
O centro de São Paulo é palco de disputas públicas de memória, narrativa e futuro. O presente trabalho compreende os diferentes ciclos de povoamento, esvaziamento e repovoamento da região como efeitos de longa duração de paradigmas ideológicos e de sociabilidade urbana em conflito, produzidos e vetorizados pela comunicação ao longo de diferentes eras. A partir de uma revisão teórica, articula-se a matriz europeia da modernidade, associada à valorização do urbano e da vida pública, ao deslocamento promovido pelo paradigma norte-americano do American Way of Life, marcado pelo automóvel, pelo consumo de eletrodomésticos e pela desejabilidade dos subúrbios. Por fim, sob a racionalidade neoliberal, argumenta-se que a privatização da sociabilidade, a centralidade do consumo e a cultura do medo intensificam a recusa dos bens coletivos, legitimando espacialidades seletivas e muradas. O trabalho conclui adicionalmente que o centro foi progressivamente abandonado pelas elites como endosso a distintos paradigmas simbólicos do urbano e que, no mesmo sentido, as agendas contemporâneas de repovoamento tendem a convocar e convidar a mesma parcela dominante que historicamente se afastou da região.
Nas eleições de 2024, alguns windbanners de campanha de uma vereadora de Porto Alegre/RS foram vandalizados. Um grupo de mulheres reuniu-se em uma praça central da cidade, resgatou uma peça, costurou e recolocou em seu suporte. O presente artigo apresenta uma análise de um vídeo que retrata essa ação coletiva. Concomitantemente, discute a destruição e a reparação no campo da política e aborda o remendo como ponto de captura do olhar do passante.
Este artigo analisa duas obras publicadas por redes transnacionais (RedTraSex e Red Umbrella Fund) e explicita como essas publicações produzem efeitos de sentido a partir da Análise de Discurso materialista. Em ambos os livros há a emergência de lugares de enunciação de trabalhadoras sexuais organizadas em movimentos putafeministas, rompendo com séculos de silenciamento. Por meio da noção de porta-voz, se marca a construção de uma memória coletiva e a disputa por legitimidade no espaço público da cidade. As obras funcionam como gestos de resistência e, cada uma a seu modo, expandem as representações associáveis aos trabalhos sexuais e promovem a autodesignação, transformando as trabalhadoras sexuais de objetos dos discursos dos outros a sujeitos de seus discursos.
Investindo em uma leitura-trituração (Pêcheux, 2016) da obra da cartunista Laerte, este artigo compreende a análise discursiva de três tirinhas que, apesar de não terem sido compostas originalmente como uma narrativa interligada, são concebidas aqui como uma trilogia urbana acidental. À luz da noção de narratividade urbana (Orlandi, 2004), entende-se, neste recorte discursivo (Orlandi, 1984), que as tirinhas textualizam, enquanto objetos simbólicos, o processo de inscrição do sujeito em uma discursividade urbana regida por “leituras de exclusão” (Zoppi-Fontana, 1999). Neste gesto de interpretação, as tirinhas funcionam como “flagrantes”, em analogia aos flagrantes urbanos (Orlandi, 2004), sítios de significação que fazem emergir, enfim, uma cidade.
Este artigo analisa dizeres sobre o filme Barbie (2023), para compreender os deslocamentos de sentidos que atravessam esses enunciados, bem como as diferentes posições-sujeito neles inscritas. A análise está ancorada na Análise de Discurso materialista e podemos dizer que os sentidos produzidos ressoam dizeres em circulação no imaginário social e em diferentes esferas do espaço urbano ligados à oposição entre feminismo e patriarcado. A partir do modo como os enunciados em análise se ancoram no interdiscurso, observamos o funcionamento de formações discursivas conservadoras, que associam o feminismo à subversão da ordem e ataque à família, em confronto com formações discursivas feministas, que reafirmam a luta por direitos, equidade e resistência ao machismo estrutural.
This article analyses how J.K. Rowling's discourse aligns with a transphobic discursive formation, mobilizing Materialist Discourse Analysis (MDA). The corpus, therefore, includes five tweets by J.K. Rowling about transgenderness published between 2019 and 2020. The theoretical-analytical device employed is based on Pêcheux (1983), Orlandi (1990), Marie-Anne Paveau (2013), and Cristiane Dias (2016), in a constant interplay between discursive theory and corpus; in addition, it promotes a relationship (not without questioning) with the perspectives of Queer Theory by Butler (1988), Bagagli (2019), and Nascimento (2021). The analyses allowed us to understand how Rowling's tweets (re)produce discourses that corroborate the erasure of trans people, based on the resumption of binary and biological formulations about gender.
Nossa análise parte do aparecimento do Plano-Piloto para a poesia concreta, conceito acionado por Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari. Os artistas citados dão início à jornada de novos jogos poéticos no cenário nacional, maquinando poemas que usam de diversas linguagens e se articulam para tensionar a produção da tradicional forma lírica que se estabeleceu, por séculos, na literatura. Tomando como base o contexto da produção dos três artistas citados, vamos refletir sobre como há um diálogo entre o conceito de Plano-Piloto na literatura, na arquitetura e na política entre meados dos anos de 1950 a 1960 (com a construção de Brasília e a ambição de produzir um país futurista). O diálogo parte do pressuposto do aparecimento de novas tecnologias e da mudança de paradigmas no cenário brasileiro por parte de um processo político, artístico e arquitetônico que estava em articulação.
Este artigo objetiva compreender o modo de habitar a fronteira através da análise dos nomes de residenciais da cidade de Bagé. Para isso, discute sobre o conceito de fronteira e aborda aspectos históricos do processo de urbanização do município. Sob a perspectiva da Semântica do Acontecimento, em diálogo com autores inscritos na Análise de Discurso, toma a cidade como espaço simbólico e discursivo e analisa como as designações desses nomes em dadas cenas enunciativas produzem sentidos sobre o modo de habitar a fronteira Brasil-Uruguay. O corpus da pesquisa se constitui de sete (7) nomes de conjuntos residenciais. A análise mostrou que os nomes significam, de um lado, a história do processo de fundação do município e a influência colonial lusa e, de outro, a relação histórica com a região do Prata.
O principal objetivo do ensaio é a análise da experiência sensível no experimento audiovisual Serpent Rain e a reconfiguração ecológica do ambiente marinho a partir dos corpos lançados ao mar durante as travessias afrodiaspóricas. Entende-se que o choque de temporalidades e espacialidades insere o experimento audiovisual no campo da arte como confronto sob forma de filme-ensaio audiovisual. Do ponto de vista da estesia, conceitos tais como tempo residual, Blacklight e cinema elemental constroem pistas para a metodologia de montagem de sequências com planos de longa duração acompanhados por canções que compõem o ambiente acústico reverberante. Com isso, estimula o contato dialógico do espectador com as possibilidades de se pensar o futuro do ser humano e o devir da ontologia das gentes pretas responsáveis pela emergência de novas comunidades de pensamento.
Honra, alegria, satisfação e admiração se entrelaçam nessa nossa apresentação de um dossiê organizado para celebrar os 30 anos da revista Rua, um periódico que tem participação histórica nas políticas editoriais brasileiras que incidem em políticas científicas e institucionais. Rua abriu paisagens inovadoras ao propor um instrumento editorial em que produção de sentidos, de sujeitos e de espaços, divididos e sob relações de força desiguais, ganhassem um lugar privilegiado de análise. Desde seu primeiro lançamento, em 1995, ainda no formato de revista impressa, as disputas e os efeitos dessas disputas de língua(s), sobre língua(s), de sujeitos dessa(s) língua(s), fosse em suas práticas linguageiras, fosse em suas práticas científicas, ganharam espaço para se fazerem vistos por meio de autorias provenientes de múltiplos espaços disciplinares e teóricos que têm em comum sua posição de que simbólico, político e ideológico são indissociáveis.
Este artigo tem como objetivo refletir sobre a fronteira Brasil-Argentina sob a perspectiva teórica da Análise de Discurso. Para isso, traz ao debate a análise de um enunciado selecionado entre comentários de internautas fronteiriços na página do “Jornal da Fronteira” no Facebook, realizados durante a pandemia do coronavírus. Esse enunciado é colocado em diálogo com uma entrevista concedida pelo prefeito de Bernardo de Irigoyen ao canal de televisão Noticiasdel6, de Posadas, Argentina. A análise permite compreender que o que está (ou não) autorizado institucionalmente produz sentidos que estão em disputa entre o funcionamento da prática jurídico-administrativa (organização) e o funcionamento das práticas cotidianas e ordinárias da fronteira (ordem, o real).
En este texto investigamos los usos políticos de fórmulas discursivas y procesos de renombramiento en torno al tema de los Derechos Humanos en el Macrismo y el Bolsonarismo. Como corpus, recopilamos 8 declaraciones: 6 del grupo del expresidente argentino Mauricio Macri y 2 del expresidente brasileño, Jair Bolsonaro. La asimetría en los datos se debe a que existe una amplia producción sobre el Bolsonarismo en Brasil. Ante esto, priorizamos datos del contexto argentino. En resumen, en Argentina, si bien hay una deconstrucción de los usos del pasado por parte de antagonistas políticos, como el kirchnerismo, su negación es parcial y sin alentar la violencia física. En Brasil, no sólo no se reconoce la necesidad de perdón del Estado, sino que se glorifican sus crímenes de lesa humanidad.
Este artigo analisa as praças públicas como espaços de disputa simbólica e política, focando na Praça Antônio da Graça Machado, em Mossoró (RN). A pesquisa investiga como intervenções urbanas promovidas pela gestão pública reconfiguram os sentidos do espaço, considerando a relação entre a comunidade e o poder municipal. Com base na semiótica plástica, o estudo examina a remoção de símbolos do piso da praça, antes associados à prefeita anterior, e a introdução de uma nova estética urbana. A abordagem metodológica inclui estudo de caso e observação participante, permitindo compreender como os moradores ressignificam o espaço por meio de suas práticas cotidianas. A análise revela que a praça se torna tanto um meio de vivência quanto um instrumento de autopromoção política, configurando um discurso de valorização urbana que pode mascarar desigualdades estruturais no bairro.
O digital tem transformado a maneira como compreendemos e vivenciamos o mundo, como nos desenvolvemos enquanto sujeitos e na forma como nossas percepções têm sido cada vez mais moldadas por sistemas automatizados, que não são neutros. Sob essa perspectiva buscamos compreender como os sistemas algorítmicos textualizam sentidos, sempre inscritos em uma memória, que vão de encontro aos discursos sobre corpos racializados e gordos e sua consequente marginalização e invisibilização. Para isso, nos fundamentamos nos princípios teóricos e metodológicos da Análise do Discurso materialista e digital, especialmente os conceitos difundidos por Eni Orlandi (2001, 2002, 2008, 2010, 2017, 2020) e Cristiane Dias (2018, 2023).
O presente artigo discute formas de resistência negro-periféricas à necropolítica em Campinas, com foco nas comunidades do Campo Belo e do Mandela. A partir de duas pesquisas, aborda as escrevivências — práticas de escuta e elaboração coletiva do viver — e os revides — ações criativas que enfrentam o projeto urbano excludente da brancopia. As experiências revelam como práticas autogeridas de cuidado, moradia, convivência e memória transformam territórios marcados pela exclusão em espaços de afirmação e dignidade. Ao colocar em diálogo referências da saúde coletiva, da psicanálise e da antropologia, o texto destaca como essas comunidades constroem cotidianos que desafiam a lógica do abandono e do silenciamento.
Discriminação, estereótipo, estigma. São algumas das definições atribuídas às minorias e em particular aos negros. Não são poucos os movimentos racistas em diferentes estratos sociais. O mito da democracia racial e o racismo estrutural arraigados na sociedade brasileira e examinados pelo sociólogo Florestan Fernandes (1920 – 1995) ainda persistem, às vezes escamoteados ou escancarados; assim como os estigmas de raça, cunhados pelo antropólogo Erwing Goffman (1922-1082). Essas cicatrizes permanecem. As ações de resistência dos negros têm provocado mudanças importantes, embora ainda incipientes. Qual seria hoje a participação da mulher negra na política, sua identidade, seu discurso? Este artigo procura refletir sobre o papel da mulher negra na política brasileira, a partir da atuação de duas vereadoras da Câmara Municipal de São Paulo com ideologias distintas: Luana Alves (PSOL) e Sonaira Fernandes (PL).
Baseado na Análise de Discurso materialista e na História das Ideias Linguísticas, o artigo analisa como a Enciclopédia negra (2021) ressignifica a intelectualidade negra no Brasil, contrastando-a com obras anteriores, como o Diccionario biobiblographico brazileiro (1883-1902), que invisibilizava a negritude de sujeitos negros produtores de conhecimento. Enquanto o DBB omitia a condição negra de sujeitos expoentes ou subalternizava sujeitos negros partícipes da produção de saberes, destacando apenas intelectuais brancos e europeus (bem como seus descendentes), a Enciclopédia negra se propõe a uma recuperação e valorização de mais de 550 personalidades negras, assim supostamente combatendo o epistemicídio. Entretanto, ao comparar as biografias de dois intelectuais negros (Antenor Nascentes, cuja trajetória é narrada sem ênfase em sua negritude, e Hemetério dos Santos, cuja militância negra é central em sua representação), o artigo diagnostica que, apesar do avanço da Enciclopédia negra, ela perpetua discursos estereotipados, não destacando as barreiras estruturais do racismo.
This review proposes a reading of the book “Argumentation and Discourse Analysis – concepts and analyses”, by Eni Orlandi, published in 2023. From a materialist perspective, Orlandi presents a discursive theory of argumentation in which the articulation with ideology and the unconscious plays a central role. Thus, moving away from a classical view of argumentation – based on communication, convincing and persuasion –, in the theory undertaken in the book, the author points to an argumentative functioning that occurs in the instance of non-communication, prioritizing other forms of establishing meanings, such as metaphor and nonsense.
Este artigo tem por objetivo analisar as heterogeneidades enunciativas (Authier-Revuz, 1984, 1990, 2004) e a intertextualidade (Kristeva, 1967, 2005; Bentes, Cavalcante & Koch, 2008) nas crônicas jornalísticas da pandemia da covid-19. O corpus do trabalho são duas crônicas da jornalista Susana Bragatto, publicadas no jornal Folha de S. Paulo, em 22 e 29 de março de 2020, e examinadas à luz das teorias dialógicas e enunciativas. Em nossa investigação, mapeamos nove pontos de heterogeneidade enunciativa: aspas, estrangeirismo, glosa metaenunciativa, metáfora, alusão, discurso direto, discurso indireto, fala regional e reminiscência. No tocante à intertextualidade, predominam exemplares das modalidades temática, explícita e implícita. A cronista se utiliza desses recursos para ampliar a rede de referências junto ao leitor, facilitando o endereçamento da informação. Ademais, os enunciados das crônicas são heterogêneos, intertextuais e interdiscursivos, dado que no dito coexiste o já-dito
Por meio de excertos da antologia Pará, Capital, Belém (2000), de Haroldo Maranhão, oartigo tem como objetivo discutir questões relacionadas aos feitos e efeitos do Ciclo da Borracha (1870-1912) na cidade de Belém, ao usar a Rua dos Mercadores, a loja Paris N’América e os seringais como metáforas e alegorias, segundo Walter Benjamin (1984) e Flávio R. Kothe (1986), do referido período. No presente artigo, busca-se compreender como se mergulha nas memórias dos espaços da cidade de Belém para problematizar alguns temas da história da região amazônica. O livro Poética do Espaço (1993), de Gaston Bachelard, nos possibilitou pensar sobre os aspectos simbólicos presentes nos espaços urbanos, como ocorre na obra de Haroldo Maranhão. Dessa forma, planejou-se um estudo reflexivo acerca das memórias da cidade de Belém e de seus significados.