
Bernard Charlot (1944–2025) Entrevistado da edição 50/2025 da Revista Roteiro, Bernard Charlot despede-se deste plano, deixando como legado uma trajetória intelectual que marcou profundamente o pensamento educacional crítico. Sua obra permanece viva nas perguntas que nos ensinou a fazer e nas inquietações que nos convidou a sustentar. Defendia, com firmeza e sensibilidade, que não há aprendizagem sem sentido, nem escola possível sem o reconhecimento do estudante como sujeito de saber.
O artigo analisa a trajetória e os contextos de implementação do Programa Residência Pedagógica (PRP), suas implicações e desafios para a formação inicial de professores. Trata-se de um estudo de trajetória, no qual analisamos a política pública imersa em seus contextos, seus processos e desdobramentos, evidenciando sua dimensão histórica, suas temporalidades e as conexões com as dinâmicas de implementação. Realizamos análise documental (Marconi; Lakatos, 2018) e a meta-análise (Bicudo, 2014) a partir de três contextos definidos por Oliveira, Alves e Fichter Filho (2022) como dimensões analíticas de políticas: o contexto da conjuntura, voltado para os ciclos de governo em que o Residência foi desenhado e implementado; o contexto do conteúdo da política, quando analisamos, nos documentos, os objetivos do programa, os implementadores e os destinatários do programa; e o contexto da experiência, para investigar, nas pesquisas realizadas em diversas instituições, como as experiências dos implementadores dialogam com os objetivos do programa. A partir da análise do PRP, os dados revelam que a concepção de formação é um problema persistente para os formuladores e implementadores das políticas de formação inicial de professores. Há um descompasso entre melhorar a qualidade de formação inicial e a oscilação e inconstância das políticas; a trajetória da formação de professores é marcada por idas e vindas que não contribuem para o aperfeiçoamento das políticas. Faltam avaliações ampliadas sobre como os programas impactam a melhoria efetiva da atuação dos professores que passaram pelo Residência. Concluímos que a formação de professores é uma agenda disputada por grupos políticos conservadores e progressistas, e, a depender do governo eleito, os programas refletem distintas concepções.
Os estudos sobre a alimentação têm recebido ênfase diante de um cenário em que despontam problemas como o avanço da fome, o desequilíbrio socioambiental e as desigualdades socioeconômicas. Trata-se de questões complexas e multifacetadas que chegam ao espaço escolar, contudo, ainda de modo fragmentado e com ênfase biomédica, em especial no ensino de Ciências. Nesse ínterim, o presente artigo possui como objetivo: investigar as abordagens sobre produção de alimentos nas inter-relações entre alimentação, saúde e sustentabilidade em uma coleção didática de Ciências. O trabalho possui caráter qualitativo, sendo realizada análise documental de uma coleção didática de Ciências destinada aos anos finais do ensino fundamental adotada em escolas públicas brasileiras, a partir de aporte teórico-metodológico dos Estudos Culturais da Educação. Os resultados obtidos nos diferentes volumes culminaram nas seguintes categorias: pesca predatória e outras ameaças a organismos aquáticos; organismos geneticamente modificados; críticas à monocultura e à pecuária; agroecologia e conservação ambiental; e práticas de educação ambiental e de educação em saúde. No que concerne à análise, é realçada a pretensão de que os estudantes não permaneçam apenas na mudança de discursos, mas que incorporem atitudes, a fim de que o ensino de Ciências construído, principalmente sob a mediação docente, reverbere em transformações sociais, em um processo de formação cidadã. Desse modo, a coleção contempla o desenvolvimento de visão crítica com relação à temática e práticas fundamentadas em argumentação científica, possuindo abordagens que extrapolam os conteúdos de Ciências e podem ganhar novos contornos com a ação do currículo.
O estudo tematiza as práticas de ensino na formação inicial e tem como objetivo compreender articulações possíveis entre a formação nos cursos de licenciatura e a extensão universitária. Trata-se de um estudo narrativo, que toma a escrita das estudantes de Pedagogia de uma universidade paulista, sobre suas experiências na extensão, como material passível de interpretações. A proposição investigada se desenvolveu a partir de visitas regulares, que aconteceram ao longo do primeiro semestre de 2024, a um assentamento do Movimento Sem Terra, o MST. Ao voltar o olhar para as vivências registradas pelas estudantes, perguntamo-nos se a participação em ações de extensão pode contribuir para a formação docente, na busca por identificar que práticas se mostram coerentes com os princípios por nós defendidos. A construção do quadro teórico se orienta pelos conceitos freireanos de formação, extensão e práxis. considerando a relação entre universidade e comunidade como prática dialógica, a escolha pelo MST se mostrou coerente e potencialmente formativa para as licenciandas. Os encontros suscitavam reflexões sobre a docência e a educação. Os registros sinalizaram que uma formação docente humanizadora e emancipatória se desenvolve em diálogo com os enfrentamentos e dilemas da atualidade, coletivamente. Mostram também que a extensão as mobilizou para a defesa de pautas como a reinvindicação por políticas públicas efetivas e não excludentes de acesso à educação, e a formação político-pedagógica alicerçada no fortalecimento da classe trabalhadora.