
RESUMO O presente texto presta homenagem a Estevão de Rezende Martins (1947-2025), figura central na consolidação da teoria da história e da história da historiografia no Brasil. Mobilizando ferramentas características da história intelectual, o artigo reconstrói a trajetória do homenageado, apresentando-o como um humanista capaz de transitar por diferentes campos disciplinares, especialmente a filosofia, a história, a pedagogia e as relações internacionais. A exposição estrutura-se em três eixos. O primeiro examina a formação inicial de Martins em história da filosofia, consolidada na tese doutoral sobre o conceito de liberdade em Kant, que serviu de alicerce para um diálogo cosmopolita com a tradição teórica alemã. O segundo eixo aborda a sua transição para a teoria da história e algumas das suas contribuições para o campo, com destaque para a tese epistemológica do “realismo mitigado”, bem como para a concepção da escrita da história como uma modalidade de ação racional. Por fim, o texto tematiza a atuação de Martins nos campos da história parlamentar e das relações internacionais, colocando-a em relação com a sua experiência de trabalho em entidades do poder legislativo e executivo federais. Um dos importantes legados de Estevão Martins, conclui o texto, reside na defesa da historiografia como ferramenta crítica de emancipação. A sua trajetória e os seus escritos permanecem como referenciais éticos e intelectuais indispensáveis, especialmente na medida em que, em meio à crise política global em que vivemos, se vão fechando portas à emancipação e à crítica.
RESUMO Este artigo tenciona trazer ao público brasileiro, principalmente ao público acadêmico, a existência da prática do Laturu ifá bambara, isto é, a geomancia tradicional do oeste africano. Mas o mais importante, ele tenta mostrar o diálogo intenso e rico que existe entre os 16 principais orixás brasileiros com as 16 famílias sagradas do Laturu ifá bambara. Pois, por mais que a ciência espiritual do Laturu ifá bambara seja hoje amplamente difundida e conhecida na África ocidental, é uma constatação cristalina de que ela é completamente desconhecida no Brasil. O texto também traz esclarecimentos importantes entre o Laturu ifá bambara e a prática do Ifá Yorubá da Nigeria, ainda que ambos operem com as mesmas raízes da Geomancia. Certamente um dos intuitos derradeiros desta reflexão é o de reivindicar o legado islâmico por trás das religiões de matriz africana do Brasil. Pois aqui não se tratou apenas de observar os inúmeros aportes culturais do Islã no Brasil em geral, e em particular nas religiões brasileiras de raiz africana, apontando a presença muçulmana na indumentária, na corruptela de vários nomes e hábitos; mas tratou-se, sobretudo, de avançar mais fundo na questão espiritual, isto é, da quintessência com a ideia de revelar semelhanças gritantes entre o Laturu ifá bambara banhado nas águas do Islã e as religiões brasileiras de matriz africana, cuja conexão com a Revolta dos Malês é hoje inquestionável.
RESUMEN Este artículo analiza las representaciones culturales y políticas de la chilenidad promovidas en Chile entre 1920 y 1940, enfocándose en las discusiones reflejadas en el diario La Nación, en particular, en las secciones de cultura. Este periódico permite observar cómo se debatió la construcción de una nueva identidad nacional en el contexto del Frente Popular, promoviendo el agenciamiento de nuevos discursos. El artículo sostiene que, aunque las representaciones mostraron continuidad discursiva en tópicos culturales en el arte, el modelo editorial evidenció tensiones al abordar conflictos políticos en la cultura.
RESUMEN El artículo propone una traducción y comentario inédito en lengua española de la famosa inscripción honorífica de Kyme en honor al romano Lucius Vaccius Labeo (IK Kyme 19, 2 a.C.- 14/15 d.C.). Su finalidad es integrar traducciones científicas rigurosas de inscripciones grecorromanas al debate académico multidisciplinario regional de los estudios clásicos. Con este objetivo, adoptamos el formato científico del comentario epigráfico y dividimos el análisis en tres secciones. Primero, explicamos brevemente el valor de la epigrafía para los historiadores clásicos latinoamerianos. Segundo, presentamos el texto griego, su traducción y el aparato crítico. Tercero, se elabora un comentario que ofrece los pormenores epigráficos e históricos del contenido de la inscripción, así como de su descubrimiento, catalogación y traducciones.
RESUMO Em 26 de dezembro de 1929, por conta de uma matéria apontando seu suposto adultério, Sylvia Serafim marcou a história da imprensa brasileira ao assassinar Roberto Rodrigues. No entanto, entrou como personagem secundária, coadjuvante na vida de Nelson Rodrigues, irmão de Roberto. Por meio de uma aproximação biográfica e com a formulação de crítica sobre a sua obra inédita, este artigo propõe um retorno à complexidade desta personagem; e trazer luz sobre alguns de seus escritos, esquecidos em função do crime. Olhar para Serafim como uma figura multifacetada permite adicionar camadas heterogêneas sobre um indivíduo até hoje interpretado unilateralmente. Por fim, evidencia-se, também, a atualidade e relevância de seus escritos jornalísticos e políticos, bem como as questões de gênero envolvidas em seu apagamento e desumanização.
RESUMO A obra El Paraguay Cathólico, escrita em 1770 pelo padre jesuíta José Sánchez Labrador - durante seu exílio na Itália -, e cuja Parte Tercera apresentamos e analisamos neste artigo, permite não apenas a reconstituição das estratégias de missionação adotadas pelos missionários jesuítas e de seus êxitos ou insucessos, mas também a discussão das percepções que estes religiosos tiveram da natureza americana e, ainda, das apreciações e das apropriações que fizeram dos saberes e das práticas das populações nativas junto as quais atuaram na América platina. Nela, o missionário encarregado de realizar expedições exploratórias por seus Superiores, com vistas à evangelização dos nativos e à instalação sustentável de reduções, empenhou-se em apontar a fertilidade dos territórios que percorreu, a diversidade de sua fauna e flora, bem como a possibilidade de as terras serem exploradas tanto através da agricultura, quanto da pecuária. Neste artigo nos valemos da versão manuscrita da Parte Tercera, que se encontra disponível para consulta no Archivo Historico de la Provincia de Toledo de la Compañía de Jesús (AHPTSJ), localizado em Alcalá de Henares, na Espanha, para apresentar as percepções de seu autor sobre a hidrografia da Província Jesuítica do Paraguai, com destaque para as características dos rios da região, para as virtudes e outros usos da flora e da fauna que junto deles podiam ser encontradas e para suas condições de navegabilidade, tanto para o abastecimento das populações que viviam junto a eles, quanto para a circulação de pessoas e de mercadorias.
RESUMO O presente artigo analisará a trajetória de Henri Senghor como embaixador da República do Senegal no Brasil entre 1964 e 1969. Tal exercício possibilitará entender a política externa senegalesa em relação ao Brasil e as estratégias adotadas por Senghor para aqui viabilizar os anseios e interesses do seu governo e de aliados dele. Igualmente, discutiremos o contexto brasileiro, as políticas externas dos sucessivos governos, democráticos e ditatoriais, para o continente africano e, por fim, como o embaixador Senghor interagiu com diferentes segmentos da sociedade brasileira.
RESUMO O artigo analisa o romance Jeqe, the Bodyservant of Shaka, originalmente publicado sob o título Insila kaShaka (1931), do educador e político sul-africano John Langalibalele Dube, com ênfase na construção de uma identidade nacional zulu no entrelaçamento entre história e literatura. O foco recai sobre as conexões entre a trajetória e a produção literária de Dube e os movimentos culturais e políticos das primeiras décadas do século XX, particularmente no contexto das articulações políticas promovidas por líderes sul-africanos diante do avanço das legislações segregacionistas. Em Jeqe, Dube buscou idealizar um novo tipo de homem zulu e ressignificar a memória coletiva de figuras associadas à fundação e expansão do reino Zulu, como Shaka kaSenzangakhona, explorando o passado como fonte de estratégias para enfrentar as novas realidades políticas do Estado nacional sul-africano.
RESUMO O presente artigo analisa as representações de Cândido Mariano da Silva Rondon veiculadas pela imprensa, inserindo-as no contexto de uma disputa entre o Serviço de Proteção ao Índio e a Igreja Católica pelo controle da administração das populações indígenas, pela obtenção de recursos estatais e pela legitimação pública de seus projetos. No centro dessa controvérsia figuravam Rondon, defensor de uma política indigenista laica, orientada pelos princípios do positivismo, e o padre salesiano Antonio Malan, representante dos interesses da catequese religiosa e da ação missionária católica. Ambos encarnavam projetos antagônicos de República: de um lado, a valorização da laicidade e da secularização; de outro, a defesa dos valores religiosos tradicionais e a rejeição aos chamados “erros modernos”. Essas tensões foram amplificadas pela imprensa, que politizou o debate conforme suas orientações ideológicas e interesses econômicos. Nesse cenário, Rondon tornou-se alvo de uma intensa campanha de deslegitimação, sendo atacado tanto em sua atuação pública quanto em sua vida pessoal, e retratado como adversário da religião católica e das tradições nacionais.
RESUMO Este artigo tem como objetivo analisar a série Licenciosidade dos cinematographos, veiculada pelo jornal A Gazeta, de São Paulo, em 1917. A questão central é observar a relação entre o consumo cinematográfico e o acionamento de medos a partir do lugar de “classe média”. Nosso argumento principal defende o estabelecimento de um modelo ideal de criança que precisava ser protegida para a reprodução material e simbólica da própria “classe média”. O argumento secundário infere como a ida ao cinema poderia se constituir como uma forma de afirmação e de manutenção de um repertório de classe usado para se diferenciar dos segmentos populares; revela-se nas respostas uma retórica racial de afirmação do ideal de branqueamento. A metodologia utilizada é o paradigma indiciário. As fontes são os periódicos e leis do período referentes à competência policial sobre a fiscalização e censura ao cinema. Como resultados, observamos que o jornal A Gazeta auxiliou na perpetuação de uma lógica excludente em termos de gênero, raça e classe.
RESUMEN El artículo analiza la correspondencia de Pedro de Valdivia en tanto dispositivo discursivo que integra la fe como criterio político. La hipótesis plantea que el primer gobernador de Chile concibe la evangelización no como un fin espiritual, sino como un instrumento de legitimación gubernamental y, en consecuencia, como un recurso estratégico para consolidar su autoridad. El estudio introduce el concepto de sacralización del poder para referirse al modo en que la retórica cristiana se instrumentaliza en pos de sostener un proyecto político incipiente y un orden colonial en formación. Los resultados demuestran que la dimensión religiosa afianza la potestad de Valdivia en ausencia de una institucionalidad estable, estructurando la obediencia, la violencia y el dominio en clave teopolítica.
RESUMO Tribuna Negra analisa os primeiros periódicos da imprensa negra lisboeta, examinando o surgimento do movimento negro em Portugal, seus principais autores, as questões centrais de seus debates e suas conexões com movimentos internacionais, em especial o panafricanismo. Atentos à emergência de um discurso antirracista e, em muitos casos, anticolonial, os autores revelam a produção intelectual de homens e mulheres negros residentes em Lisboa, discutindo as dificuldades e demandas dessa parcela da população. Ao contribuir para debates recentes na história da imprensa e dos movimentos negros transnacionais, a obra explora a complexidade das lutas contra a colonização portuguesa na África no século XX, bem como as articulações entre os intelectuais responsáveis pelos periódicos e o movimento panafricanista - tema que também tem ganhado relevância em estudos contemporâneos.
RESUMO O presente artigo tem o objetivo de analisar como a organização revolucionária Ação Popular (AP), uma das mais representativas da esquerda brasileira das décadas de 1960 e 1970, incorporou o maoísmo na formulação de seu projeto estratégico e na elaboração de sua identidade. Fundada em congresso realizado em 1963, a AP caracterizou-se, inicialmente, pela proposição de um projeto socialista humanista, aberto a diferentes influências filosóficas, como o marxismo, o cristianismo e o existencialismo. Depois do Golpe de Estado de 1964, na conjuntura da implantação da Ditadura, abriu um processo para a retificação de sua estratégia e redefinição de sua identidade, tendo como eixo norteador o marxismo. Em 1968, a AP aprovou uma estratégia claramente inspirada no legado da Revolução Chinesa e assumiu a identificação com o maoísmo, definido como a terceira etapa do marxismo, o marxismo-leninismo da atualidade. A análise demonstra que esse foi um marco decisório na adesão da AP a uma linha estratégica maoísta, mas não foi o início da história dessa recepção. Da mesma maneira, demonstra que os termos da elaboração então sistematizada foram confrontados e modificados em conjuntura posterior. Embora o período de maior influência do maoísmo ocorresse entre 1968 e 1973, do início ao fim da história da AP, a temática da Revolução Chinesa fez parte do seu universo de referências, sujeitando-se ao escrutínio dos debates internos e das sucessivas redefinições que o projeto da organização sofreu. Por isso, infere-se que não é possível falar em um sentido unívoco da relação da AP com o maoísmo.
RESUMO Este artigo analisa como o Conselho de Índias, instituição conciliar espanhola responsável pela gestão das Índias ocidentais durante a Idade Moderna, se preocupou constantemente, durante o século XVI, com a produção e a circulação das informações no processo de interação comunicativa entre a América e a Europa. Em função disso, diversos instrumentos que visavam solicitar e controlar as informações foram desenvolvidos. Entendemos que a censura, isto é, a prática de analisar, rasurar, entesourar e retirar de circulação livros, especialmente crônicas de Índias, se configurou como um importante instrumento político de controle informativo por parte do Conselho, sobretudo a partir da segunda metade do século. Todavia, a censura e a prática censória foram pouco visitadas pelos estudos que se dedicaram à produção e circulação do saber no Império Espanhol. Nesse sentido, este trabalho também evidencia como a censura se tornou um instrumento de controle político do saber, impactando diretamente a comunicação entre os súditos e o Conselho de Índias. Essas constatações são comprovadas por meio do exemplo documental do franciscano Pedro de Aguado e sua crônica Recopilación Historial, avaliada pelo Conselho entre 1575-1582.
RESUMO Este estudo de caso múltiplo pretende dar a conhecer a forma como os documentos curriculares oficiais de dois Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) enquadram o ensino da História (da África). Explorou-se, assim, certa dimensão da realidade educativa de Angola e de Cabo Verde, países selecionados pelo acesso possível, na internet, aos programas da componente curricular de História para diferentes níveis de ensino e pelo conhecimento prévio dos autores. Sem interpretar os resultados alcançados como passíveis de generalização para outros contextos nacionais, os dados recolhidos permitem tecer considerações a propósito de conteúdos específicos privilegiados, de competências do pensamento histórico potenciadas pelo ensino da História de África delineado, da articulação entre essa perspetiva mais abrangente e a História local ou nacional e, ainda, das orientações que remetem para a formação cidadã e identitária dos jovens estudantes. Trata-se de uma investigação reveladora de diferenças entre os dois países no que concerne os saberes selecionados e finalidades formativas assumidas, corroborando a relevância de documentos oficiais contextualizados, mas também de proximidades relacionadas com a intenção de contrariar a visão eurocêntrica que tende a prevalecer quando se conta a História da Humanidade.
RESUMO Este artigo propõe uma descrição panorâmica das contribuições teóricas da antropologia, da arqueologia, dos estudos de cultura material e da materialidade para a investigação historiográfica. Ele tenta delinear possíveis alianças entre o arcabouço teórico da materialidade e os problemas colocados pela historiografia hodierna, inserindo tal movimento no seio de uma mudança de paradigma pós-humanista na história. Ele defende que as transformações vividas no presente realçam a importância de se resgatar a ação das coisas não-humanas em nossas descrições e explicações sobre o mundo. Após a descrição da trajetória dos desenvolvimentos teóricos no campo, o artigo demonstrará, a partir de abordagens concretas e recentes, seus diversos potenciais de aplicação prática. Por fim, sopeso os limites e benefícios da teoria da materialidade e conclamo os historiadores a acolherem essa inovadora consciência ontológica em seus estudos.
RESUMO Recorrendo às teorias da recepção, o artigo pretende avaliar como os textos dramáticos e espetáculos impactaram a causa antiescravista antes de 1880, antes que a campanha abolicionista se intensificasse. Para tanto, analisa a censura do Conservatório Dramático, os anúncios e as matérias sobre os espetáculos publicadas em jornais. Avalia, ainda, como o tema da escravidão foi empregado na polêmica entre Joaquim Nabuco e José de Alencar, publicada no jornal O Globo. Em seguida, investiga como a escravidão doméstica, evidenciada na peça O demônio familiar (1857), foi interpretada por romancistas e dramaturgos posteriores. O artigo tenta comprovar que, entre 1850 e 1870, o teatro teve pouco impacto no debate sobre a escravidão. A recepção dessa dramaturgia elegeu outros temas para além das mazelas da escravidão.
Resumo: O objetivo é compreender o movimento missionário dos padres operários ocorrido em duas temporalidades e espaços diferentes. Primeiro na França, no início da década de 1940. Depois no Brasil, a partir da primeira metade dos anos 1960. Procura-se traçar conexões, continuidades, semelhanças e diferenças entre as duas missões, realizadas em duas conjunturas distintas durante a Guerra Fria. O estudo mostra como a experiência de proletarização foi significativa para a criação de laços de solidariedade entre a Igreja e os trabalhadores, bem como para a formação das chamadas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) no Brasil, tão importante para os movimentos sociais nos anos 1970.