
Segundo Winnicott, ao se examinar a etiologia da tendência antissocial deve-se levar em conta dois tipos de deprivação: um deles se dá em termos da perda da mãe e o outro é relativo à perda do pai. Nesta exposição discutirei alguns aspectos sobre a participação paterna no desencadeamento deste distúrbio, focalizando a especificidade da falha do pai e suas repercussões no amadurecimento da criança.
Este artigo pretende contribuir com o campo de estudos da memória através da aproximação entre arte e psicanálise. Visa, sobretudo, fomentar discussões relacionadas aos conceitos de memória e repetição, considerando a possibilidade de ressignificação do traumático a partir do processo criativo. O trabalho está ancorado na psicanálise freudiana e promove uma articulação entre estes conceitos teóricos e a análise da vida e da produção artística da pintora mexicana Frida Kahlo. Objetiva-se, portanto, compreender como o processo criativo pode atuar como uma via de elaboração e ressignificação de experiências traumáticas, partindo da hipótese de que os autorretratos de Frida Kahlo funcionam como uma repetição diferencial, isto é, uma repetição que transforma, e não apenas repete sintomaticamente o sofrimento. Uma vez que o sofrimento parece ser constitutivo da história de vida da pintora mexicana – com um histórico de poliomielite na infância que lhe deixou sequelas, um acidente que quase lhe custou a vida, requisitou numerosas cirurgias e lhe impediu de gerar filhos, e um relacionamento conturbado – o artigo examina como é possível o entrelaçamento entre seu processo criativo e a capacidade de (re)elaborar memórias traumáticas. De modo mais específico, o texto opera uma análise sobre a maneira como Frida Kahlo ressignifica o sofrimento decorrente de um aborto involuntário através da confecção da tela Hospital Henry Ford, de 1932.
O objetivo deste artigo é destacar o caráter violento da ordem do significante da teoria lacaniana de modo que essa violência serve de fundamento para todas as outras que se desdobram no meio social. Dessa maneira, utilizamos a definição de violência apresentada por Slavoj Žižek para que se possa diferenciar a violência enquanto subjetiva, objetiva e do significante. Após isso, nos detemos em abordar a constituição do campo simbólico a partir da fantasia, para explicitar o caráter violento do significante que separa o sujeito da efetividade, permitindo a apreensão do mundo e a vida em sociedade, mas que impossibilita o combate a violência do significante. Por fim, apresentamos o ato de Antígona como uma possibilidade de combate à violência do significante.
Depois de esboçar os elementos essenciais do paradigma freudiano, o artigo prossegue descrevendo a crise desse paradigma tal como ela foi vista por Winnicott, para articular, na sua terceira e última parte, alguns dos aspectos mais inovadores da mudança paradigrnática operada pelo psicanalista inglês na disciplina psicanalítica.
Trata da apresentação do VII Congresso Internacional de Filosofia da Psicanálise de Teresina Piauí, realizado em setembro de 2017 cujo escopo consiste na análise de temas que articulam filosofia e psicanálise, a saber Corporeidade e Vulnerabilidade.
Este ensaio tem o objetivo de refletir sobre a abordagem que o filósofo Karl Popper faz sobre a questão da mente. Popper foi um dos filósofos mais importantes do século XX. Sua obra trata de diversos assuntos que vão da ciência, lógica, política, metafísica e da questão da mente. Além de criticar severamente e rejeitar a indução na ciência, Popper tem um critério de demarcação inovador para classificar a ciência da não ciência. Este critério batizado de falseabilidade veio como uma substituição ao critério de verificação. Este critério defende que uma teoria científica é sempre provisória e nunca definitiva. Uma teoria científica é sempre uma conjectura que pode a qualquer momento ser refutada. Com base neste critério, Popper faz uma crítica ao status epistemológico do marxismo a psicanálise. Para ele, estas duas áreas do conhecimento não passam no seu critério de falseabilidade. O marxismo porque teve algumas proposições de sua teoria refutadas e não foi entendida por seus adeptos como uma refutação do marxismo. Estes, para Popper, estavam agindo como dogmáticos. Já a psicanálise, para Popper, colocava suas proposições de tal forma que não poderia ser refutada. Para ele, havia a necessidade de que os teóricos da psicanálise reformulassem a estrutura desta para que suas proposições estivessem abertas à refutação. Para ele, o marxismo deixou de ser ciência quando não aceitou a refutação e a psicanálise, ainda, não é ciência até apresentar suas proposições, de tal forma, que possam ser refutadas. Popper também trabalha a questão da mente quando elabora a teoria dos três mundos. Este seu trabalho está expresso principalmente no livro O Eu e o seu cérebro, escrito em parceria com o ganhador do prêmio Nobel de Medicina, o neurofisiologista John Eccles. Popper ainda trata do deste mesmo assunto em capítulos de suas outras obras e em outros artigos. Esta comunicação discute o tratamento de Karl Popper em relação à questão da mente.
A mudança do comportamento ético acerca da relação entre as pessoas e o meio ambiente natural é exigência do antropoceno. Uma ética ambiental centrada no antropocentrismo não atende à demanda da emergência climática, sendo imperioso que a solidariedade relacionada às questões ambientais seja intrageracional, intergeracional, e interespécies. Assim, é inaceitável a prática de degradação ambiental por ação humana, porque o dano ambiental compromete o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, cuja preservação cabe tanto ao Estado quanto à coletividade, e deve ser assegurado não só às presentes, mas também às futuras gerações. É a preservação que deve permear a proteção ambiental, e pela prevenção e pela precaução, atende-se às exigências do biocentrismo, ética ambiental que considera importantes todas as formas de vida na terra. Assim, o problema da pesquisa envolve, considerando o princípio da solidariedade concernente ao direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, qual sua relevância à teoria do dano ambiental futuro. Os objetivos são conceituar o princípio da solidariedade, definir dano ambiental e correlacioná-lo à sociedade do risco, como esforço para apontar sua relevância para a teoria do dano ambiental futuro. A metodologia é dialética e a técnica é bibliográfica. Os resultados apontam que, na sociedade do risco, as consequências de um dano ambiental protraem-se no tempo, não sendo suficiente a resolução da responsabilidade ambiental apenas pelo dano percebido objetivamente no momento de sua ocorrência, e a solidariedade intergeracional demanda evitar o dano ambiental no presente para a garantia do direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado às futuras gerações.
O presente artigo pretende demonstrar como, para Hans Jonas, o poder se constituiu, na modernidade, como um elemento central da subjetividade humana, fato que se efetiva na caracterização da nossa como uma civilização tecnológica, principalmente no que diz respeito à pretensa reforma do ser humano, tal como ela se tornou o elemento central do projeto melhorista e transhumanista. A partir daí, demonstraremos como Jonas substitui o poder pela responsabilidade, para efetivá-la como elemento subjetivo central, quando associada à ideia de autenticidade da vida humana. Abordar as exigências éticas ligadas à responsabilidade presentes no avanço dos poderes tecnológicos, portanto, significa também levar em conta os seus impactos sobre os processos de subjetivação que, em última instância, estão ligados à própria ideia de uma “natureza” - ou “condição” - humana.
O artigo examina a duradoura influência que Agostinho de Hipona exerceu na obra de Martin Heidegger. No volume 60 da Gesamtausgabe heideggeriana (intitulado Fenomenologia da Vida Religiosa), o filósofo alemão trata do conceito agostiniano de Curare em articulação com os fenômenos da memoria e da tentatio, presentes na obra Confissões. Para Heidegger, os escritos de Agostinho servem como material hermenêutico para demonstrar como o surgimento de uma cosmovisão cristã, fundamentada no Curare, fornece uma imagem que permitirá a Heidegger operar a formulação do ‘cuidado’ (Sorge) enquanto existencial da presença (Dasein). Portanto, o intuito do artigo é demonstrar como o conceito de Curare serve como protótipo para o que, mais tarde, Heidegger denomina de Sorge em Sein und Zeit.
Nos argumentos que fazem parte da querela tradutória em torno do Trieb freudiano, é muito comum que duas abordagens complementares sejam adotadas: de um lado, a discussão de aspectos etimológicos e semânticos da palavra alemã, e, de outro, a elaboração conceitual que Freud faz dela. Neste artigo, esboçamos um programa de pesquisa com uma outra diretriz: estudar o emprego do conceito de Trieb em textos não-freudianos, mas que direta ou indiretamente puderam influenciar a teorização de Freud; trata-se, portanto, de um estudo de matiz histórico-conceitual, e não apenas interno, do conceito. Com efeito, ao abrir seus Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, Freud elenca uma série de autores nos quais se baseou para formular seus próprios raciocínios sobre o Geschlechtstrieb, e não em vão todos eles utilizam o mesmo termo. A pesquisa, ainda em estado incipiente, demonstra a pertença da teorização freudiana acerca do Trieb a um panorama científico muito mais amplo (abarcando a neurologia, a fisiologia, o evolucionismo, a sexologia, a reflexologia etc.), o que torna anacrônica a tradução do Trieb freudiano pelo quase-neologismo francês “pulsão”. Com isso, não se pretende fechar a discussão, mas sim abri-la, pois novas pesquisas são requeridas para enriquecer o debate.
O presente texto tem por objetivo elucidar alguns dos principais aspectos que constituem uma “Atitude Decolonial” em Psicoterapia de base Fenomenológico-Hermenêutica. Dentre eles, estão a análise interseccional sobre o horizonte histórico de ambos, terapeuta e paciente; a realização de uma ética amorosa que vise ao crescimento espiritual, tal como descrito por bell hooks; a facilitação da narrativa em primeira pessoa; como destacado por Grada Kilomba e, por fim, a sustentação do pensamento meditante sobre o sentido da existência como recurso na lida com a angústia originária, como indicado por Martin Heidegger.
Este artigo, foi escrito a partir da comunicação que fizemos no V Colóquio Luso Brasileiro de Ética e Filosofia Política, e procura dar uma perspectiva do pensamento de Verbeek a respeito da ética e mediação tecnológica, baseada no ponto de vista da mediação descrita na ontologia inter-relacional pós-fenomenológica de Don Ihde e no conceito de “guião” (script), desenvolvido por Madeleine Akrich e Bruno Latour, em dois domínios, o do design e o da política. Procura, também, confrontar a posição de Verbeek com uma crítica à sua proposta de métodos de design de artefactos tecnológicos, por um lado, e à sua proposta para a acção política, por outro, e que resulta a nosso ver da sua posição ser demasiado intencionalista, apesar de se inscrever no quadro da posição pós-fenomenológica de Ihde. Por isso propomos que partindo da mediação tecnológica descrita por Verbeek, e atendendo à crítica feita, que se pense a questão ética e política a partir do pressuposto de que a sociedade é constituída por um conjunto de subsistemas sociais funcionalmente diferenciados, conforme a teoria dos sistemas sociais de Niklas Luhmann. Num primeiro ponto, trataremos do domínio da ética no design e desenvolvimento de artefactos tecnológicos enquanto estes levantam a questão da mediação. Para isso recorremos do artigo “Materializing Morality: Design, Ethics and Technological Mediation” (2006), um resumo da obra “What Things Do. Philosophical Reflections on Technology, Agency, and Design” (2005) sendo a sua posição sobre o tema exposta de forma mais vasta na sua obra “Moralizing Technology: Understanding and Designing the Morality of Things” (2011), de que o artigo em causa é parte. Num segundo ponto, trataremos da dimensão política recorrendo do artigo “Resistance Is Futile: Toward a Non-Modern Democratization of Technology” (2013). Por fim, num terceiro ponto, fazemos uma crítica da posição de Verbeek, colocando-nos no âmbito que não aquele que decorre das “intenções” da tecnologia, mas sugerindo o da teoria de Niklas Luhmann dos sistemas sociais, pois o estado atual do avanço tecnológico colocou a agência não-humana em pé de igualdade com a agência humana, podendo até haver uma situação assimétrica em que o ser humano é diminuído e a sua vida ser definida pelo sistema ou artefato tecnológico distinto que modificam as condições de liberdade e de responsabilidade ética (Herrera-Veja, 2025, pág. 12) e, a isso, nós acrescentamos, de acção política.
A técnica ou tecnologia modifica o modo de ser e agir do ser humano. Por isso se torna objeto de estudo da filosofia. Sobre a questão ética, analisa-se a dimensão política dos riscos e danos decorridos do desenvolvimento tecnológico. Neste artigo, essa observação é dividida em duas categorias temáticas: Biotecnologias e Meio Ambiente. Em ambos os casos se conclui que as mesmas dinâmicas das relações de poder e vulnerabilidades já observadas na sociedade são refletidas e até amplificadas pelas consequências do desenvolvimento tecnológico. A fim de observar esse fenômeno multifacetário, a bioética enquanto campo de estudo inter e multidisciplinar, pode ser o campo de diálogo apropriado com tanto que se atente à fundamentação teórica oriunda da filosofia e das outras áreas de conhecimento.
O presente dossiê, generosamente acolhido pela Revista Natureza Humana, trata de um tema não apenas urgente, como central para o pensamento filosófico contemporâneo: a relação entre poder e justiça. Aqui estão alguns dos textos que foram apresentados no V Colóquio Luso-Brasileiro de Ética e Filosofia Política, cujo tema foi “Caminhos da Justiça - Diálogos Contemporâneos”, realizado entre os dias 29 e 30 de julho de 2024, na Sala 131 do Colégio do Espírito Santo, na Universidade de Évora, em Portugal. Esse colóquio é organizado anualmente e em 2024 consolidou uma parceria muito fortuita entre o PRAXIS - Centro de Filosofia, Política e Cultura, o Instituto de Investigação e Formação Avançada da Universidade de Évora, o Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná e o Centro Hans Jonas Brasil, com o apoio da FCT. Nessa ocasião, diferentes pesquisadores e pesquisadoras do Brasil e de Portugal tiveram oportunidade de apresentar e discutir suas pesquisas em um clima fraterno e amigo, como é adequado quando se fala de um evento filosófico. O pensamento, além disso, foi favorecido pela acolhida dos colegas de Évora, pelo encanto da cidade e pelo ambiente daquela universidade, cujos famosos azulejos remontam ao século XVIII e traduzem com imagens o que é a vida universitária e o espírito desse colóquio: um lugar de estudo e produção do conhecimento na forma de um diálogo rigoroso e bemintencionado.
Na leitura do §32 de Ser e tempo, compreendemos que o sentido não é uma propriedade que pode ser atribuída ao Dasein, mas constitui seu modo de ser. O sentido não é uma coisa articulada “dentro-do-mundo” ou algo restrito ao juízo. O sentido, compreendido de modo propriamente ontológico, não é o sentido ôntico disso ou daquilo ou o sentido de um juízo, mas o articular-se ontológico do ser que nós mesmos somos como ser-no-mundo. A estratégia para exibir a profundidade com que Heidegger apresenta o sentido em Ser e tempo será feita com base na distinção entre o sentido categorial e o sentido existencial que, muito mais amplo que o resultado de um ato judicativo, se articula na abertura de possibilidades do Dasein enquanto ser-no-mundo. Deste modo, evidenciamos a inseparabilidade entre as noções de sentido e mundo em Ser e tempo.
A polêmica disputa entre Albert Camus e Jean-Paul Sartre, situada no início dos anos 1950, ganhou os holofotes dos meios acadêmicos franceses de sua época. O cerne da discussão, conhecida por ter sido o motivo do rompimento da amizade entre os dois autores, girava em torno dos limites e das justificativas da violência como forma de ação política. Enquanto Sartre e outros pensadores de seu ciclo optavam por justificar, ou ao menos não denunciar, parte da ação violenta de um governo ou de um grupo em nome dos fins que defendiam, Camus não aceitava o terror, mesmo que reconhecesse sua inevitabilidade. O presente estudo, almejando ir além da polêmica Camus-Sartre, busca resgatar, em uma interpretação mais abrangente da obra camusiana, as bases de seu pensamento político. Para tanto, utiliza-se não apenas seu ensaio O Homem Revoltado, pivô daquela polêmica, mas, também, suas peças de teatro, como Os Justos, e seus artigos publicados na coletânea Actuelles (“Atuais”). Busca-se, ainda, sugerir uma chave interpretativa para o pensamento político camusiano a partir de uma espécie de “princípio solidariedade”, que consiste em centralizar a solidariedade como força motriz da ação política, superando o problema da inevitabilidade do terror. Por fim, explora-se, a partir da ideia de “economia da utopia” as reflexões camusianas acerca das utopias, que discutem seu preço e buscam ressignificá-las.
O presente artigo explora a relação entre a cibercultura algorítmica e a tecnificação do mal-estar na sociedade contemporânea. Partindo da premissa de que a intervenção humana no estado natural das coisas, impulsionada pelo desenvolvimento técnico e científico, soluciona problemas, mas também gera novas formas de sofrimento, o estudo analisa como a cibercultura intensifica essa dinâmica. A pesquisa aborda a segregação digital, as bolhas de filtros e os domínios do ciberespaço como mecanismos que, ao invés de promoverem a diversidade e a abertura subjetiva, podem levar à exclusão e à homogeneização do pensamento a partir de um processo de condominização digital. A análise se baseia em referenciais teóricos da psicanálise, sociologia e ciência da computação, destacando a importância de uma reflexão crítica sobre os impactos da tecnologia no sujeito e no laço social. Conclui-se que a tecnificação do mal-estar na cibercultura algorítmica exige uma atenção constante aos seus efeitos segregativos e à necessidade de promover uma gestão mais democrática e inclusiva do ciberespaço.