção de ocorrências de cada palavra antecedidas por preposição em relação ao total de ocorrências no corpus. Foram consideradas diacríticas as palavras com IRF de 100% e semidiacríticas aquelas com IRF igual ou superior a 80%, desde que registradas em dicionários gerais da língua e presentes em mais de uma formação discursiva. Foram identificadas 28 palavras diacríticas e 109 semidiacríticas, confirmando que a restrição fraseológica total é rara e que há um continuum de fossilização lexical no português contemporâneo. A pesquisa evidencia o potencial das ferramentas da Linguística de Corpus para delimitar empiricamente fenômenos tradicionalmente descritos de modo intuitivo, demonstrando que a integração entre critérios estatísticos e lexicográficos permite propor um modelo replicável para o estudo da fixação lexical. Conclui-se que as palavras diacríticas, embora representem um fenômeno marginal na fraseologia portuguesa, desempenham papel relevante na compreensão dos processos de cristalização e mudança do léxico.
A semiótica discursiva, de linha francesa, tem se mostrado uma teoria produtiva em contextos formativos da graduação e da pós-graduação, contribuindo para o desenvolvimento intelectual dos estudantes e propiciando análises mais aprofundadas de diferentes textos. No campo de estudos da semiótica didática na educação básica, identificamos pesquisas brasileiras com propostas de ensino desenvolvidas no Mestrado Profissional em Letras (PROFLETRAS). Com o objetivo de compreender como a semiótica discursiva tem sido empregada nesse contexto, selecionamos seis dissertações de duas universidades federais, defendidas de 2016 a 2021, como corpus para um estudo qualitativo. Nossa pesquisa – fundamentada em estudos sobre aproximações entre semiótica e educação – investigou os seguintes aspectos: referências; objetivos; contribuições da semiótica; percurso metodológico e semiótica na proposta didática. Com a análise, observamos que os estudos apresentados nas dissertações investigadas se caracterizam por aplicar vários conceitos da semiótica nas propostas de ensino, e algumas também se apoiam em referências sobre leitura, texto e gênero. Entre os resultados apresentados, damos destaque ao da aplicação da semiótica na proposta didática, que foi organizada na seguinte tipologia: 1) apagamento de conceitos; 2) diluição dos conceitos em abordagens interpretativas; 3) “tradução” dos conceitos e 4) aplicação fiel dos conceitos semióticos. Essas modalidades da semiótica na proposta didática oscilaram entre formas mais ou menos explícitas da metalinguagem, com tendência para a última. Concluímos que, ao lado das vantagens dos estudos aplicados, há desafios no que diz respeito à transposição da semiótica em relação ao perfil dos estudantes, já que a teoria não foi proposta originalmente para o contexto da sala de aula da educação básica. Além disso, as pesquisas ainda não trazem dados substanciais sobre facilidades ou dificuldades dos alunos em compreender os conceitos e desenvolver as competências de leitura e escrita almejadas nas propostas didáticas, por não terem algumas dessas propostas sido aplicadas em sala de aula.
O discurso midiático exerce papel central na construção e manutenção de representações sociais que, sob a aparência de neutralidade, reproduzem assimetrias históricas. Este estudo tem como objetivo analisar, à luz do letramento crítico, como manchetes e leads de textos jornalísticos constroem representações opostas sobre práticas de colecionismo. Para isso, foram analisadas seis notícias de grande circulação nacional: três sobre mulheres que possuem bebês reborn e três sobre homens que colecionam carrinhos. A pesquisa adota uma abordagem qualitativa, fundamentada nos princípios do letramento crítico (Arruda, 2023), em especial, o da presença de verdade, articulados ao quadro de operações inferenciais de Marcuschi (2008) e aos aportes teóricos de Bourdieu (1989), Fairclough (2001), Amossy (2020), Cavalcante et al. (2020) e hooks (2018, 2020). Os resultados indicam que, por meio de escolhas lexicais e estruturais, o discurso jornalístico naturaliza a patologização e a desqualificação das práticas femininas, ao passo que legitima as práticas masculinas como racionais, técnicas e bem-sucedidas. Concluímos que tais mecanismos discursivos reforçam hierarquias de gênero e evidenciam a importância de uma leitura crítica capaz de desnaturalizar esses sentidos e transgredir para práticas discursivas mais equitativas e transformadoras.
A Base Nacional Comum Curricular considera que os educandos da educação básica devem aprender a utilizar a linguagem escrita como forma de interação, nos diferentes campos de atuação da vida em sociedade, estimulando o protagonismo e a participação na cultura letrada de forma autônoma. Sem o aporte de uma formação continuada para o professor, o livro didático se investe do papel de bússola da prática em sala. Para satisfazer a essa demanda, contribuem orientações de livro didáticos de Língua Portuguesa indicados a professores e alunos, razão por que é necessário questionar que perspectivas teóricas fundamentam o ensino da escrita nesses materiais didáticos. Para tanto, este artigo analisa as perspectivas teóricas mobilizadas pelas tarefas de produção textual escrita presentes na coleção Se liga nas linguagens, adotada no Ensino Médio brasileiro, sendo, inclusive, utilizada pelas escolas do município de Caraúbas, Rio Grande do Norte. A investigação articula quatro tradições teóricas da escrita (cognitiva, linguístico-textual, sociossemiótica e sociocultural) que servem de base para a categorização das atividades. O estudo utiliza uma abordagem metodológica mista: qualitativamente, emprega-se a análise de conteúdo para identificar e descrever os critérios associados a cada perspectiva teórica; quantitativamente, aplicam-se o teste Qui-quadrado e a Análise de Correspondência Múltipla (ACM) para examinar padrões de ocorrência e coocorrência entre os critérios. Os resultados evidenciam que as tarefas não mobilizam critérios de modo aleatório, mas seguem configurações sistemáticas e estatisticamente significativas. Observa-se predominância das perspectivas linguístico-textual e cognitiva, enquanto as dimensões sociossemiótica e sociocultural aparecem de maneira menos frequente, mas formam agrupamentos conceitualmente coerentes. A discussão aponta como essas regularidades teóricas estruturam o ensino de escrita no material analisado e sugere implicações para práticas pedagógicas e para a avaliação de livros didáticos. Além disso, essa composição aponta para o fato de que os conhecimentos que a linguística tem construído ao longo do tempo estão se acumulando, não sendo substituídos a cada novidade.
Este artigo tem como objetivo examinar as relações de saber-poder que atravessam a matéria jornalística intitulada “Desfile cívico com crianças no sul do Tocantins tem ato considerado racista e órgão pede apuração”, publicada em 18 de novembro de 2024 no portal Gazeta do Cerrado. Para tal empreitada analítica, mobiliza-se o consagrado método arqueogenealógico da Análise do Discurso de filiação foucaultiana, por meio de alguns de seus principais operadores conceituais: formação discursiva, enunciado, dispositivo e episteme. O estudo desenvolve uma análise arqueogenealógica da materialidade enunciativa da notícia, identificando redes discursivas e seus efeitos de saber-poder no interior do dispositivo midiático. A partir desse itinerário metodológico, torna-se possível evidenciar a espessura e os efeitos de um poder disciplinar ancorado em um saber normativo que sustenta determinadas práticas pedagógicas naturalizadas no ensino formal. Tais práticas, quando interpeladas por discursos conservadores, tendem a ser reguladas sob a vigilância combinada dos dispositivos jurídico e midiático. Um dos principais resultados da análise consiste na descrição minuciosa do enunciado e de suas condições de produção, revelando como a matéria em questão se constitui como um conjunto de sentidos politicamente orientados por uma formação discursiva progressista, a qual estrutura o dispositivo midiático da Gazeta do Cerrado. Esse arranjo discursivo permitiu a apreensão de uma episteme intervencionista, marcada por uma racionalidade que busca reposicionar a escola e seus sujeitos diante de práticas simbólicas e estruturais de exclusão racial, mediante a visibilização de desigualdades e a proposição de formas institucionais de responsabilização.
O discurso midiático exerce papel central na construção e manutenção de representações sociais que, sob a aparência de neutralidade, reproduzem assimetrias históricas. Este estudo tem como objetivo analisar, à luz do letramento crítico, como manchetes e leads de textos jornalísticos constroem representações opostas sobre práticas de colecionismo. Para isso, foram analisadas seis notícias de grande circulação nacional: três sobre mulheres que possuem bebês reborn e três sobre homens que colecionam carrinhos. A pesquisa adota uma abordagem qualitativa, fundamentada nos princípios do letramento crítico (Arruda, 2023), em especial, o da presença de verdade, articulados ao quadro de operações inferenciais de Marcuschi (2008) e aos aportes teóricos de Bourdieu (1989), Fairclough (2001), Amossy (2020), Cavalcante et al. (2020) e hooks (2018, 2020). Os resultados indicam que, por meio de escolhas lexicais e estruturais, o discurso jornalístico naturaliza a patologização e a desqualificação das práticas femininas, ao passo que legitima as práticas masculinas como racionais, técnicas e bem-sucedidas. Concluímos que tais mecanismos discursivos reforçam hierarquias de gênero e evidenciam a importância de uma leitura crítica capaz de desnaturalizar esses sentidos e transgredir para práticas discursivas mais equitativas e transformadoras.
Este artigo propõe uma reflexão sobre os modos de constituição da subjetividade e da intersubjetividade linguística em indivíduos com Transtorno do Espectro Autista (TEA), a partir da teoria da enunciação de Émile Benveniste. Partimos do pressuposto de que a linguagem não é apenas um instrumento de comunicação, mas o próprio espaço onde o sujeito se constitui enquanto tal. Nesse sentido, investigamos como pessoas com TEA, apesar das limitações comunicativas e sociais frequentemente associadas ao transtorno, podem se propor como locutores e sujeitos de seus próprios dizeres. Para isso, discutimos conceitos fundamentais da teoria benvenistiana, como a categoria de pessoa (eu/tu/ele) e a temporalidade do discurso, articulando-os às especificidades linguísticas do TEA, conforme descritas no DSM-V. Dessa maneira, percorremos os estudos diagnósticos do TEA e a teoria enunciativa de Benveniste para, ao fim do trabalho, estabelecermos reflexões sobre como o conceito de (inter)subjetividade, em Benveniste, pode ser uma possibilidade de discussão de questões envolvidas no tema da inclusão linguística. Metodologicamente, o estudo se caracteriza como um ensaio teórico-analítico de natureza qualitativa, fundamentado em pesquisa bibliográfica e na mobilização de dados de caráter ilustrativo, provenientes da série Atypical e da participação de Ju Barbosa no reality Corrida das Blogueiras. A partir dessa análise, defendemos que a inclusão linguística exige um olhar sensível do interlocutor, capaz de reconhecer a presença do sujeito mesmo em formas não convencionais de linguagem. Assim, a linguagem é entendida como meio de afirmação da identidade e do pertencimento social, sendo a enunciação um espaço potente de inclusão.
In the field of Portuguese historical morphology, works that focus on prefixal formatives is scarce, with those specific to suffixation being much more numerous. The study here synthesised, following those already conducted on prefixation in Old Portuguese (Lopes, 2021a, 2018, 2013), focuses on this morpholexical process in Colonial Brazilian Portuguese (Cardoso, Andrade; Carneiro, 2023), covering a period spanning from the 16th century to the first two decades of the 19th century. The investigation is part of a larger collective project, focused on the historical constitution of Colonial Brazilian Portuguese (PBC), being developed by the team of one of the most prominent research groups in Historical Linguistics within the Lusophone world, the Programa para a História da Língua Portuguesa (PROHPOR). We will discuss, as our focus in this article, the prefixal formations generated in the 16th and 17th centuries. Having as an empirical basis an initial and representative sample of data, extracted from fourteen philologically edited manuscripts from the period, and relying on the principles of descriptive morphology (Rio-Torto et al., 2016; Real Academia Española; Asociación de Academias de la Lengua Española, 2009; Mattos e Silva, 2008; Bosque; Demonte, 1999) and historical morphology (Rio-Torto, 1998; Viaro, 2009, 2010, 2014; Martín García; Varela, 2012; Lopes, 2021b), our goal is to offer a description of how prefixation functioned in the generation of words in the Portuguese language of the two centuries considered, and to outline a semantic-morpholexical-functional characterization of this lexicogenic mechanism, its formatives, and the resulting lexical units.
Este estudo se insere no campo da Onomástica, área que se ocupa dos nomes próprios em geral, e, como recorte específico, investiga um conjunto de topônimos – nomes próprios de lugar urbanos. Pesquisas realizadas anteriormente, como as de Mori (2007), Tavares (2017) e Isquerdo (2023), têm mostrado que a toponímia urbana é um espaço de homenagens, especialmente a pessoas. Neste trabalho, entretanto, o objetivo geral foi realizar um exame de topônimos urbanos de Caarapó (MS) que têm outras motivações, isto é, aqueles que não se incluem nas categorias (Dick, 1990a) constituídas por nomes e/ou sobrenomes de pessoas. Os dados foram coletados de um mapa municipal fornecido pela prefeitura e o corpus ficou constituído de 72 nomes de ruas, travessas e avenidas; em seguida, os dados foram organizados em quadros seguidos da análise. Como o foco do estudo foi a motivação, dentre os resultados, destaca-se que as categorias motivacionais mais recorrentes são os fitotopônimos (19), os corotopônimos (17) e os zootopônimos (11), sendo exemplificadas, respectivamente, por Travessa das Flores e Rua dos Ipês, Rua Nazaré e Rua Paraná, Ruas das Araras e Rua dos Tucanos. A análise aponta, ainda, que apesar da categoria que inclui os nomes religiosos (hierotopônimos) não estar entre as mais recorrentes, a referência a esse aspecto cultural pode ser notada em vários topônimos como, por exemplo, nos que foram considerados corotopônimos, entre os quais estão vários nomes de cidade que aparecem na Bíblia. Constatou-se, ainda que, apesar da presença histórica e contemporânea de comunidades indígenas no município, observa-se um apagamento de aspectos da cultura dessa população na toponímia urbana. Tal ausência pode ser entendida como resultado das decisões dos gestores responsáveis pela nomeação dos espaços públicos.
Neste trabalho, discute-se o uso do verbo anafórico fazer, usado isoladamente ou em combinação com o clítico demonstrativo o, formando uma locução anafórica complexa (possivelmente descontínua) fazer+o, em dois tipos de construções sintáticas, que apresentam propriedades gramaticais particulares, parcialmente comuns entre si: estruturas conformativas introduzidas pelo conector como, ou variantes suas como tal como (e.g. o Governo aumentou os impostos este ano, (tal) como já (o) tinha feito o ano passado), e orações comparativas (a indústria siderúrgica polui menos atualmente do que (o) fazia no passado; o Presidente da República promulgou mais leis este ano do que (o) fez o ano passado). É analisada a variação na forma da expressão anafórica, fazer vs. fazer+o (mas não e.g. fazer+isso, com pronome demonstrativo não clítico), que é específica destas duas construções de subordinação. São discutidos, de forma pormenorizada, os requisitos gramaticais que operam na formação de cadeias referenciais com o verbo fazer, nestas construções. Por um lado, observa-se que os mecanismos de formação de cadeias referenciais com o verbo anafórico fazer são frequentemente bastante complexos, envolvendo processos de “reconstrução do antecedente” a partir do material realizado linguisticamente nas estruturas matriz. Por outro lado, verifica-se que as cadeias anafóricas com fazer, que se associam tipicamente a um valor acional, expresso por um verbo acional na forma ativa no antecedente, surgem com alguma frequência associadas a valores e/ou formas distintos, porventura de aceitação não consensual entre falantes. Com efeito, as estruturas conformativas e as orações comparativas com o verbo anafórico fazer constituem uma área crítica da língua, sujeita a intensa variação, documentando-se com alguma frequência, no registo escrito, construções de em que os requisitos morfossintáticos e semânticos prototípicos não são observados (e.g. por uso de um verbo acional na forma passiva participial, ou por ausência de verbo acional no antecedente). São apresentados dados de corpora de texto jornalístico, predominantemente português, e bem assim de texto literário, para ilustrar e corroborar as análises.